A mais recente classe de navios da Coreia do Norte tem capacidade para acomodar dezenas de células de lançamento vertical destinadas a mísseis já desenvolvidos pelo país, segundo uma análise de imagens de satélite. Este avanço representa um reforço significativo da frota naval de Pyongyang e pode ainda abrir novas oportunidades de exportação de armamento.
Pouco se sabe sobre esta nova classe de navios, atualmente em construção nos estaleiros de Chongjin e Nampo. Em dezembro de 2024, as Forças Armadas da Coreia do Sul estimaram que estas embarcações teriam um deslocamento de cerca de 4.000 toneladas, o que corresponde a menos de metade do peso de um ‘destroyer’ da classe Arleigh Burke da Marinha dos Estados Unidos.
Imagens captadas na última semana de março, a que a Reuters teve acesso, mostram que o convés do navio em construção em Nampo possui cavidades de dimensões suficientes para armazenar mais de 50 mísseis, dependendo do tipo de armamento utilizado. O investigador Jeffrey Lewis, do James Martin Center for Nonproliferation Studies, afirmou à agência de notícias que a configuração do navio sugere a capacidade de transportar pelo menos 32 mísseis na parte frontal, com um menor número na secção traseira. “Podem ser 32 mísseis na frente e um pouco menos na parte de trás, ou um número menor de mísseis balísticos”, explicou.
O sistema de lançamento vertical (VLS) permite que os navios transportem mais mísseis e facilita os processos de lançamento e recarregamento. De acordo com Lewis, a Coreia do Norte desenvolveu vários tipos de mísseis compatíveis com este sistema, incluindo mísseis de cruzeiro antinavio, mísseis de ataque terrestre, mísseis de defesa aérea e mísseis balísticos lançados a partir de submarinos. Até ao momento, Pyongyang não tinha utilizado o sistema VLS em nenhum dos seus navios de superfície.
Armamento aproxima-se dos padrões sul-coreanos
O análise ao novo navio sugere que o seu armamento segue padrões semelhantes aos da Marinha da Coreia do Sul. O analista Euan Graham, do Australian Strategic Policy Institute, sublinha a importância deste avanço: “Temos de levar a sério estes melhoramentos convencionais. A Coreia do Norte tem recursos limitados e investiu em armas nucleares para reduzir a diferença de dissuasão com a Coreia do Sul e os Estados Unidos.” Segundo Graham, o investimento na marinha deve estar alinhado com a estratégia militar norte-coreana, mesmo que esta possa parecer incomum para observadores externos.
Os primeiros registos fotográficos deste novo navio foram divulgados pela imprensa estatal norte-coreana em dezembro de 2024, quando o líder Kim Jong-un visitou o estaleiro. Desde então, Kim regressou várias vezes às instalações, onde o país também afirmou estar a construir o seu primeiro submarino nuclear, num anúncio feito no início de março deste ano.
“Navios de guerra extremamente poderosos devem servir como um forte elemento de dissuasão nuclear contra as habituais práticas de ‘diplomacia de canhão’ das forças hostis”, declarou Kim, segundo a imprensa oficial.
O Ministério da Defesa Nacional da Coreia do Sul ainda não comentou os relatórios sobre a nova embarcação norte-coreana.
Potencial exportação de armamento
A introdução de um sistema de lançamento vertical compatível com vários tipos de mísseis torna estas armas mais apelativas para exportação, especialmente para países que enfrentam restrições para adquirir armamento de fornecedores tradicionais. “Se um país estiver interessado em comprar mísseis antinavio norte-coreanos por serem mais baratos, sería vantajoso que viessem integrados num sistema VLS testado”, apontou Jeffrey Lewis.
O analista acrescenta ainda que, apesar de possivelmente não atingirem o mesmo nível de sofisticação que os seus equivalentes russos, “a quantidade tem o seu próprio valor qualitativo” e que a acessibilidade financeira destes mísseis pode torná-los uma opção viável para alguns países.
Apesar do avanço tecnológico que estes novos navios representam, alguns especialistas questionam o impacto real que terão em caso de conflito. Collin Koh, investigador da S. Rajaratnam School of International Studies, em Singapura, argumenta que a localização dos navios é bem conhecida, a sua autonomia é limitada e estão tecnologicamente muito atrás dos navios sul-coreanos e norte-americanos.
Ainda assim, Koh destaca que este esforço demonstra um compromisso de Pyongyang em revitalizar a sua marinha. “A marinha norte-coreana sempre foi, tradicionalmente, uma força de defesa costeira. Parece que estão a tentar rejuvenescer a frota”, afirmou.








