Qual o papel da inteligência cultural no onboarding?

Opinião de Vânia Ribeiro, People Services Professional da Critical Software

Executive Digest

Por Vânia Ribeiro, People Services Professional da Critical Software

Há pouco tempo, em conversa com uma pessoa de nacionalidade, língua e crença diferentes das minhas, ela dizia-me: “como não estou a falar na minha língua, nunca vou conseguir transmitir-te exatamente aquilo que sinto, aquilo que é a minha realidade e o que penso.” Achei interessante o apontamento dela, a clareza e a consciência franca das barreiras que, logo à partida, enfrentamos. Mesmo quando estamos abertos à comunicação, interessados, e partimos de um lugar de profunda curiosidade, sem julgamentos ou preconceitos.



A verdade é que “pôr em comum”, este grande objetivo da comunicação que se quer eficaz, não é propriamente uma tarefa fácil, mesmo quando falamos a mesma língua. Sabemos como as palavras podem ser, tantas vezes, escassas e como cada um carrega um mundo muito próprio dentro de si. Quando acrescentamos outras variáveis à equação, como a cultura ou uma língua diferente que nos caracteriza, vemos que, de facto, há que ter em conta todas estas questões quando acolhemos novos colaboradores.

Este deve ser o ponto de partida para pensarmos, também, sobre o onboarding. As pessoas chegam às empresas de contextos totalmente distintos e com diferentes características – língua materna, redes de contacto, capital cultural, idade, género, situação socioeconómica, entre outros. Tudo isso afeta a forma como se apresentam, como são percebidas, e até a confiança com que interagem (e como interagem). No fundo, tem grande impacto no modo como se integram e, consequentemente, no seu bem-estar e desenvolvimento.

Este tema é também bastante evidente nos nossos vieses, tão próprios e naturais do ser humano. O viés de afinidade, por exemplo, leva-nos a aproximar-nos de quem aparentemente é mais parecido connosco, com quem mais facilmente conseguimos comunicar, mesmo sem palavras – aquele tipo de comunicação implícita que só quem partilha uma mesma cultura consegue perceber (as tais “dicas”). Afeta, portanto, também a forma como integramos os outros. Assim, importa não só reconhecer que os colaboradores começam a sua jornada na empresa a partir de pontos diferentes, mas também manter essa consciência ativa ao longo do seu percurso e desenvolvimento profissional.

Numa época em que se fala tanto de inteligência artificial e emocional, é cada vez mais pertinente colocarmos em prática também a inteligência cultural, que implica precisamente este olhar. É necessário compreendermos os contextos de cada pessoa, adaptar práticas de gestão e garantir que todos

têm condições reais de integração e desenvolvimento. Ter consciência ativa pode passar por pedir feedback com frequência, observar sinais do dia a dia, explicar as regras formais e informais da empresa – o “manual invisível” –, promover a aprendizagem da língua e partilhar e compreender mutuamente práticas culturais. Observar muito, de forma respeitosa e curiosa, e perguntar é essencial, porque a inteligência cultural não se esvazia no mero conhecimento superficial de cada cultura.

Cultivar inteligência cultural não é, hoje em dia, apenas uma competência desejável: é uma necessidade urgente num mundo em que a diversidade deixou de ser exceção para se tornar regra. Reconhecer e valorizar essa pluralidade é dar espaço para que todos possam trazer o melhor de si, com autenticidade, confiança e equidade. É uma necessidade e responsabilidade que pode e deve ser partilhada por todos – desde o CEO ao estagiário que está a dar os primeiros passos no mundo do trabalho.

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