Diosdado Cabello: O homem mais temido da Venezuela promete ‘lutar’ contra os EUA

Diosdado Cabello, ministro do Interior e figura mais temida do chavismo, emergiu esta semana como o principal rosto da ala mais radical do regime venezuelano, ao prometer um confronto direto com os Estados Unidos e exigir a devolução do presidente Nicolás Maduro, detido em Nova Iorque.

Pedro Gonçalves
Janeiro 8, 2026
19:03

Diosdado Cabello, ministro do Interior e figura mais temida do chavismo, emergiu esta semana como o principal rosto da ala mais radical do regime venezuelano, ao prometer um confronto direto com os EUA e exigir a devolução do presidente Nicolás Maduro, detido em Nova Iorque. A postura beligerante do antigo militar contrasta com o discurso mais conciliador da presidente interina, Delcy Rodríguez, e expõe as tensões internas no poder em Caracas num momento de extrema fragilidade política.

Na noite de quarta-feira, Cabello surgiu num discurso televisivo sentado atrás de uma secretária decorada com uma estátua de Hugo Chávez e um grande bastão cerimonial, olhando fixamente para a câmara enquanto acusava Washington de manter Maduro como “prisioneiro de guerra” numa cela em Nova Iorque. “O presidente foi raptado e é um prisioneiro de guerra numa cela de Nova Iorque — exigimos que no-lo devolvam vivo”, declarou. Avisou ainda que a decisão norte-americana “mais cedo ou mais tarde vai sair cara” e garantiu que “a Venezuela não se rende”.

O tom adotado por Cabello afasta-se claramente da posição assumida por Delcy Rodríguez, que, desde que assumiu a presidência interina, tem defendido a necessidade de “trabalhar em conjunto” com os Estados Unidos. Ainda assim, analistas consideram que Cabello, um dos ideólogos anti-imperialistas mais ferrenhos do regime, representa o maior desafio interno à liderança de Rodríguez.

Antigo oficial do Exército, Cabello participou ao lado de Chávez na tentativa falhada de golpe de Estado em 1992. Desde então, construiu uma base de poder própria, comandando forças policiais, serviços de informação, unidades militares e os temidos colectivos armados, milícias civis que patrulham bairros em motociclos armados, fiscalizando telemóveis e intimidando a população.

Nos últimos dias, o próprio Cabello divulgou vídeos em que surge nas ruas de Caracas a comandar homens armados com espingardas, punhos erguidos, entoando palavras de ordem como “Sempre leais, nunca traidores”.

Uma figura incontornável para a sobrevivência do regime
Manter Cabello alinhado com o poder central é visto como uma das tarefas mais delicadas para a presidente interina. Eva Golinger, advogada próxima de Hugo Chávez, sublinhou que Cabello “é uma figura muito poderosa na Venezuela” e que “comanda um sector diferente daquele que Delcy controla”. Segundo Golinger, “isso é crítico para a sobrevivência do regime de Delcy neste momento”.

Os colectivos sob influência de Cabello têm capacidade para lançar o país no caos em pouco tempo, e permanece incerto durante quanto tempo ele tolerará eventuais acordos petrolíferos com os Estados Unidos — precisamente o país que o acusa, acusações que Cabello nega, de tráfico de droga, branqueamento de capitais e corrupção.

Um alto oficial das Forças Armadas venezuelanas afirmou que Cabello “não abandonou a sua retórica anti-imperialista e confrontacional” e considerou improvável que venha a adotar “uma postura negocial com os Estados Unidos”.

O Governo venezuelano rejeita qualquer ideia de rutura interna. Um porta-voz oficial afirmou que a alegada ameaça de Cabello à liderança de Rodríguez é “tão falsa que nem devia ter oxigénio”, garantindo existir “unidade total”.

Hostilidade antiga e pessoal contra Washington
A aversão de Cabello aos Estados Unidos é antiga e profundamente enraizada. Após a tentativa falhada de golpe, Hugo Chávez chegou ao poder por via eleitoral e nomeou Cabello como vice-presidente. Em 2002, ambos enfrentaram um golpe liderado por sectores empresariais, com apoio tácito de Washington, durante o qual Cabello assumiu temporariamente a chefia do Estado até à reposição de Chávez.

Esse episódio consolidou, segundo observadores, a perceção dos Estados Unidos como inimigo irreconciliável. Durante mais de uma década, Cabello atacou os “gringos” no seu programa televisivo Con el Mazo Dando (“Com o bastão”), descrito por um site da oposição como uma sucessão de “incoerências verbais”.

A rivalidade com figuras norte-americanas tornou-se também pessoal. Cabello tem dirigido ataques particularmente agressivos ao secretário de Estado Marco Rubio, um dos principais defensores da linha dura contra Caracas. Em 2017, o Miami Herald e a CBS Miami noticiaram que as autoridades norte-americanas acreditavam que Cabello poderia ter ordenado o assassínio de Rubio, então senador, embora a ameaça não tenha sido confirmada. Ainda assim, Rubio recebeu proteção reforçada.

Publicamente, ambos trocaram insultos: Cabello apelidou Rubio de “Narco Rubio”, enquanto o responsável norte-americano o descreveu como “o Pablo Escobar da Venezuela”.

Ambições presidenciais e linhas vermelhas
Cabello é amplamente visto como alguém que nunca abandonou o desejo de ocupar a cadeira presidencial, que chegou a ocupar durante algumas horas em 2002. Antes da morte de Chávez, em 2013, disputou a sucessão, mas acabou derrotado por Nicolás Maduro. Agora, vê a presidência entregue a Delcy Rodríguez.

Uma fonte próxima do Governo reconheceu que mantê-lo sob controlo enquanto se tenta apaziguar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “vai ser muito difícil” para Rodríguez.

Carrie Filipetti, antiga subsecretária-adjunta dos Estados Unidos para Cuba e Venezuela na primeira administração Trump, afirmou que Rodríguez e Cabello “nunca tiveram uma relação fácil” e estiveram “em campos opostos”.

Apesar disso, Cabello manifestou publicamente lealdade. Na quarta-feira, declarou “apoio absoluto e total” à “nossa querida irmã Delcy Rodríguez”, elogiando a sua “bravura” e “força”.

Juan Contreras, antigo deputado socialista próximo de Cabello, garantiu que este permanece “leal à revolução” e, pelo menos por agora, está a “cerrar fileiras” com a presidente interina.

Um equilíbrio instável com os Estados Unidos
Ainda assim, analistas alertam para limites claros. Phil Gunson, do International Crisis Group, afirmou que Cabello tem “linhas vermelhas” e que qualquer “abertura política” é para ele “completamente inaceitável”.

Recentemente, Cabello surgiu em público com um boné onde se lia: “Duvidar é trair!”. A mensagem foi interpretada como um aviso contra concessões excessivas aos Estados Unidos ou à oposição, que poderiam ser vistas como traição ao chavismo.

Golinger considera que, embora o regime esteja, por agora, a manter-se coeso, será “difícil sustentar esse equilíbrio a longo prazo” se Delcy Rodríguez aprofundar a cooperação com Washington, algo que “nunca foi uma relação aceitável para muitos na Venezuela, incluindo Diosdado”.

Uma acusação formal apresentada em Nova Iorque durante a primeira presidência de Trump acusa Cabello de colaborar com guerrilhas colombianas no envio de cocaína para os Estados Unidos. Segundo Golinger e Andrés Izarra, antigo ministro da Comunicação de Chávez, estas acusações reduzem drasticamente qualquer incentivo para cooperar com Washington.

Izarra foi ainda mais longe: “Este tipo tem uma recompensa de 25 milhões de dólares pela sua captura e aparece também na acusação contra Maduro. O que lhe resta? Tem uma arma apontada à cabeça”. Acrescentou que o facto de o chefe de Estado ter sido capturado “debaixo do seu nariz” sem baixas entre os invasores significa que Cabello “foi completamente ultrapassado”.

Um dirigente da oposição em contacto com autoridades norte-americanas afirmou que Cabello “tem de estar sempre atento — até quando vai à casa de banho, pode ser atingido por um drone”.

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