Trump coordena plano secreto com Moscovo para pôr fim à guerra na Ucrânia: o que está em causa?

De acordo com a ‘Axios’, a proposta reúne 28 pontos divididos por quatro eixos: paz na Ucrânia, garantias de segurança, enquadramento da segurança europeia e futuro das relações de Washington com Moscovo e Kiev

Francisco Laranjeira

O Governo de Donald Trump tem mantido contactos discretos com Moscovo para explorar um novo plano político destinado a encerrar a guerra na Ucrânia. A iniciativa, noticiada pelo ‘Kyiv Post’, envolve reuniões reservadas e propostas preliminares que procuram avaliar condições mínimas para um eventual acordo.

De acordo com a ‘Axios’, a proposta reúne 28 pontos divididos por quatro eixos: paz na Ucrânia, garantias de segurança, enquadramento da segurança europeia e futuro das relações de Washington com Moscovo e Kiev. O plano inspira-se nas recentes tentativas da administração americana para alcançar um compromisso em Gaza.



Segundo a publicação, um alto responsável russo mostrou-se otimista quanto ao avanço das negociações, afirmando que o documento reflete mais fielmente a posição de Moscovo do que iniciativas anteriores. Resta perceber a reação da liderança ucraniana e dos parceiros europeus.

Questões críticas como o controlo territorial no leste da Ucrânia continuam sem solução, numa fase em que as forças russas mantêm progressos lentos mas insuficientes para cumprir as reivindicações maximalistas do Kremlin, observou a ‘Axios’.

Contactos discretos liderados por Witkoff e Dmitriev

O enviado de Trump, Steve Witkoff, tem conduzido a redação do plano e mantido conversações prolongadas com Kirill Dmitriev, chefe do fundo soberano russo e figura central na diplomacia do Kremlin relativa à Ucrânia. Dmitriev confirmou ao meio americano que esteve três dias em Miami, entre 24 e 26 de outubro, reunido com Witkoff e conselheiros ligados ao Presidente dos EUA, demonstrando confiança no processo e afirmando que, pela primeira vez, Moscovo sente que a sua posição está a ser ouvida.

Uma reunião prevista entre Witkoff e Volodymyr Zelensky na Turquia foi adiada, segundo fontes ucranianas e americanas citadas pela ‘Axios’. Zelensky deverá ainda deslocar-se a Ancara para conversações com Recep Tayyip Erdoğan, numa tentativa de reativar esforços para uma paz justa com a Rússia, mas o cancelamento do encontro com o emissário de Trump aumenta as dúvidas sobre esta via paralela.

A ‘Reuters’ adiantou que o Kremlin não enviará representantes para as conversações na Turquia. Apesar do adiamento, Witkoff reuniu-se esta semana em Miami com o conselheiro de segurança nacional ucraniano, Rustem Umerov, que confirmou os contactos.

Casa Branca vê margem para consenso

Um responsável americano declarou à ‘Axios’ que Trump acredita existir uma oportunidade real para terminar a guerra se houver flexibilidade de ambas as partes, defendendo ser tempo de travar a escalada e procurar um entendimento. Dmitriev afirmou, por seu lado, que o esforço se baseia em princípios discutidos entre Trump e Vladimir Putin num encontro no Alasca, descrevendo a iniciativa como um quadro mais abrangente que envolve também a normalização das relações EUA-Rússia e a resposta às preocupações de segurança de Moscovo.

Segundo o ‘Kyiv Post’, o objetivo passa por produzir um documento formal antes do próximo encontro entre Trump e Putin, embora uma cimeira planeada para Budapeste esteja atualmente suspensa.

Plano não está ligado à iniciativa britânica “ao estilo de Gaza”

Dmitriev clarificou ainda que estas conversas não têm relação com a proposta britânica de um plano para a Ucrânia inspirado no modelo negociado para Gaza, considerando que essa iniciativa ignorava as exigências russas e não teria hipótese de sucesso. Acrescentou que Washington tem explicado as vantagens do novo enquadramento a Kiev e aos aliados europeus, num momento em que Moscovo considera ter obtido avanços adicionais no terreno.

A Casa Branca já iniciou sessões de esclarecimento com parceiros europeus e responsáveis ucranianos, indicando que há uma oportunidade real de obter apoio. As mesmas fontes sublinham que o plano será ajustado após as consultas, defendendo a necessidade de pragmatismo e realismo de ambos os lados para que o processo possa avançar.

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