“A Igreja não se pode calar”: Papa Leão XIV lança primeira guerra moral contra Trump e movimento MAGA

Meio ano depois da eleição do primeiro papa norte-americano da história, Leão XIV, nascido em Chicago e com 69 anos, já começou a assumir um posicionamento firme sobre a política interna dos Estados Unidos, em particular contra o presidente Donald Trump e a sua base MAGA.

Pedro Gonçalves
Outubro 20, 2025
12:15

Meio ano depois da eleição do primeiro papa norte-americano da história, Leão XIV, nascido em Chicago e com 69 anos, já começou a assumir um posicionamento firme sobre a política interna dos Estados Unidos, em particular contra o presidente Donald Trump e a sua base MAGA.

Robert F. Prevost, nome de batismo do papa, buscou nos primeiros meses encontrar o seu próprio tom pastoral, mais reflexivo que o temperamental papa jesuíta anterior, Francisco. Nos primeiros dez dias de outubro, contudo, Leão XIV deu o seu primeiro passo decisivo, intervindo claramente em temas de política nacional relacionados com os direitos humanos e a justiça social.

O confronto surgiu após críticas de uma dezena de bispos norte-americanos à intenção do cardeal de Chicago, Blaise Cupich, de premiar o senador democrata Dick Durbin, católico praticante, pela sua defesa histórica dos imigrantes. A contestação surgiu devido à posição de Durbin a favor do direito ao aborto, considerada incompatível por alguns bispos com a defesa da vida.

Em resposta, o papa Leão XIV afirmou, no final de setembro que entendia “a dificuldade e as tensões”. “Mas é importante considerar muitos aspetos relacionados com o ensino da Igreja. Quem diz estar contra o aborto, mas apoia a pena de morte, não é realmente provida. E quem diz estar contra o aborto, mas apoia o tratamento inumano de imigrantes nos EUA, não sei se isso é provida”, sustentou o sumo-pontífice.

As palavras do papa provocaram críticas imediatas de ativistas e influenciadores de extrema-direita nos Estados Unidos, que as consideraram um ataque direto aos republicanos. A administração Trump, por sua vez, evitou o confronto direto, mas a porta-voz Karoline Leavitt defendeu a política de deportações massivas como “a forma mais humana possível de fazer cumprir a lei”.

Leão XIV reforçou ainda a crítica à política de Trump numa cerimónia em homenagem à primeira encíclica verde de Francisco, Laudato Si’, sublinhando o desrespeito pela ciência climática e os efeitos da negligência ambiental sobre os mais pobres. Durante o evento, o papa abençoou um bloco de gelo de mais de 20.000 anos desprendido de um glaciar na Groenlândia, gesto interpretado como simbolizando a urgência da ação climática face às negações de Trump.

Em 8 de outubro, o papa recebeu cartas e testemunhos de migrantes na fronteira entre EUA e México, muitos dos quais estavam aterrorizados pelas deportações que separavam famílias. Durante o encontro, Leão XIV leu uma das cartas que dizia: “Papa Leão, somos uma família mista. Estou muito triste, com dor e medo… pedimos suas orações para Donald Trump, para que seu coração se encha de Amor, Compaixão e Empatia.”

Segundo Dylan Corbett, do Hope Border Institute, o papa afirmou: “A Igreja não pode calar diante da injustiça. Vocês me apoiam, e eu os apoio.” O papa exortou os bispos norte-americanos a dialogarem em conjunto sobre o tema e a promoverem uma resposta ética e moral à crise migratória, uma questão de dignidade humana.

No dia seguinte, através da rede Catholic Charities USA, que agrupa 168 agências diocesanas de apoio a 15 milhões de pessoas, Leão XIV reforçou a necessidade de apoiar migrantes e refugiados, atuando como “construtores de pontes entre nações, culturas e povos”. Também na audiência com o cardeal Cupich, o papa pediu apoio aos imigrantes e refugiados, incentivando a ajuda a comedores sociais e abrigos.

A 10 de outubro, Leão XIV solicitou à Conferência Episcopal dos EUA uma posição mais unida na defesa dos migrantes. O arcebispo Timothy Broglio explicou que o papa apontou os desafios quando os fiéis se alinham mais rapidamente com posições políticas do que com o Evangelho, destacando a importância de unidade e coerência moral entre os bispos.

O impacto das palavras do papa já se começou a sentir: o cardeal Cupich criticou a política de imigração de Trump como “desnecessária e intolerável”, incentivando os demais bispos a emitirem “uma voz moral e ética” sobre o assunto. O bispo de El Paso, Mark Seitz, presidente da comissão de migração da Conferência Episcopal, anunciou que apresentará na próxima plenária de novembro um documento de resposta à política de deportações, que já afetou 400.000 estrangeiros, com objetivo de chegar a 600.000 até final de 2025.

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