Pensões são o ‘calcanhar de Aquiles’ na próxima década: Portugal, Espanha e Itália têm ‘bomba’ em mãos, alertam especialistas

Países como Portugal, Itália, Grécia e Espanha, conhecidos pejorativamente como PIGS, enfrentam um contexto particularmente complexo

Francisco Laranjeira
Janeiro 16, 2026
12:55

A sustentabilidade das pensões tornou-se o maior desafio fiscal para a maioria dos países da zona euro. O envelhecimento populacional, aliado à redução da força de trabalho, aumenta os custos de manutenção dos pensionistas e cria um cenário preocupante para economias já fragilizadas, em especial nos países do sul da Europa.

Países como Portugal, Itália, Grécia e Espanha, conhecidos pejorativamente como PIGS, enfrentam um contexto particularmente complexo. A combinação de envelhecimento acelerado da população, reformas previdenciárias insuficientes e mercados de dívida já pressionados pode gerar défices mais elevados, crescimento mais lento e turbulências financeiras na próxima década.

Crescimento dos custos e impacto económico

Segundo um relatório da ‘Capital Economics’, a despesa média com pensões na zona euro deverá aumentar cerca de 1% do PIB na próxima década. Embora este valor possa parecer modesto, em economias com défices estruturais elevados, cada ponto percentual adicional representa um risco significativo para a confiança dos mercados. A situação é agravada pelo facto de muitas reformas previdenciárias serem implementadas de forma gradual ou parcialmente revertidas, deixando espaço para reformas antecipadas e aumentando a pressão futura.

Em Espanha, a primeira geração de baby boomers começou a reformar-se em 2023, e prevê-se que a população com mais de 65 anos cresça em mais de 6 milhões até 2050, enquanto a população em idade ativa diminuirá em mais de 800 mil pessoas. Este desequilíbrio demográfico poderá reduzir o PIB per capita até 20% ao longo das próximas três décadas, segundo a OCDE, colocando o sistema de pensões espanhol como o mais caro da organização, com projeções a atingir 17,3% do PIB em 2050.

Itália e os desafios estruturais

Itália enfrenta um cenário igualmente crítico. O gasto público com pensões representa cerca de 13% do PIB, segundo a ‘Capital Economics’, e poderá aumentar em mais de 1,5% na próxima década devido ao envelhecimento da população. Apesar de ter implementado reformas estruturais, incluindo a transição para um sistema de contribuição definida e a vinculação da idade legal de reforma à expectativa de vida, a pressão demográfica e a baixa taxa de fertilidade mantêm o país em risco de desequilíbrios fiscais graves.

O Governo de Giorgia Meloni reduziu recentemente o défice para menos de 3%, evitando medidas corretivas imediatas da União Europeia. Contudo, o adiamento de ajustes significativos nas pensões cria uma “bombarrelógio” que poderá provocar instabilidade nos mercados de títulos se não for corrigida a tempo.

Portugal e os PIGS restantes

Portugal, apesar de ter apresentado melhorias económicas e redução da dívida, não está imune ao desafio das pensões. Prevê-se que os gastos aumentem cerca de 1,5% do PIB na próxima década, impulsionados pelo envelhecimento da população. Reformas implementadas atenuarão parcialmente este aumento, mantendo o impacto líquido em torno de 0,5% do PIB, ainda abaixo da média da zona euro. Grécia e outros países do sul enfrentam desafios semelhantes, embora em escalas ligeiramente inferiores.

O envelhecimento demográfico, a insuficiência das reformas previdenciárias e o elevado nível de dívida pública criam um cenário de grande vulnerabilidade fiscal para os países do sul da Europa. A próxima década será decisiva para a sustentabilidade das pensões e para a estabilidade económica da zona euro. A inação ou a implementação gradual de medidas poderá agravar os desequilíbrios, tornando inevitáveis ajustes mais severos no futuro.

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