O pensador e mediador indiano Sundeep Waslekar considera que os próximos quatro a cinco anos representam o momento mais crítico da história contemporânea, com um risco real de guerra global. Fundador do Strategic Foresight Group e investigador principal no Centro para a Resolução de Conflitos da Universidade de Oxford, Waslekar alerta para uma combinação explosiva: a modernização dos arsenais nucleares, a corrida armamentista conduzida pela inteligência artificial (IA), o crescimento do nacionalismo e o enfraquecimento do ordenamento multilateral.
Em entrevista exclusiva a este jornal, o especialista defende que “poderíamos estar perante um erro de cálculo da IA que desencadearia uma guerra nuclear”, sublinhando que “vivemos numa era de extremismos competitivos e de guerras sem fim”.
Waslekar descreve o panorama global como “sem precedentes” devido a três crises interligadas. A primeira é moral e conceptual: “Durante a Guerra Fria havia clareza sobre o sistema internacional, havia diálogo estratégico. Hoje não há conceito que unifique comunidades, nações, etnias ou religiões, nem uma visão comum do futuro”. A segunda é institucional: o Conselho de Segurança da ONU “está roto” e as grandes potências “são inúteis para a paz, porque têm conflitos de interesse”. A terceira é tecnológica: “A tecnologia está a escapar ao controlo humano”.
No seu diagnóstico, apesar de o número de ogivas nucleares ter diminuído de cerca de 80 mil na década de 1980 para 10 mil atualmente, a sua letalidade aumentou. “E quase todos os tratados de controlo de armas desapareceram”, alerta, referindo o Tratado de Misiles Antibalísticos (ABM) e a fragilidade do New START.
Waslekar lembra que, ao contrário da Guerra Fria, “hoje não existe diálogo estratégico entre potências” e “a IA coloca o destino humano nas mãos de máquinas”, o que considera “um fracasso moral”.
Gatilhos de um conflito global
O pensador explica que uma guerra nuclear poderia surgir por decisão intencional, por um incidente, ou por um erro de cálculo provocado por sistemas de IA. “O arsenal nuclear ainda está em mãos humanas, mas essas decisões serão cada vez mais dependentes da informação providenciada pela inteligência artificial. Essa combinação é mortal.”
Sobre a possibilidade de uma catástrofe, Waslekar afirma: “Não digo que vai acontecer, mas o risco existe. Se não travarmos a deriva atual, a humanidade poderá desaparecer em 10 a 15 anos.”
Para o especialista, o futuro da paz mundial não pode depender exclusivamente das grandes potências. “São actores inúteis por definição”, diz. “Para resolver as guerras precisamos de actores independentes, países com força económica, história e capacidade de pensar livremente.”
Nesse sentido, defende uma coalizão internacional de pelo menos 100 países dispostos a liderar, fora das lógicas de interesse das grandes potências. “Um conjunto assim pode exercer poder moral e real, impondo uma mudança nas regras do sistema global.”
Durante a sua visita a Madrid para apresentar a edição em espanhol do seu livro Um mundo sem guerra (2025, Nola Editores), Waslekar entregou um exemplar ao presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez. Reconhecendo a iniciativa de condenar Israel e reconhecer o Estado palestino como “um passo importante”, considera que “é insuficiente”.
Para o pensador, Espanha poderia ter mais impacto se mantivesse coerência nas suas posições internacionais. “Se quer justiça no Médio Oriente, não pode ser imparcial em relação à Ucrânia. Deve alinhar-se ou não com a NATO de forma consistente.”
Waslekar elogia a decisão de Madrid de não aceitar aumentar o gasto militar para 5% do PIB até 2030, argumentando que tal política serviria interesses externos: “Esse dinheiro acabaria a financiar a indústria militar dos EUA, incluindo tecnologia e IA”.
A alternativa ao actual falhanço do Conselho de Segurança, segundo Waslekar, passa por “uma coalizão de países independentes e neutros que possam mediar conflitos e promover a paz de forma credível”. Essa visão é central no seu livro, onde defende que a guerra é uma decisão política — e, portanto, evitável.
“Não é impossível construir um mundo sem guerra”, afirma. “Mas é preciso vontade política e a criação de novos mecanismos de diálogo, inclusivos e transparentes, que superem as rivalidades e extremismos actuais.”











