A União Europeia resistiu às tempestades dos resgates da zona euro, à crise migratória e ao Brexit, mas comam-se as vozes daqueles que temem que o coronavírus possa ser ainda mais destrutivo.
É o caso de Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Europeia que ajudou a construir a União Europeia (UE) moderna, numa rara intervenção, quebrou o silêncio no fim de semana passado para alertar que a falta de solidariedade representa “um perigo mortal para a União Europeia”.
Também para Enrico Letta, ex-primeiro ministro da Itália, a UE enfrenta um “risco mortal” da pandemia global. “Estamos a enfrentar uma crise diferente das crises anteriores”, disse ao The Guardian, acrescentando que este cenário se deve, em parte, à progressão imprevisível do vírus, mas também porque o ‘europeísmo’ foi enfraquecido por outras crises da década passada.
“O espírito comunitário da Europa está mais fraco hoje do que há dez anos”, sublinhou Letta, reforçando ainda que o maior perigo para a UE é o ‘vírus Trump’ e se todos adotassem a estratégia de ‘Itália primeiro’, ‘Bélgica primeiro’ ou ‘Alemanha primeiro’, evitaria que todos nos fossemos completamente ao fundo”.
Letta prevê que venha a existir “acordo corona” que evite a questão divisória da dívida mútua, com a emissão de títulos pelo Banco Europeu de Investimento. Mas a Alemanha e a Holanda também precisam mudar, de acordo com o ex-primeiro ministro italiano. “O ponto chave para os alemães e holandeses: por favor, não bloqueie, não pare as medidas europeias que podemos tomar juntos”.
“Este é definitivamente um momento de construir ou derrubar o projeto europeu”, disse Nathalie Tocci, ex-consultora do chefe de política externa da UE. “Se der errado, existe realmente o risco de ser o fim da União. E isto alimenta todo o populismo nacionalista”.
Contudo, ressalva, que até agora o líder de extrema-direita da Itália, Matteo Salvini, caiu nas pesquisas, enquanto a popularidade do professor de direito que se tornou primeiro-ministro, Giuseppe Conte, aumentou. “Em alguns aspetos, o público realmente quer o tipo racional, moderado, tranquilizador, mas firme de líder.”
Enquanto os líderes europeus convergiram para uma resposta à crise da saúde pública – uma promessa de reformulação do sistema de geestão de crises da UE, financiamento para pesquisa de vacinas e aquisição conjunta de kits médicos – os países continuam divididos sobre como ajudar a economia a enfrentar a tempestade.
A pandemia reabriu as feridas da crise da zona euro, ressuscitando estereótipos sobre os europeus do sul “pródigos” e os do norte “de coração duro”. “Cada crise reduziu a confiança entre os estados membros e dentro de todo o sistema, e isso é um problema real”, disse Heather Grabbe, ex-assessora do comissário de alargamento da UE.
A Europa ainda está entrincheirada em dois campos distintos de como responder às consequências económicas causadas pelo Covid-19. França, Itália, Espanha e pelo menos meia dúzia de outros querem romper com a convenção emitindo dívida conjunta da zona do euro, os chamados “coronabonds”. Alemanha, Áustria e Holanda continuam a evitar a medida.
A resposta dos líderes europeus acabará por moldar a opinião pública. Quando os italianos sentiram que tinham sido deixados sozinhos pela Europa na fase inicial da pandemia, a confiança no projeto europeu diminuiu. Uma pesquisa realizada de 12 a 13 de março constatou que 88% dos italianos consideravam que a Europa não estava apoiando a Itália, enquanto 67% viam a filiação à UE como uma desvantagem – um resultado notável para um Estado membro fundador, onde a UE já desfrutou de altos níveis de apoio.













