Fim do ‘La Niña’ após três meses fracos: O que esperar do clima na Europa no resto do ano?

Na Europa, os efeitos mais pronunciados da La Niña tendem a fazer-se sentir durante o inverno, através de um mecanismo conhecido como teleconexão — uma interação entre padrões climáticos distantes que influencia o tempo local.

Pedro Gonçalves

A La Niña, fenómeno climático natural caracterizado pelo arrefecimento das águas do Pacífico central, terminou após apenas três meses de atividade fraca. A informação foi confirmada esta quinta-feira pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que adianta que a Terra entrou agora numa fase neutra do ciclo de Oscilação Sul-El Niño.

Este estado neutro, considerado o mais benigno dos três que compõem o ciclo, é aquele em que fenómenos como a formação de furacões, secas, inundações e alterações da temperatura global tendem a ser menos extremos. Contudo, esta neutralidade também complica a elaboração de previsões meteorológicas a longo prazo, uma vez que falta o impulso climático claro que La Niña ou El Niño habitualmente proporcionam.



O que significa o fim da La Niña para o clima de 2025?
De acordo com a NOAA, prevê-se que esta fase neutra se prolongue pela maior parte, senão pela totalidade, de 2025. Esta mudança torna mais difícil a antecipação de padrões meteorológicos globais, já que um dos principais motores climáticos do planeta deixou de estar ativo.

Durante os seus curtos meses de atividade, a La Niña de 2025 — que surgiu em janeiro, vários meses mais tarde do que inicialmente previsto — revelou-se especialmente fraca. Tradicionalmente, a presença de La Niña contribui para um aumento do número de furacões no Atlântico e condições meteorológicas mais secas no sul e oeste dos Estados Unidos, bem como um clima mais húmido em partes da Indonésia, norte da Austrália e sul de África.

Estudos anteriores demonstraram ainda que as fases de La Niña tendem a ser economicamente mais dispendiosas do que os períodos de El Niño ou de neutralidade, devido a fenómenos como secas severas, escassez alimentar e ondas de calor mortais, como as registadas no último ano.

No entanto, em 2025, sem a influência ativa da La Niña, os especialistas não esperam que o fenómeno desempenhe um papel determinante no comportamento do clima global.

Impacto da La Niña no clima europeu
Na Europa, os efeitos mais pronunciados da La Niña tendem a fazer-se sentir durante o inverno, através de um mecanismo conhecido como teleconexão — uma interação entre padrões climáticos distantes que influencia o tempo local.

Segundo explicou Lars Lowinski, meteorologista da Weather & Radar, em declarações anteriores ao Euronews Green, é crucial distinguir entre duas zonas específicas do Pacífico: o Pacífico Central (CP) e o Pacífico Oriental (EP). Cada uma influencia de forma distinta o clima europeu.

“Se a anomalia de frio mais intensa durante a La Niña ocorrer na região do Pacífico Oriental, o Atlântico Norte e a Europa Ocidental tendem a registar tempestades mais fracas ou sistemas de baixa pressão reduzidos, favorecendo a formação de anticiclones que resultam em condições mais secas e, por vezes, mais frias”, explicou Lowinski.

Por outro lado, “uma anomalia fria no Pacífico Central tende a originar um padrão semelhante a uma Oscilação do Atlântico Norte (NAO) positiva, com um jet stream mais forte e maior atividade de tempestades no Atlântico próximo e na Europa Ocidental, levando a condições mais amenas, húmidas e ventosas”, acrescentou o especialista.

Ainda assim, Lowinski sublinha que outros fatores importantes — como a própria Oscilação do Atlântico Norte, os ventos estratosféricos próximos do equador e a convecção tropical sobre o oceano Índico — podem igualmente influenciar o comportamento do tempo na Europa.

Com a atual transição para condições neutras antes do verão de 2025, os meteorologistas não preveem qualquer tendência particularmente forte a moldar o clima europeu este ano.

2025 poderá ser um dos anos mais quentes da história
Apesar da ausência da influência direta de La Niña, o ano de 2025 deverá ainda assim ficar marcado por temperaturas elevadas. De acordo com a agência meteorológica e climática do Reino Unido, a Met Office, 2025 deverá posicionar-se entre os três anos mais quentes alguma vez registados.

O mês de março de 2025 já estabeleceu um novo recorde como o mais quente de sempre na Europa, o que levanta preocupações sobre a possibilidade de ondas de calor mais severas e incêndios florestais durante os meses de verão.

O futuro do clima europeu em 2025 permanece, assim, envolto em incerteza, mas com a certeza de que o calor extremo e fenómenos associados continuarão a ser temas centrais na agenda ambiental.

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