Escassez de homens no mundo: Portugal acompanha a tendência, com uma exceção no mapa nacional

Dados do Eurostat confirmam esta tendência: em 2024, na União Europeia, havia 229 milhões de mulheres contra 220 milhões de homens — ou seja, cerca de 104 mulheres para cada 100 homens

Francisco Laranjeira
Novembro 22, 2025
15:30

Lyuba, de 67 anos, continua a pôr dois pratos na mesa todas as noites — um gesto de carinho que manteve mesmo depois da morte do marido há quatro anos. Viúva duas vezes, dedica-se agora a cuidar dos netos, a trabalhar e evita permanecer sozinha em casa. A sua história ilustra uma realidade demográfica mais ampla em toda a Europa: as mulheres vivem mais do que os homens.

De acordo com o ‘El Confidencial’, embora ao nascer haja ligeiramente mais rapazes do que raparigas, ao longo da vida a balança inverte-se. Estudos da Organização Mundial da Saúde e da base ‘PLOS CB’ mostram que, com o tempo, as mulheres sobrevivem a mais homens e acabam por representar a maioria da população idosa. Dados do Eurostat confirmam esta tendência: em 2024, na União Europeia, havia 229 milhões de mulheres contra 220 milhões de homens — ou seja, cerca de 104 mulheres para cada 100 homens.

Entre 2004 e 2024, essa proporção sofreu variações: aumentou em sete países e diminuiu em 20. O maior crescimento ocorreu na Bulgária – país natal de Lyuba – onde a taxa passou de 105,3 para 108,1 mulheres por cada 100 homens. Por outro lado, Malta registou a maior descida, de 101,9 para 88,6.

Na Bulgária, explica o ‘El Confidencial’, os homens só dominam numericamente até aos 55 anos. Após essa idade, a expectativa de vida feminina de 79,3 anos supera a masculina de 71,9 anos, gerando um claro desequilíbrio. A longevidade, aliás, é apontada como principal causa dessa diferença: em média, as mulheres europeias vivem 5,3 anos mais do que os homens (84 anos contra 78,7).

Mas não é só a longevidade que contribui para essa assimetria demográfica. A migração também desempenha um papel central. Desde 2012, o número de mortes na UE supera os nascimentos e, em 2024, a taxa natural de crescimento populacional foi negativa.

Alguns países atraem sobretudo homens jovens migrantes, sobretudo para trabalho. No artigo citado, são mencionados países como Malta, Islândia, Noruega, Suécia, Eslovénia e Kosovo. Esses fluxos fazem crescer a população masculina ativa nos destinos, enquanto nos países de origem — muitos deles com mais mulheres idosas — o desequilíbrio demográfico agrava-se.

Segundo Andreu Domingo, vice-diretor do Centro de Estudos Demográficos, a migração feminina, embora menor em volume, tem um impacto único: aumenta o “mercado matrimonial” nos países onde se fixam, sobretudo quando formam famílias, o que por sua vez agrava o envelhecimento populacional nos países de onde partiram.

Os países bálticos destacam-se no desequilíbrio: na Lituânia, há apenas 86 homens por 100 mulheres, e a Letónia também revela uma das maiores disparidades da Europa.

E em Portugal?

Portugal também reflete parte dessa tendência. Segundo dados da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, cerca de 52,3% da população residente é feminina. Essa maioria torna-se mais evidente nos escalões mais velhos, à semelhança do que se passa noutros países europeus.

Na Área Metropolitana de Lisboa, por exemplo, há 47,1% de homens, um valor ligeiramente abaixo do registado na Área Metropolitana do Porto, com 47,6%. O único ponto do país com maior percentagem de homens é o Alentejo Litoral, com 51,4%.

Paralelamente, a diferença na esperança de vida entre géneros acentua-se com a idade, contribuindo para um número crescente de mulheres idosas que vivem sozinhas — um fator que potencia a solidão desigual na terceira idade.

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