O Kremlin prepara uma nova legislação que permitirá ao presidente Vladimir Putin enviar até dois milhões de reservistas para o front de combate sem ter de declarar uma mobilização geral como a de 2022. A medida, elaborada pelo Ministério da Defesa russo, visa flexibilizar o uso das forças de reserva, autorizando a sua participação em operações militares no estrangeiro, segundo um relatório do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW).
O projeto de lei, aprovado pelo Governo russo a 13 de outubro, permitirá que membros da reserva possam desempenhar “tarefas de defesa” durante conflitos armados, operações antiterroristas ou missões fora do território russo. A proposta também concede ao presidente o poder de convocar reservistas para treinos especiais com duração até dois meses.
De acordo com Andrei Kartapolov, presidente do Comité de Defesa da Duma Estatal, a nova lei usa “definições amplas” que dão ao Kremlin margem para empregar reservistas em múltiplas circunstâncias sem necessidade de aprovação parlamentar. “Isto inclui o envio de tropas para regiões de iure fora da Rússia, como Sumy e Kharkiv”, explicou o deputado ao jornal RBK.
Especialistas e organizações da sociedade civil veem nesta reforma um passo decisivo para ampliar o poder militar do Kremlin e reforçar a capacidade de combate sem enfrentar os constrangimentos políticos de uma nova mobilização. Grigory Sverdlin, fundador da ONG russa Idite Lesom, que ajuda cidadãos a evitar o recrutamento, afirmou ao jornal El Mundo que “Putin está a preparar-se para futuras guerras, dando a si próprio mais liberdade de ação”.
Segundo Sverdlin, esta legislação não se aplica tanto ao presente, mas ao “período pós-mobilização”, quando o governo precisar de substituir baixas ou reforçar tropas na Ucrânia e “noutros conflitos futuros”.
O vice-presidente do Comité de Defesa da Duma, Aleksei Zhuravlyov, afirmou à televisão RTVI que a nova legislação poderá abranger “até dois milhões de pessoas”. Conhecido pelas suas posições agressivas, o deputado já havia advertido que “a Polónia será a próxima” num dos seus discursos televisivos.
O analista russo Egor Kuroptev, diretor do EK Strategic Communications Center, considera que “todo o aparelho estatal russo – da educação à economia – está a ser reorientado para a guerra”. Segundo ele, “a Europa começa agora a perceber que Moscovo está a preparar-se para um conflito mais vasto do que a guerra na Ucrânia”.
Uma sociedade em estado de guerra permanente
O documento legislativo indica que os reservistas poderão ser mobilizados em “operações militares de larga escala” sem que Moscovo declare formalmente guerra, mantendo a designação oficial de “operação militar especial”. Para Zhuravlyov, “estes tecnicismos legais limitavam a flexibilidade do Ministério da Defesa, mas agora foram eliminados”.
A proposta define que os reservistas poderão ser convocados para sessões de treino especiais por decisão direta de Putin. Estes períodos de preparação, com duração máxima de dois meses, incluem remuneração adicional e destinam-se apenas a antigos militares voluntários que já recebam benefícios como reservistas. “Estas tropas serão chamadas com muito mais frequência, o que é totalmente normal dada a situação do país”, afirmou Zhuravlyov.
Desde 2022, a Rússia tem vindo a refinar os seus mecanismos de recrutamento. As convocações são agora enviadas por SMS ou através do portal de serviços públicos, sendo consideradas automaticamente entregues ao fim de sete dias. Esta digitalização do processo, aliada ao controlo fronteiriço reforçado, torna mais difícil evitar o recrutamento.
O Ministério da Defesa também reformou o sistema de alistamento, que passará a funcionar durante todo o ano. Segundo dados divulgados pelo projeto ucraniano Quero Viver, o exército russo registou 86.744 mortos, 33.966 desaparecidos e 158.529 feridos nos primeiros oito meses de 2025.
A investigação conjunta da BBC e do portal Mediazona confirma pelo menos 135.100 mortes de militares russos desde fevereiro de 2022, embora admita que o número real possa ser muito superior.
O exército russo ajusta-se à lei e à narrativa
Alguns recrutas estão legalmente impedidos de combater fora do território russo, mas Moscovo contorna esta limitação ao considerar as regiões ocupadas da Ucrânia como parte integrante da Federação Russa. A nova lei reforça essa ambiguidade, permitindo o envio de tropas “para o estrangeiro” sem alterar a designação jurídica da operação.
Analistas ocidentais interpretam estas reformas como um sinal de preparação de longo prazo para uma guerra prolongada, com a economia russa cada vez mais voltada para o setor da defesa e a sociedade sob uma lógica de militarização contínua.
“Putin não vê alternativa para manter o poder”, conclui Kuroptev. “A economia foi redirecionada para a indústria militar, enquanto o setor civil mergulha numa crise profunda. A Rússia está, de facto, a preparar-se para viver em guerra por muitos anos.”







