O director do serviço de doenças infecciosas do Hospital Curry Cabral, em Lisboa, considerou que esta pandemia «é completamente diferente da primeira [a da gripe A, em 2009]», que «não teve a gravidade que era esperada, embora tivesse uma grande transmissibilidade».
Em entrevista ao “Público”, Fernando Maltez admitiu que a Covid-19 é «completamente diferente, não tem igualmente uma mortalidade muito elevada, mas tem uma transmissibilidade muito expressiva, o número de casos cresce muito rapidamente, está a mostrar-se muito veloz. E na gripe A tínhamos à nossa disposição um antivírico eficaz e tivemos uma vacina disponível em seis meses». «Uma parte importante da população vai ficar infectada, com certeza», admitiu o especialista.
Questionado sobre o pico do surto, Fernando Maltez explicou que «precisar o momento do pico é muito difícil, é preciso que o vírus se comporte sempre da mesma maneira, que não sofra mutações genéticas e que o tipo de população que afecte seja exactamente o mesmo. Mais importante do que o momento do pico é que é esse pico não se faça sentir». « O que pretendemos é que o número de casos se possa estender por mais tempo, de modo a atenuar um eventual pico», continuou.
Sobre a taxa de internamentos, disse que, para já, «temos tido uma percentagem muito elevada de doentes, os tais 80%, com doença ligeira a moderada, com pouca sintomatologia. São casos benignos, a maioria são doentes com essas características, que estão a ser vigiados no domicílio». Depois, «há uns 15% com doença mais grave que requer internamento. E 5% dos casos correm pior».
«Os estudos têm mostrado que os casos piores são doentes em faixas etárias muito elevadas, sobretudo acima dos 70 anos. Também se tem verificado maior mortalidade naqueles que, tendo ou não essa idade, têm algumas comorbilidades, como os infectados por VIH, os transplantados, os doentes que fazem terapêuticas imunossupressoras, os que têm doença cardiovascular, os diabéticos. Esses estarão dentro daqueles grupos em que o prognóstico é pior. [Quanto aos grupos de risco], todos os dias a situação vai mudando, mas é por aí, entre os 50 e os 60 anos, que está a média dos casos [que necessitam de hospitalização]. Já as mortes ocorrem sobretudo nas faixas etárias mais avançadas», sublinhou.
Quanto à possibilidade de o Curry Cabral vir a transformar-se num hospital exclusivamente para doentes com Covid-19, reafirmou que «pode tornar-se totalmente dedicado, se for necessário». «Numa primeira fase, podemos ir até às 300 camas ou mais ainda. E temos também à nossa disposição, numa iniciativa conjunta da associação humanitária Cruz de Malta com a RTP e com o empresário Álvaro Covões, uma angariação de fundos para a criação de um hospital de campanha para ser instalado no Campo Pequeno e que pode albergar mais 200 e tal doentes», adiantou Fernando Maltez.
Dirigindo-se aos portugueses, defendeu que «as pessoas têm que se consciencializar que estas medidas vão ter que ser prolongadas. Temos que nos preocupar é em cumprir estas medidas de modo a evitar uma acumulação de doentes, a ocupação de todas as camas de unidades de cuidados intensivos e de todos os ventiladores, que leve ao esgotamento do Serviço Nacional de Saúde». «Os recursos, quer humanos quer técnicos, esgotam-se. Todos os países da Europa se queixam do mesmo. Tudo isto está a acontecer um pouco por toda a Europa e em Portugal acontecerá o mesmo se não cumprirmos», alertou.
A nível nacional, «temos à volta de 1100, 1200 ventiladores disponíveis. Também é possível formar pessoas, levará algum tempo, mas haverá pessoas para trabalhar nos ventiladores. O primeiro-ministro anunciou há dias a aquisição de mais 500. Penso que o Governo estará a acautelar as faltas que possam vir a ocorrer se houver um número muito elevado de doentes», concluiu.














