Tornado, cheias e destruição: especialistas revelam o que mudou no clima português

Este tipo de fenómenos extremos tem sido cada vez mais reportado. A DANA que atingiu Valência em outubro do ano passado resultou em mais de 200 mortes, enquanto Ibiza registou inundações severas um ano depois e a tempestade Benjamin afetou várias zonas de França

Francisco Laranjeira

Cheias, quedas de árvores e destruição significativa marcaram a passagem da depressão Cláudia, que na semana passada originou 4.017 ocorrências e provocou três mortes. De acordo com a ‘Euronews’, as regiões de Setúbal, Porto e Algarve estiveram entre as mais afetadas pelos episódios de precipitação intensa e ventos extremos.

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Por exemplo, a cidade de Albufeira, que registou no passado sábado um tornado que causou a morte de uma mulher de 85 anos, de nacionalidade britânica, e provocou danos graves num hotel e num parque de campismo, com imagens que circularam amplamente na Europa. Os efeitos da depressão Cláudia estenderam-se ainda a Espanha, Irlanda, Inglaterra e País de Gales, onde se registaram inundações em várias localidades.

Este tipo de fenómenos extremos tem sido cada vez mais reportado. A DANA que atingiu Valência em outubro do ano passado resultou em mais de 200 mortes, enquanto Ibiza registou inundações severas um ano depois e a tempestade Benjamin afetou várias zonas de França.

Como se forma um tornado e porque é tão difícil de prever

Em declarações à ‘Euronews’, Paulo Pinto, meteorologista do IPMA, explicou que o tornado registado em Albufeira se formou a partir de uma supercélula, um sistema convectivo que adquire circulações organizadas no seu interior. O fenómeno resulta de diferenças marcadas entre o vento registado nos primeiros dois ou três mil metros da atmosfera e aquele que ocorre a cerca de seis mil metros de altitude, gerando um vórtice ascendente ligado à nuvem-mãe.

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O climatologista Carlos da Camara, do Instituto Dom Luiz, acrescentou que a depressão que afetou Portugal é classificada como depressão fria, distinta das depressões frontais que se deslocam rapidamente. Neste caso, forma-se um núcleo de baixas pressões com ventos que rodam quase em círculo, favorecendo episódios de chuva intensa e ventos fortes.

Alterações climáticas aumentam a probabilidade de fenómenos extremos

Segundo os especialistas, fenómenos desta natureza não são inéditos no país. Contudo, o aumento da energia acumulada na atmosfera, resultante das alterações climáticas, torna mais provável a ocorrência de ventos fortes e instabilidades severas. A redução do contraste térmico entre regiões polares e equatoriais facilita ondulações atmosféricas que favorecem depressões frias, tornando estes episódios mais recorrentes.

No caso dos tornados, a previsibilidade continua a ser muito reduzida. Apesar dos radares, satélites e modelos numéricos, subsiste falta de observação na baixa troposfera. O radar deteta a estrutura convectiva e o mesociclone, mas não o tornado em si, impossibilitando previsões exatas de local e hora. A Proteção Civil atua com base nos avisos meteorológicos do IPMA, mas estes não incluem alertas específicos de tornado.

Falhas de literacia do risco agravam vulnerabilidades

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Embora os avisos tenham sido emitidos com precisão, vários especialistas apontaram falhas no comportamento dos cidadãos perante riscos meteorológicos. Carlos da Camara sublinhou a frequência com que pessoas ignoram recomendações e se expõem a situações perigosas, como a aproximação a falésias ou atividades ao ar livre em dias de risco elevado.

A geógrafa Adélia Nunes considerou que existe uma insuficiente “cultura de risco” e defende maior investimento em literacia climática desde a escola, incluindo campanhas de sensibilização para comportamentos preventivos.

Urbanismo deficiente aumenta impacto das inundações

A recorrência de inundações em Portugal revela fragilidades no território. Continuam a verificar-se cheias relacionadas com deficiências de limpeza, redes de esgotos insuficientes e sistemas de drenagem incapazes de escoar a água superficial, agravados pela impermeabilização do solo.

A Agência Portuguesa do Ambiente identifica 63 áreas de risco potencialmente significativo de inundação, podendo afetar mais de 100 mil pessoas. Contudo, especialistas alertam que o número pode aumentar devido à expansão urbana para zonas de leito de cheia e à irregularidade crescente dos fenómenos meteorológicos.

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A ausência de cartografia de risco integrada nos processos de planeamento urbano é apontada como uma falha estrutural. Adélia Nunes defende que o poder central deve definir instrumentos legais claros e garantir que as autarquias respeitam o ordenamento adequado para mitigar riscos.

Cidades mais vulneráveis exigem preparação reforçada

A impermeabilização do solo, associada a sistemas de drenagem subdimensionados, torna as áreas urbanas particularmente suscetíveis a inundações. Regiões como Tejo e Oeste, assim como zonas em torno dos rios Vouga, Mondego e Lis, concentram grande parte dos municípios em risco.

Para os especialistas, a adaptação das cidades a fenómenos cada vez mais intensos é inevitável. A ausência de medidas estruturais poderá traduzir-se no aumento de danos materiais e humanos, exigindo políticas de ordenamento, gestão territorial e prevenção alinhadas com a evolução dos riscos climáticos.

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