Um novo relatório alerta para a presença de níveis perigosos de arsénio e cádmio em amostras de arroz comercializado nos Estados Unidos. A análise, conduzida pela organização Healthy Babies, Bright Futures (HBBF), identificou metais pesados em mais de 100 marcas diferentes de arroz, com particular preocupação para os efeitos na saúde infantil.
“Mesmo em quantidades reduzidas, o arsénio e o cádmio estão associados a sérios danos à saúde, incluindo diabetes, atrasos no desenvolvimento, toxicidade reprodutiva e doenças cardíacas”, afirmou Jane Houlihan, coautora do estudo e diretora de investigação da HBBF, citada pela CNN Internacional.
Segundo o relatório, um em cada quatro produtos analisados ultrapassava o limite de arsénio inorgânico estabelecido pela FDA (Food and Drug Administration) para papas de arroz infantis, fixado em 100 partes por mil milhões (ppb) desde 2021. Esse limite contribuiu para uma redução de 45% nos níveis desse contaminante nas papas infantis, mas a regulamentação não se estende ao arroz em grão que as famílias cozinham em casa.
“Na verdade, para crianças muito pequenas, dos 0 aos 2 anos, o arroz é uma fonte mais significativa de arsénio inorgânico do que as papas infantis”, explicou Houlihan. “É o próprio arroz que está a impulsionar níveis de exposição mais elevados.”
Metais pesados e riscos para a saúde
O arsénio é um elemento natural presente no solo, na água e no ar, sendo que a sua forma inorgânica — a mais tóxica — pode atravessar facilmente a placenta durante a gravidez, colocando o feto em risco. De acordo com a Academia Americana de Pediatria, exposições precoces a este metal estão ligadas a abortos espontâneos, partos prematuros, nados-mortos e distúrbios do desenvolvimento neurológico.
O cádmio, por sua vez, também é um conhecido agente carcinogénico e está associado a danos nos rins, ossos, estômago, pulmões e outros órgãos. Tal como o arsénio, pode atravessar a barreira placentária e provocar efeitos adversos no desenvolvimento do sistema nervoso.
Apesar dos alertas, a USA Rice Federation — entidade que representa os produtores norte-americanos de arroz — desvalorizou a gravidade dos resultados.
“Não concordamos que haja um problema de saúde pública relacionado com traços de arsénio no arroz”, declarou Michael Klein, vice-presidente de comunicação da USA Rice, por email à CNN. Ainda assim, garantiu que a organização continuará a colaborar com a FDA para garantir que o arroz norte-americano cumpre os limites estabelecidos.
Klein acrescentou que o principal contributo de arsénio na dieta americana provém de frutas, vegetais e sumos (42%), sendo que o arroz representa 17%. No entanto, Houlihan contestou essa comparação:
“Várias dezenas de frutas e vegetais compõem os 42%. Já o arroz, sozinho, representa 17% — é provavelmente a maior fonte alimentar individual de arsénio na dieta dos americanos.”
Impacto desproporcionado nas crianças
O arroz é o alimento sólido mais consumido no mundo e uma parte essencial da alimentação de mais de mil milhões de crianças. De acordo com o relatório, representa 7,5% da exposição ao arsénio em bebés com menos de dois anos. Em comunidades hispânicas e latinas, esse valor sobe para 14%.
“As nossas comunidades precisam de perceber o que o arsénio faz aos bebés e que existem alternativas”, disse Juan Roberto Madrid, da associação ambiental GreenLatinos, que colaborou no estudo. “Não é um motivo para alarme, mas sim para preocupação.”
As crianças de origem asiática são ainda mais expostas: entre os 0 e os 2 anos, o arroz representa 30,5% da sua exposição ao arsénio, subindo para quase 55% entre os 18 e os 24 meses.
“Saber que existe arsénio pode levar algumas famílias a repensar as suas escolhas de arroz”, afirmou Gloria Tan, diretora da Gum Moon Women’s Residence, entidade parceira do estudo em São Francisco.
Diferenças entre tipos e origens de arroz
A análise incluiu 145 amostras de arroz cultivado na Índia, Itália, Tailândia e Estados Unidos. Os resultados mostraram variações significativas consoante o tipo e a origem do arroz.
O arroz integral cultivado nos EUA apresentou a maior carga total de metais pesados: 151 ppb, dos quais 129 correspondem a arsénio. O arroz Arborio de Itália e o arroz branco do sudeste dos EUA (muitas vezes rotulado apenas como “USA”) seguiram-se na lista.
Já variedades como o arroz Basmati da Índia, o arroz jasmim da Tailândia e o arroz Calrose (utilizado para sushi) produzido na Califórnia estavam dentro do limite da FDA. Este último revelou-se a melhor opção, com a menor carga total de metais pesados (65 ppb), incluindo 55 ppb de arsénio.
Por outro lado, o Basmati indiano e o Arborio italiano registaram os níveis mais altos de cádmio.
Grãos alternativos: uma escolha mais segura?
O estudo testou ainda 66 amostras de nove grãos antigos: amaranto, cevada, trigo-sarraceno, bulgur, cuscuz, farro, milho-painço, quinoa e espelta. Em média, estes apresentaram 28 vezes menos arsénio do que o arroz. Apesar de conterem 1,5 vezes mais cádmio, a carga total de metais pesados foi três vezes inferior à do arroz testado.
“A maior parte da investigação tem-se focado apenas no arsénio, mas isso deixa de fora uma parte importante da história da segurança do arroz”, sublinhou Houlihan. “Ao incluir o cádmio, oferecemos uma visão mais completa.”
Técnicas de cozedura e rótulos pouco claros
Segundo o relatório, é possível reduzir até 60% do arsénio no arroz ao cozê-lo como massa: com 6 a 10 chávenas de água por cada chávena de arroz e escorrendo a água no final. A lavagem simples do arroz não tem o mesmo efeito. A imersão durante 30 minutos ou durante a noite, antes da cozedura, também ajuda.
Contudo, este método pode eliminar ferro, que é essencial para o desenvolvimento e frequentemente insuficiente em bebés. A recomendação é procurar orientação médica e incluir alimentos ricos em ferro, como feijão, ovos, carne magra e vegetais verdes escuros.
Outros nutrientes como vitaminas do complexo B, cálcio, zinco e vitamina C podem ajudar o organismo a reduzir a absorção de contaminantes. Estão presentes em alimentos como iogurte, queijo, brócolos, lentilhas, citrinos e morangos.
O relatório adverte ainda para os riscos do arroz pré-cozinhado — incluindo o instantâneo, o pré-cozido e os embalados prontos a aquecer — devido aos processos industriais e embalagens plásticas que podem libertar toxinas adicionais.
Apelo a maior regulação
Embora o relatório identifique 105 marcas testadas, os autores sublinham que a marca tem pouca influência nos níveis de contaminação. O tipo de arroz e a origem geográfica são os principais fatores determinantes.
“Infelizmente, nem todas as marcas indicam a origem do arroz na embalagem. É preciso procurar aquelas que o fazem”, alertou Houlihan.
Para Tasha Stoiber, cientista sénior do Environmental Working Group, esta lacuna representa uma falha na proteção dos consumidores:
“Uma fiscalização federal mais rigorosa e rótulos mais claros fariam uma grande diferença para proteger as crianças da exposição ao arsénio nos alimentos.”
Segundo Andrew Nixon, porta-voz do Departamento de Saúde dos EUA, a FDA leva a questão muito a sério e encontra-se a conduzir uma revisão abrangente das substâncias químicas presentes na cadeia alimentar, incluindo os metais pesados de origem ambiental.














