Cartéis internacionais do narcotráfico expandem operações em Portugal e três líderes já foram capturados

A sucessão de detenções de figuras de topo do narcotráfico internacional voltou a colocar Portugal no radar das maiores organizações criminosas globais.

Revista de Imprensa

A sucessão de detenções de figuras de topo do narcotráfico internacional voltou a colocar Portugal no radar das maiores organizações criminosas globais. Entre os casos mais recentes está a captura de Hulk, alegado chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC), procurado pela Justiça brasileira e suspeito de liderar um esquema milionário ligado ao branqueamento de capitais com recurso ao chamado “esquema do metanol”, que adulterava combustíveis. O dirigente do grupo paulista vivia discretamente num condomínio de luxo em Cascais com a mulher, que o ajudaria a lavar dinheiro para a organização, até ser localizado e detido pela Polícia Judiciária a 16 deste mês.

De acordo com informação divulgada pelo Expresso, a prisão deste responsável do PCC foi a terceira captura relevante em apenas dois meses, confirmando a presença crescente de operacionais de vários cartéis em território nacional. Antes dele, no final de outubro, a PJ já tinha apanhado William B., um escocês de 40 anos classificado como o traficante mais perigoso do Reino Unido, localizado em Boliqueime, no Algarve, onde se escondia há dois anos usando um passaporte irlandês falso. Em 2018, o suspeito fora condenado na Escócia por importar cocaína oriunda das Caraíbas, tendo sido então destaque na imprensa britânica. Pouco tempo antes, também Geert C., cidadão neerlandês de 48 anos, tinha sido detido por liderar uma célula criminosa que operava sob a fachada de produção e exportação de canábis medicinal, atividade que, segundo a PJ, mascarava o tráfico ilegal de cocaína e anfetaminas para vários países europeus.



A investigação revela que Portugal se tornou terreno fértil para diversos grupos internacionais, desde organizações brasileiras como o PCC e o Comando Vermelho até redes oriundas do Leste europeu, como o Cartel dos Balcãs e clãs albaneses, passando ainda por grupos escandinavos, nomeadamente os dinamarqueses NNV, e por cartéis latino-americanos como o Cartel do Golfo e o Cartel Sinaloa. Segundo fontes policiais, estes grupos cooperam entre si, mas a saturação do território e os recursos limitados poderão desencadear confrontos mais violentos. Exemplos dessa tensão já são conhecidos: operacionais de um grupo de motards escandinavo foram condenados por homicídio e tentativa de homicídio em Odivelas e Setúbal, em ajustes de contas relacionados com tráfico de droga.

A escalada da violência tem igualmente atingido as forças de segurança. Uma embarcação da GNR foi recentemente abalroada por uma ‘narcolancha’ no rio Guadiana, durante uma operação de fiscalização, causando a morte de um militar. Os suspeitos conseguiram escapar e continuam desaparecidos. Ao mesmo tempo, autoridades brasileiras revelaram que Portugal é o país europeu com maior número de membros do PCC, contabilizando 87 elementos em território nacional, um terço dos quais infiltrados no sistema prisional, considerado um espaço privilegiado de recrutamento.

O diretor nacional da PJ, Luís Neves, reconheceu publicamente que estas redes de narcotráfico transnacional representam “organizações criminosas de elevado potencial e de elevado risco”, admitindo que a presença de elementos do PCC e do Comando Vermelho poderá ter aumentado devido à pressão exercida pelas autoridades brasileiras no seu próprio território. Para além da afinidade cultural e linguística, a geografia continua a posicionar Portugal como porta atlântica de entrada na Europa, num momento em que chegam ao continente “grandes quantidades de cocaína”, associadas ao branqueamento de capitais e a esquemas de corrupção.

A dimensão das apreensões confirma essa tendência: só no primeiro semestre deste ano foram intercetadas 10 toneladas de cocaína, número entretanto ultrapassado pelas operações mais recentes em alto mar. Há apenas uma semana, a PJ e outras forças de segurança confiscaram sete toneladas em dois barcos de pesca, reforçando a perceção de que Portugal se tornou um ponto estratégico nas rotas internacionais de tráfico de droga e um polo de elevado interesse para os principais cartéis mundiais.

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