Em poucos dias, pelo menos 1655 pessoas foram despedidas devido à crise provocada pela pandemia da Covid-19. Os restaurantes do chef Kiko, o Mercado de Algés e a Lacoste são algumas das empresas a despedir, segundo uma lista da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), que alerta ainda para outros abusos laborais.
O balanço é muito mau, com dispensa de “milhares de trabalhadores” por parte das empresas “em todo o país e em todos os setores de atividade”, alerta a CGTP.
No documento, a que a “Executive Digest teve acesso”, a Central Sindical regista despedimentos de trabalhadores com vínculo precário a acontecer, por exemplo nas seguintes empresas:
- Sonafi: 150 trabalhadores que haviam sido contratados via Empresas de Trabalho Temporário (ETT) foram despedidos;
- Hutchinson: 90 despedidos (contratados via ETT);
- Fico Cables: 70 despedidos (contratados via ETT);
- Carl Zeiss óptica: 50 despedidos (contratados via ETT);
- Sunviauto: 150 despedidos;
- Visteon: 50 despedidos (contratados via ETT);
- Plasfill Plásticos: 130 despedidos (contratados via ETT);
- Continental Mabor: 200 despedidos (contratados via ETT);
- Coindu: 300 despedidos (contratados via ETT);
- Ecco: trabalhadores contratados a termo despedidos;
- Rodiro Calçado: trabalhadores contratados a termo despedidos;
- Lacoste: despedidos todos os trabalhadores em período experimental e os contratados a prazo foram informados de que não veriam o seu contrato renovado;
- Martifer e CMN Consórcio Sines: 90 trabalhadores despedidos (via sub-contratação);
- OKsofás: despedidos trabalhadores em período experimental;
- Cantinas das escolas primárias de Sintra: 200 trabalhadores despedidos (contratados via ETT);
- Mercado de Algés: despedidos 15 trabalhadores com contrato a termo incerto, vários outros com contrato a termo foram obrigados a aceitar férias e mantêm-se ao serviço apenas sete funcionários «que estão a ser obrigados a fazer jornada de trabalho contínuo (10 às 23 horas), alguns sem direito a pausa para alimentação»;
- Restaurantes do chef Kiko: 100 trabalhadores com vínculo precário despedidos e obrigados a assinarem rescisão de contrato e ainda recibo de quitação de contas;
- Nokia Horizonte – ICA: por decisão da empresa Nokia foram encerrados o refeitório e a cafetaria, os trabalhadores subcontratados a empresas de trabalho temporário foram despedidos e aqueles com contratos com a ICA foram «obrigados e coagidos» a tirar férias.
A juntar a estes despedimentos, a CGTP elenca várias queixas de empresas que encerraram e levaram a cabo «alterações na laboração, forçando os trabalhadores ao gozo de férias»:
- Fábrica Calçado Dura;
- ERT;
- Têxtil Andre Amaral;
- Gradil;
- Lanifato;
- Mendes e Leal;
- Essilor óptica;
- Sonafi;
- Simoldes Plásticos;
- APTIV;
- Leica;
- Vista Alegre;
- Benetton;
- Sport Zone;
- Gato Preto;
- Tiffosi;
- Faurecia Metal;
- DHL Palmela;
- Lojas Chicco;
- Delphingen;
- Cervejarias Portugalia;
- Noki Conhecimento ICA: «Por decisão da empresa Nokia foi encerrado o refeitório/cafetaria e os trabalhadores obrigados e coagidos a tirar férias».
Outras situações:
- Lidyvest Confecções LDA: «Pressiona trabalhadores a rescindir contratos de trabalho»;
- Klavness: «Obriga a uma semana de férias alternada com uma semana de trabalho para compensar horas com trabalho extraordinário (trabalhadores divididos em dois grupos).
Quanto ao sector hoteleiro, a CGTP revela que «grande parte» dos hotéis estão a despedir trabalhadores com vínculo precário. Referindo-se às grandes unidades hoteleiras, «a informação que temos é que avançarão para o lay off simplificado».
A lista elaborada pela intersindical, liderada por Isabel Camarinha, já seguiu para a Autoridade para as Condições do Trabalho e para a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho.
Bloco denuncia abusos laborais
A plataforma «despedimentos.pt», lançada na passada quarta-feira pelos esquerdistas, conta já com mais de 60 denúncias de casos de despedimentos ou «abusos laborais» levados a cabo em tempo de pandemia.
Um dia antes, no debate quinzenal, os bloquistas – juntamente com o PCP e os Verdes – voltaram a alertar para a necessidade de proteger os trabalhadores, mostrando apreensão com o impacto da Covid-19 no emprego e rendimentos das famílias portuguesas. A deputada e líder do Bloco de Esquerda destacou, por exemplo, o facto de a TAP ter despedido 100 precários e a «ameaça» a outros 700 contratos, que podem mesmo vir a cessar, assim como a FNAC, que «despediu os trabalhadores em período experimental». O próprio Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) «não está a pagar aos formadores», lembrou.
Na resposta, o chefe de Governo prometeu fazer esforços «na medida do possível» para evitar essas situações e apoiar «o emprego e o rendimento das famílias», embora fazendo notar que o impacto do novo coronavírus na economia nacional será «muito profundo e duradouro». Contudo, António Costa avisou que é preciso não cair em «ilusões» de que esta crise sanitária não irá reflectir-se numa eventual perda de postos de trabalho.
Siza Vieira admite que «muitos empregos vão ficar destruídos»
Já nesta terça-feira, o ministro da Economia defendeu, em entrevista à “TSF”, que o Governo tentou «assegurar medidas aptas a proteger emprego e a preservar capacidade produtiva das empresas». Contudo, a «travagem foi brusca» e «infelizmente temos de estar preparados» para que muitos postos de trabalho fiquem pelo caminho. «Sabemos que há muitos casos em que o impacto vai ser muito significativo. Muitos empregos vão ficar destruídos», afirmou.
«O nosso foco primeiro é o da emergência, mas ao mesmo tempo temos de pensar na retoma», disse, fazendo depois notar que o «Estado é a entidade que mais pode receber os impactos desta crise».
Siza Vieira explicou que o lay-off «é uma medida de banda larga para os trabalhadores, não para as empresas» e que um trabalhador que faça o pedido agora «vai receber o rendimento no final do mês». «Em muito pouco tempo [foi preciso] criar respostas que não existiam» e, provavelmente, «não vamos conseguir chegar a todos», admitiu. Adiantou ainda que os sócios de micro-empresas «eventualmente precisarão de uma resposta, mas não será esta», ou seja, o lay-off.
O governante revelou que o Estado fez ontem uma participação à Comissão Europeia para pedir o lançamento de mais linhas de crédito no valor de sete mil milhões de euros. E, neste momento, admite que o Governo está a olhar muito para o sector do Comércio e dos Serviços.









