Durante alguns dias deste verão, a Terra vai girar ligeiramente mais depressa do que o habitual, encurtando de forma quase impercetível a duração do dia. Segundo dados do International Earth Rotation and Reference Systems Service (IERS), nos dias 22 de julho e 5 de agosto de 2025, o planeta vai completar a sua rotação 1,38 e 1,51 milissegundos mais rapidamente do que os habituais 86.400 segundos (as 24 horas convencionais).
A informação foi confirmada pelo site especializado TimeandDate.com com base em cálculos do IERS, entidade responsável por monitorizar a orientação da Terra no espaço e por definir a necessidade de segundos intercalares, usados para corrigir pequenas variações na rotação terrestre e manter os relógios atómicos sincronizados com o tempo astronómico.
O fenómeno, embora tecnicamente significativo, não será sentido pelas pessoas, assegura o geofísico Duncan Agnew, do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA). “Como estamos a falar de um milissegundo, não é algo que se note”, declarou Agnew ao Washington Post, por email. Ainda assim, essas minúsculas variações têm impacto real em sistemas tecnológicos sensíveis, como o GPS, cuja precisão depende da velocidade exata da rotação terrestre.
Porque gira a Terra mais depressa no verão?
As rotações mais rápidas costumam ocorrer no verão do hemisfério norte, período em que a inclinação do planeta em relação ao Sol reduz a diferença de temperatura entre o equador e os polos. Essa diferença mais baixa abranda a corrente de jato — uma faixa estreita de ventos fortes localizada a cerca de nove quilómetros de altitude — e desloca-a para norte. Como a corrente de jacto perde velocidade, o sistema Terra-atmosfera responde com um ligeiro aumento da rotação terrestre, de acordo com o princípio da conservação do momento angular.
Ou seja, com menos energia cinética na atmosfera, a Terra roda ligeiramente mais depressa, num equilíbrio semelhante ao de uma bailarina que acelera a pirueta ao aproximar os braços do corpo.
A influência subtil mas constante da Lua
Além da componente atmosférica, a Lua tem também um papel determinante. O satélite natural da Terra não orbita exactamente sobre o equador, mas sim num plano inclinado, cruzando-o duas vezes por mês e atingindo os seus extremos a norte e sul com uma periodicidade de 18,6 anos — um fenómeno conhecido como paralisação lunar ou lunistício.
O último lunistício iniciou-se em 2024 e continua em 2025, colocando a Lua num ângulo de inclinação máximo de 28 graus face ao equador terrestre. Esse ângulo mais acentuado influencia diretamente a velocidade de rotação do planeta. “Assim, duas vezes por mês, quando a Lua está a norte ou a sul, a Terra gira mais depressa”, explicou Duncan Agnew.
Esta informação, aparentemente esotérica, é crucial para os operadores de sistemas de posicionamento global, como o GPS. Os satélites dependem de cálculos extremamente precisos da rotação terrestre para determinar posições com exatidão. Um erro de milissegundos pode fazer com que um ponto no solo seja identificado antes do previsto, originando falhas de localização.
A Terra está a acelerar… mas ninguém sabe porquê
Desde que se começou a medir a rotação da Terra com relógios atómicos, os dias mais curtos registaram-se sobretudo nas últimas décadas. O recorde actual foi batido a 5 de julho de 2024, com um dia encurtado em 1,66 milissegundos.
Historicamente, porém, os dias eram bastante mais curtos. Durante cerca de mil milhões de anos, os dias duravam cerca de 19 horas, quando a Lua estava mais próxima da Terra. À medida que o satélite se foi afastando, a rotação abrandou e os dias foram-se alongando. “Dos cerca de um bilião de dias da existência da Terra, quase todos foram mais curtos: de forma muito grosseira, talvez 100 mil tenham sido mais longos”, referiu Agnew.
Paradoxalmente, apesar dessa tendência histórica de desaceleração, os cientistas verificam agora uma aceleração misteriosa da rotação nas últimas décadas. A explicação pode residir em processos profundos no núcleo da Terra, mas as limitações tecnológicas tornam estas variações difíceis de prever ou confirmar.
Outro fator recente que poderá estar a influenciar a rotação é a fusão dos mantos de gelo polares. A água derretida desloca-se para o equador, alterando a distribuição de massa do planeta e tornando-o ligeiramente mais achatado, o que também pode contribuir para um ligeiro abrandamento da rotação.













