Logo após a sua eleição, o novo Papa Leão XIV declarou que a Santa Sé estaria disponível para mediar conflitos globais, embora sem referência explícita à guerra na Ucrânia. Mais recentemente, reafirmou essa intenção à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmando que o Vaticano estaria disposto a acolher uma nova ronda de negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia.
A proposta ganhou ainda mais visibilidade após os diálogos diretos entre Moscovo e Kyiv, realizados em Istambul, não terem produzido resultados concretos. O Presidente dos EUA, Donald Trump, terá também mencionado a possibilidade de o Vaticano servir como palco para futuras conversações, após um contacto com o Presidente russo, Vladimir Putin.
Contudo, a reticência do Kremlin é clara. “Seria algo um pouco deselegante para países ortodoxos utilizarem uma plataforma católica para negociações”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, citado pela Euronews.
Entre desconfianças e divisões religiosas
A oposição russa a uma eventual mediação vaticana é anterior ao atual pontificado e baseia-se numa desconfiança de longa data. “Putin não vê o Vaticano como suficientemente neutro”, explicou Pasquale Ferrara, diretor-geral para os Assuntos Políticos no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Itália e professor na Universidade LUISS, em Roma. Ferrara acrescenta que esta desconfiança “já existia durante o pontificado de Francisco” e está enraizada “na frieza histórica entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Igreja Católica”.
A tensão remonta ao Grande Cisma de 1054, que separou as igrejas cristãs do Ocidente e do Oriente, e prolonga-se até aos dias de hoje, com consequências políticas visíveis. A Igreja Ortodoxa Russa, liderada pelo Patriarca Kirill, é um aliado declarado do Kremlin e apoia publicamente a invasão da Ucrânia. Em contrapartida, o Vaticano tem mantido uma posição crítica, ainda que diplomática, quanto à agressão russa.
A legislação ucraniana também tem contribuído para agravar o fosso. Em agosto de 2024, o parlamento de Kyiv aprovou uma lei que proíbe as atividades de organizações religiosas com ligações administrativas à Rússia — uma medida direcionada à Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado de Moscovo (UOC-MP), ainda legalmente subordinada à Igreja Ortodoxa Russa. Esta medida, segundo as autoridades ucranianas, visa impedir a infiltração de propaganda russa no seio religioso. Desde o início da guerra, mais de 100 clérigos da UOC-MP foram alvo de processos criminais por alegada colaboração com o Kremlin.
Patriarca Kirill: pilar religioso da linha dura do Kremlin
O papel do Patriarca Kirill como defensor da guerra tornou-se num dos principais obstáculos à aproximação inter-religiosa. Apoiante fervoroso do Presidente Putin, Kirill tem feito declarações incendiárias, como a responsabilização de “paradas gays” pelo início do conflito e a alegação infundada de que ucranianos estariam a “exterminar” civis russos no Donbass. Tais afirmações valeram-lhe críticas diretas de líderes cristãos, incluindo o Papa Francisco, e levaram algumas igrejas ortodoxas a cortarem relações com o Patriarcado de Moscovo.
Kirill — apelidado de “metropolita do tabaco” devido a alegados lucros com cigarros isentos de impostos nos anos 1990 — continua a ser uma peça central na aliança entre Igreja e Estado na Rússia. Em 2022, uma tentativa da União Europeia de o incluir na lista de sanções encontrou resistência por parte do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, evidenciando a sua relevância política.
Vaticano disponível, mas sem interlocutor confiável em Moscovo
Apesar do bloqueio russo, o Vaticano mantém-se disponível. O Secretário de Estado da Santa Sé, Cardeal Pietro Parolin, declarou recentemente que o Papa está disposto a oferecer o Vaticano como local de encontro direto entre as partes beligerantes, “se necessário”.
O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reuniu-se com o Papa Leão XIV no início de maio, após a missa inaugural do pontífice, e demonstrou abertura à realização de negociações no Vaticano. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, citado pela Euronews, Kyiv considera a Santa Sé um interlocutor válido.
Mas para Moscovo, a questão vai além da geopolítica. A perceção de que o Vaticano representa a herança do Ocidente católico é, segundo Ferrara, mais um motivo para resistência. “A mediação depende menos da identidade do mediador e mais da vontade real das partes em alcançar a paz”, afirmou. “E a Rússia ainda não deu sinais de querer negociar seriamente.”
Experiência diplomática do Vaticano não é suficiente
O Vaticano tem uma longa tradição de diplomacia discreta. Foi um dos mediadores fundamentais nas negociações entre os Estados Unidos e Cuba, em 2014, que culminaram na reaproximação diplomática entre os dois países. Também em 2019, a Santa Sé promoveu um encontro entre os líderes rivais do Sudão do Sul, momento marcante que ficou conhecido pela imagem do Papa Francisco a beijar os pés dos dirigentes em súplica pela paz.
Apesar destes antecedentes, as possibilidades de repetição desse papel no conflito ucraniano parecem remotas. “O Papa Leão XIV não tem qualquer influência sobre a Rússia. Eles não reconhecem de todo a nossa Igreja”, lamentou o bispo Hlib Lonchyna, prelado greco-católico ucraniano, em declarações à Euronews.
Ainda assim, alguns dentro da Igreja continuam a acalentar esperança. O cardeal hondurenho Óscar Rodríguez Maradiaga disse ao jornal italiano La Stampa que, apesar das dificuldades, “tudo é possível com o Papa Leão XIV — ele goza da confiança dos líderes mundiais”.
Ferrara partilha um otimismo moderado: “Não devemos ser demasiado céticos quanto ao papel construtivo que a religião pode desempenhar na construção de uma nova ordem internacional.”
Istambul, não Roma
No dia 16 de maio, Rússia e Ucrânia realizaram o primeiro encontro direto desde os primeiros meses da invasão russa em grande escala. O acordo para a troca de mil prisioneiros de guerra de cada lado foi saudado como a maior operação do género até hoje, mas não abriu caminho a novas negociações políticas. A escolha do local — Istambul — foi mais uma indicação da preferência russa por mediadores não ocidentais. Moscovo deixou claro que não se opõe à Turquia como anfitriã.
Neste contexto, a proposta do Vaticano enfrenta um muro de resistência simbólica, religiosa e estratégica por parte do Kremlin — um muro que nem a tradição diplomática da Santa Sé nem o prestígio pessoal do novo Papa parecem, para já, conseguir derrubar.







