Mais viagens do que o esperado: documentos ligam Trump ao avião de Epstein

Entre os documentos agora acessíveis surgem várias referências ao Presidente dos Estados Unidos, praticamente ausente da primeira divulgação realizada na passada sexta-feira

Francisco Laranjeira

A divulgação de novos documentos relacionados com o caso do milionário pedófilo Jeffrey Epstein prosseguiu nas últimas horas de forma caótica, com a libertação de dois lotes distintos de material. O primeiro foi tornado público ao final da tarde desta segunda-feira, mas acabou por ser retirado do site oficial onde o Departamento de Justiça é legalmente obrigado a publicá-lo. As autoridades não explicaram a razão da remoção, referiu o jornal espanhol ‘El País’.

Já na madrugada desta terça-feira, hora de Washington, foi divulgado um segundo lote, com cerca de 11 mil documentos, que totalizam mais de 30 mil páginas. Embora ainda não tenha sido possível analisar o conteúdo em detalhe, tudo indica que se trate essencialmente do mesmo material disponibilizado na noite anterior.



Entre os documentos agora acessíveis surgem várias referências ao Presidente dos Estados Unidos, praticamente ausente da primeira divulgação realizada na passada sexta-feira. Um dos elementos mais relevantes é um e-mail enviado a 7 de janeiro de 2020 pelo procurador dos Estados Unidos para o Distrito Sul de Nova Iorque, com o assunto “Epstein’s Flight Records”.

Na mensagem, o responsável judicial informa que os registos de voo então recebidos indicavam que Donald Trump terá viajado no jato privado de Epstein mais vezes do que anteriormente relatado ou conhecido, incluindo durante o período em que as autoridades previam apresentar acusações no processo de Ghislaine Maxwell.

Maxwell, antiga companheira próxima de Epstein, foi condenada há cinco anos a 20 anos de prisão pela sua cumplicidade numa rede de tráfico sexual com centenas de vítimas menores de idade. O e-mail detalha que Trump surge como passageiro em pelo menos oito voos entre 1993 e 1996, incluindo quatro em que Maxwell também estaria a bordo. Os registos referem ainda viagens com membros da sua família, como Marla Maples, a filha Tiffany e o filho Eric.

Um dos documentos indica que, numa ocasião em 1993, Trump e Epstein foram os únicos passageiros listados. Outro menciona a presença de uma mulher de 20 anos cuja identidade foi omitida. Há ainda voos associados a “nomes de potenciais testemunhas”, descritas como mulheres que poderiam vir a testemunhar no caso Maxwell.

Trump e Epstein mantiveram uma amizade durante cerca de 15 anos, que, segundo o próprio Presidente, terminou em 2004. Trump afirmou que rompeu relações depois de ter afastado Epstein do seu resort Mar-a-Lago, em Palm Beach, por comportamentos considerados inadequados. Ao longo dos anos, nunca foi provado que Trump tenha participado nos crimes de Epstein ou que tivesse conhecimento deles, e os documentos agora divulgados também não estabelecem qualquer prova nesse sentido.

Entre os novos ficheiros consta ainda uma intimação judicial enviada em 2021 a Mar-a-Lago, solicitando documentos relacionados com o processo de Ghislaine Maxwell. O ‘Washington Post’ refere a existência de várias pistas recolhidas pelo FBI sobre a relação entre Trump e Epstein e sobre festas realizadas nas propriedades do então empresário no início dos anos 2000. No entanto, os documentos não esclarecem se essas pistas deram origem a investigações adicionais ou se foram confirmadas.

O Departamento de Justiça publicou entretanto um aviso na rede social ‘X’, alertando que parte do material inclui alegações falsas e sensacionalistas recolhidas pelo FBI pouco antes das eleições de 2020. As autoridades sublinham que essas alegações são infundadas, mas justificam a divulgação com o compromisso de transparência e com as obrigações legais de proteção das vítimas de Epstein.

Esta segunda-feira, durante uma conferência de imprensa em Mar-a-Lago, Trump criticou a divulgação recente de milhares de fotografias associadas aos chamados “Papéis de Epstein”, afirmando que estas podem implicar pessoas respeitadas sem qualquer ligação aos crimes do financeiro, que morreu numa prisão de Nova Iorque em 2019, num caso classificado como suicídio pelo médico legista.

O presidente mostrou-se particularmente crítico da exposição de imagens do ex-presidente Bill Clinton, que nunca foi acusado de qualquer crime relacionado com Epstein. Clinton reagiu através do seu representante, apelando a Trump para que ordene a divulgação imediata de qualquer material adicional que mencione ou contenha fotografias do antigo chefe de Estado.

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