Nuggets de frango criados em laboratório (e sem recorrer a animais) estão mais perto de chegar aos supermercados

Avanço científico promissor pode revolucionar a produção de carne e contribuir para uma indústria alimentar mais sustentável.

Pedro Gonçalves

Investigadores da Universidade de Tóquio deram um passo significativo no desenvolvimento de carne cultivada em laboratório, conseguindo produzir pedaços de frango inteiros, do tipo “corte completo”, sem necessidade de recorrer a animais vivos. Este feito representa um avanço notável no campo da carne cultivada — também conhecida como carne de cultura celular — e poderá ter implicações relevantes na forma como consumimos carne no futuro.

O processo desenvolvido pela equipa japonesa baseia-se na utilização de células de fibroblasto de frango, provenientes do tecido conjuntivo, que foram cultivadas num sistema inovador: um biorreator com fibras ocas, conhecidas como hollow fibers. Estas estruturas funcionam como vasos sanguíneos artificiais, permitindo a distribuição eficiente de oxigénio e nutrientes, ultrapassando assim uma das principais limitações na produção de tecidos musculares espessos em ambiente laboratorial.



As fibras ocas, já utilizadas em tecnologias como filtros de água e máquinas de diálise, revelaram-se essenciais para manter o tecido vivo e funcional. Inicialmente, os cientistas usaram uma versão pequena do biorreator, contendo 50 fibras, mas conseguiram escalar o processo para um modelo com 1.125 fibras, obtendo mais de 10 gramas de carne de frango cultivada em laboratório.

Segundo o líder da equipa, Shoji Takeuchi, “o nosso estudo apresenta uma estratégia escalável e de abordagem descendente para a produção de carne cultivada inteira utilizando um biorreator perfusível com fibras ocas”. Em declarações reproduzidas pela Universidade de Tóquio, Takeuchi explica que o sistema permite a distribuição e alinhamento celular, contração muscular e propriedades alimentares melhoradas. “Este método oferece uma alternativa prática aos sistemas baseados em vasos sanguíneos, com aplicações não só na produção alimentar, mas também na medicina regenerativa, testes farmacológicos e robótica biohíbrida.”

Embora o principal foco desta investigação seja alimentar, os investigadores acreditam que a mesma tecnologia poderá ser aplicada noutras áreas. A plataforma poderá ser usada no cultivo de órgãos humanos, testes de medicamentos e até na criação de robôs macios que imitam o movimento dos músculos humanos.

Derek Stewart, professor e codiretor do National Alternative Protein Innovation Centre no James Hutton Institute, no Reino Unido, destacou a importância do estudo: “Trata-se de um avanço empolgante no sector das proteínas alternativas, especificamente na carne de cultura. A ciência apresentada é sólida e robusta, com um nível significativo de material suplementar a suportar as conclusões.”

Stewart acrescenta que esta investigação aborda desafios técnicos que durante muito tempo foram considerados obstáculos intransponíveis, como a necessidade de garantir textura e alinhamento celular, fundamentais para a experiência sensorial da carne, bem como a distribuição eficaz de nutrientes e oxigénio.

Apesar do sucesso obtido, os investigadores reconhecem que ainda há questões por resolver antes de esta carne cultivada poder ser produzida em larga escala e comercializada de forma viável. Shoji Takeuchi identifica como prioridades a melhoria da entrega de oxigénio em tecidos maiores, a automatização da remoção das fibras ocas e a transição para materiais seguros para consumo humano.

Entre as soluções propostas estão o uso de transportadores artificiais de oxigénio que imitam os glóbulos vermelhos, mecanismos que permitam a remoção eficiente das fibras ocas em conjunto e o desenvolvimento de fibras comestíveis ou recicláveis.

Stewart partilha desta visão otimista, mas prudente: “As limitações do sistema apresentado são reconhecidas, nomeadamente a necessidade de melhorar a entrega de oxigénio nos meios nutritivos, controlar a pressão nos sistemas de distribuição e garantir a remoção precisa das fibras ocas para se obter um corte uniforme e apetecível de carne inteira. No entanto, estes desafios parecem solucionáveis.”

Outro aspeto a considerar é a sustentabilidade energética da produção de carne em laboratório. “Tal como acontece com toda a produção de carne cultivada, a utilização de energia e as questões de sustentabilidade associadas precisam de ser abordadas”, afirmou Stewart. Ainda assim, sugere que a crescente adoção de fontes renováveis e conexões energéticas privadas poderá oferecer uma solução para esse dilema.

O interesse crescente por alternativas à carne convencional é impulsionado não só por preocupações ambientais, mas também por questões éticas ligadas ao bem-estar animal. Estima-se que cerca de 5% dos norte-americanos consomem nuggets de frango diariamente ou quase diariamente, segundo uma sondagem da Statista de 2023. Uma versão laboratorial que consiga replicar o sabor e textura destes produtos poderá alterar drasticamente o paradigma de produção e consumo de carne.

Se a carne cultivada em laboratório conseguir superar os atuais obstáculos técnicos e se tornar comercialmente viável, poderá representar uma solução mais ética, sustentável e eficiente para alimentar uma população mundial crescente, sem sacrificar animais ou destruir o meio ambiente.

A investigação foi conduzida por Shoji Takeuchi e a sua equipa na Universidade de Tóquio, e os resultados demonstram que a produção de carne cultivada com estrutura e textura de carne real já não é apenas um conceito teórico, mas uma possibilidade concreta cada vez mais próxima da realidade comercial.

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