A Páscoa em Portugal, marcada para 20 de Abril em 2025, é mais do que um dos feriados religiosos mais importantes do calendário cristão. Com raízes profundas no catolicismo, é vivida com solenidade e emoção, combinando fé, tradições locais, celebrações culturais e uma gastronomia rica que une famílias de norte a sul do país.
A celebração da Páscoa é antecedida por um período de preparação espiritual de 40 dias conhecido como Quaresma. Durante este tempo, os fiéis observam o jejum, a abstinência e a introspeção, culminando na Semana Santa, uma das épocas mais intensas da vida religiosa em Portugal.
Em cidades como Braga, considerada o coração religioso do país, os dias que antecedem a Páscoa são marcados por procissões emblemáticas como a do Senhor Ecce Homo, organizada desde o século XV pela Irmandade da Caridade, ou a Procissão do Enterro de Cristo, com a presença dos “farricocos”, figuras encapuzadas que representam o arrependimento.
As igrejas enchem-se de fiéis e as ruas são transformadas em palcos vivos da Paixão de Cristo. Este cenário repete-se em inúmeras localidades do país, cada uma com rituais próprios. Em Tomar, por exemplo, a procissão inclui cruzes floridas que são queimadas no final; em Óbidos, as encenações religiosas ganham destaque com representações vívidas dos últimos momentos da vida de Jesus.
O simbolismo dos dias santos
Cada dia da Semana Santa tem um significado específico:
Domingo de Ramos: celebra-se a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, com procissões de ramos de oliveira.
Segunda-feira Santa: recorda-se a expulsão dos vendilhões do templo.
Terça-feira Santa: evoca-se o anúncio da traição de Judas.
Quarta-feira Santa: relembra-se a entrega de Jesus por 30 moedas.
Quinta-feira Santa: ocorrem vigílias e procissões noturnas, simbolizando a prisão de Jesus.
Sexta-feira Santa: marca a crucificação e morte de Cristo, sendo feriado nacional.
Sábado Santo: dia de silêncio e preparação para a celebração da ressurreição.
Domingo de Páscoa: aclamado como o dia da vida nova, é o culminar da esperança cristã.
Tradições únicas de norte a sul
Portugal preserva uma impressionante diversidade de tradições pascais regionais:
- Procissão da Burrinha (Braga): uma encenação bíblica que reconstitui episódios desde Abraão até à fuga da Sagrada Família para o Egipto. A Virgem Maria surge montada num burro, num símbolo de humildade.
- Enterro do bacalhau (Coimbra e Penacova): um ritual satírico que marca o fim da Quaresma com uma cerimónia teatral de luto pela dieta de peixe.
- Queima do Judas (Travasso, Águeda e Montalegre): um boneco que simboliza a traição e a maldade é queimado, num ritual de purificação.
- Procissão das flores (São Brás de Alportel, Algarve): ruas cobertas de tapetes florais e tochas celebram a alegria da ressurreição.
- Bênção dos cordeiros (Castelo de Vide, Alentejo): animais são levados à igreja para serem abençoados, num costume que junta fé e tradição rural.
- Festa da Páscoa em Silva Escura: a segunda-feira após a Páscoa é celebrada com jogos, gastronomia, música e uma lenda local que liga a festividade à proteção da aldeia contra infortúnios.
- Jogo do balamento (Madeira): uma brincadeira tradicional onde os participantes tentam surpreender os outros com a palavra “balamento”, valendo doces como prémio.
A Visita Pascal: fé de porta em porta
Uma das tradições mais emblemáticas é a Visita Pascal, presente em várias localidades do país. Grupos liderados por membros da Igreja percorrem casas levando uma cruz, que é beijada pelos moradores. O ritual é acompanhado de bênçãos com água benta e partilha de doces e petiscos. Em muitas aldeias, esta visita é vivida com grande emoção, simbolizando a união e a esperança renovada.
Sabores da ressurreição: a gastronomia pascal
A mesa da Páscoa portuguesa é um verdadeiro festival de sabores e simbolismos. O protagonista é o folar, um pão tradicional que representa amizade e renovação. Pode ser doce ou salgado, dependendo da região, e muitas vezes inclui um ovo cozido no centro, símbolo da ressurreição.
Algumas variantes incluem:
- Folar de Chaves: recheado com carnes como fiambre, salpicão e linguiça.
- Folar de Valpaços: massa levedada com carnes diversas.
- Folar de Olhão: doce, com camadas de massa embebida em açúcar e canela.
- Folar em forma de animal (Elvas): decorado com amêndoas e ovos.
- Pão de ló (Minho): alternativa tradicional ao folar em algumas regiões.
- Outros pratos típicos incluem:
- Cabrito assado ou chanfana (carne de cabra em vinho tinto, tradicional da região de Coimbra).
- Leitão assado com batatas e legumes.
- Doces de amêndoa, ovos de chocolate e torrões, que representam a abundância e o renascimento.
Curiosidades e dados de 2025
Em 2025, a Páscoa será celebrada a 20 de abril, coincidindo com a data das celebrações ortodoxas — algo que não acontecia desde 2017.
A Sexta-feira Santa (18 de abril) será feriado nacional e marca o primeiro fim-de-semana prolongado do ano.
Às 15h00 da Sexta-feira Santa, muitas fábricas observam um minuto de silêncio, recordando a hora da morte de Cristo.
Em algumas regiões do nordeste, o folar é feito com enchidos salgados e azeite, em vez de ser doce.
Os padrinhos continuam a oferecer o folar aos afilhados até ao casamento destes, quando o ritual termina.
A Páscoa em Portugal não é apenas um evento religioso. É um espelho da identidade nacional, um momento de reencontro familiar, de celebração comunitária e de valorização do património imaterial do país. Entre fé, teatro popular, sabores ancestrais e rituais que atravessam gerações, os portugueses continuam a celebrar esta data com uma intensidade rara na Europa contemporânea.














