A meta europeia de proibir o registo de novos motores de combustão interna a partir de 2035, tida como praticamente garantida, voltou ao centro das negociações políticas e industriais. O que parecia uma transição linear para a mobilidade elétrica transformou-se num novo campo de batalha em Bruxelas. De acordo com o ‘El Economista’, a Comissão Europeia está a avaliar uma flexibilização do quadro regulatório, num momento em que a indústria pede pragmatismo e o setor da recarga exige que o calendário permaneça inalterado.
A Comissão Europeia, indicou a publicação espanhola, está a considerar permitir que motores de combustão interna continuem a ser registados após 2035, desde que operem exclusivamente com combustíveis alternativos, como e-fuels ou biocombustíveis avançados. A iniciativa surgiu numa carta enviada pelo chanceler alemão Friedrich Merz a Ursula von der Leyen e recebeu eco dentro do colégio de comissários.
Apostolos Tzitzikostas, responsável pelos Transportes, afirmou mesmo que Bruxelas está “aberta a todas as tecnologias”, sinalizando uma mudança relevante face ao princípio até agora dominante: apenas veículos sem emissões diretas de CO2 poderiam ser registados depois de 2035.
A proposta em análise aponta para uma regulamentação mais matizada. Os particulares poderiam continuar a comprar carros com motor de combustão, desde que alimentados por combustíveis alternativos, ao passo que as frotas empresariais enfrentariam metas muito mais exigentes: 50% de veículos elétricos já em 2027 e cerca de 90% em 2030. Esta reorientação responde às preocupações de competitividade industrial e à pressão crescente de vários Estados-Membros.
Setor da recarga alerta para crise e pede calendário rígido
A possível mudança regulatória gerou forte apreensão no setor da recarga de veículos elétricos. A AORU, associação espanhola de operadores de recarga ultrarrápida, enviou uma carta aberta a Bruxelas a pedir que o calendário não seja alterado. A associação defende que qualquer exceção tecnológica prejudicaria a credibilidade da política europeia e seria interpretada pelos investidores como um sinal negativo.
Argumenta ainda que a eletrificação é já uma tecnologia madura e competitiva, enquanto os combustíveis sintéticos continuam limitados por custos elevados, baixa eficiência e fraca disponibilidade. Para a AORU, reabrir o debate desviaria investimentos, atrasaria a descarbonização e reforçaria a posição da China no mercado global. Defendem, por isso, a manutenção da meta de 2035 e a utilização de combustíveis alternativos apenas em nichos verdadeiramente difíceis de eletrificar.
Indústria automóvel pede pragmatismo mas confirma compromisso com a eletrificação
A indústria automóvel europeia acrescenta outra nuance ao debate. Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, afirma que os fabricantes não pretendem regressar ao motor de combustão como solução dominante, sublinhando que a eletrificação continua a ser o caminho estratégico. No entanto, alerta que o modelo atual “já não é realista”. Apesar dos investimentos massivos, persistem falhas estruturais: escassez de pontos de carregamento, falta de incentivos coerentes e um mercado ainda enfraquecido desde a pandemia. A Europa vende, em média, menos três milhões de automóveis por ano do que antes da Covid-19, fragilidade que condiciona todos os planos industriais.
De Vries defende uma revisão pragmática do próximo pacote automóvel da Comissão. Pede uma abordagem diferenciada para os diferentes tipos de veículos; metas de CO2 tecnologicamente abertas; políticas que estimulem a procura; uma análise fina das normas “Made in Europe”; e uma simplificação regulamentar que permita manter a competitividade sem travar o investimento.
Três visões distintas — a prudência regulatória de Bruxelas, a determinação da AORU e o realismo industrial da ACEA — convergem para um ponto central: a Europa encontra-se numa encruzilhada decisiva. A revisão agendada para 10 de dezembro poderá redefinir a velocidade e a direção da mobilidade europeia na próxima década. Pela primeira vez em muitos anos, o fim do motor de combustão interna já não surge como destino inevitável, mas como uma questão em aberto que a União Europeia terá de repensar.














