Montenegro inaugurou hotel de cliente da empresa da família semanas após tomar posse

O detalhe que levanta questões éticas é que o grupo empresarial em causa detém a Beetsteel — uma empresa que foi cliente da Spinumviva, firma pertencente à família de Montenegro, segundo confirmou o próprio primeiro-ministro no mais recente registo de interesses enviado à Entidade para a Transparência.

Revista de Imprensa
Maio 2, 2025
9:54

Menos de dois meses após ter assumido funções como primeiro-ministro, Luís Montenegro inaugurou, a 22 de junho de 2024, o The Lince Santa Clara Historic Hotel, em Vila do Conde, uma unidade hoteleira do Grupo Arliz. O detalhe que levanta questões éticas é que o grupo empresarial em causa detém a Beetsteel — uma empresa que foi cliente da Spinumviva, firma pertencente à família de Montenegro, segundo confirmou o próprio primeiro-ministro no mais recente registo de interesses enviado à Entidade para a Transparência.

O proprietário do hotel inaugurado é Domingos Correia, empresário que, além de controlar o Grupo Arliz, é também irmão de Custódio Correia, detido no início de 2024 por suspeitas relacionadas com contratos públicos na Madeira, no âmbito de um inquérito que também visou o ex-presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado — amigo pessoal de Custódio e representante de Montenegro nas eleições internas do PSD em 2022, como avança Correio da Manhã. Segundo o Portal da Justiça, Domingos Correia exerce controlo sobre a Beetsteel através das sociedades Cosmovanguarda e Ciframétrica.

A relação entre a Spinumviva e a Beetsteel foi apenas revelada publicamente no final de abril de 2025, quando Montenegro atualizou o seu registo de interesses. Nessa ocasião, o chefe do Governo defendeu-se das suspeitas de favorecimento com a explicação de que “esses serviços foram muito limitados, dois ou três milhares de euros”, acrescentando que nunca interferiu na celebração de contratos entre clientes da empresa da sua família e entidades públicas. O jornal Correio da Manhã tentou obter esclarecimentos adicionais de Domingos Correia, mas o empresário recusou prestar declarações, limitando-se a desligar o telefone e a não responder a chamadas posteriores.

Para João Paulo Batalha, vice-presidente da Frente Cívica e especialista em transparência e integridade pública, há uma linha clara que foi ultrapassada com a presença de Montenegro nesta inauguração. “O primeiro-ministro, com a sua presença na inauguração do hotel, está a promover um parceiro de negócios. Há um conflito de interesses inegável”, afirmou à revista Sábado, sublinhando que “Luís Montenegro não devia ter participado na inauguração do hotel”.

Batalha considera ainda que, embora seja habitual os governantes comparecerem em eventos deste género, “se antes existiu uma relação de negócio, os portugueses têm de saber que o primeiro-ministro está a inaugurar a obra de um empresário com o qual teve negócios”. A ausência de transparência neste tipo de atos, alerta o ativista, mina a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas e alimenta a perceção de promiscuidade entre o poder político e os interesses privados.

Este caso soma-se a outras polémicas relacionadas com a Spinumviva, empresa que esteve ausente dos registos de interesses de Montenegro até abril de 2025, e que, apesar de pertencer à sua família, continuou a ter ligações contratuais com entidades públicas e privadas durante o seu percurso político. A revista Sábado tentou obter mais informações junto do gabinete do primeiro-ministro, mas até ao fecho da edição não obteve resposta adicional.

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