As Forças de Defesa de Israel (IDF) elaboraram planos para uma nova ofensiva em Gaza, visando a erradicação do Hamas e prevendo uma ocupação prolongada do enclave palestiniano, segundo adiantam fontes militares e governamentais israelitas ao Financial Times. A proposta, que ainda aguarda aprovação do gabinete de segurança, foi concebida pelo novo chefe do Estado-Maior das IDF e conta com o apoio de ministros da extrema-direita israelita, que há muito defendem medidas mais drásticas contra o grupo militante.
Fontes oficiais indicam que a elaboração destes planos foi facilitada pelo regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A administração Biden tinha manifestado oposição à reocupação de Gaza ou à anexação de territórios palestinianos, mas a nova liderança norte-americana parece oferecer um contexto mais favorável às ambições militares israelitas. “A administração anterior queria que terminássemos a guerra. Trump quer que a ganhemos”, afirmou um alto funcionário israelita sob anonimato. “Existe um interesse supremo dos Estados Unidos na derrota do Hamas”, acrescentou.
Segundo os planos das IDF, várias divisões de combate serão mobilizadas para uma reinvasão de Gaza, com o objetivo de destruir as bases operacionais do Hamas e assumir o controlo de vastas áreas do enclave. A população civil, estimada em 2,2 milhões de pessoas, seria deslocada para uma “zona humanitária” junto à costa do Mediterrâneo, onde ficaria dependente de ajuda humanitária.
Caso seja implementado, este plano significaria a primeira ocupação israelita de Gaza desde 2005, quando Israel retirou suas tropas e colonos após quase quatro décadas de presença militar. Analistas alertam que uma medida dessa magnitude poderá provocar uma insurgência prolongada contra as forças israelitas.
Risco humanitário e controlo da ajuda
A reocupação de Gaza poderia resultar numa crise humanitária ainda mais grave, com milhões de palestinianos confinados a uma pequena faixa de terra desprovida de recursos essenciais. Fontes revelaram que as IDF estão a considerar assumir o controlo direto da distribuição de ajuda humanitária, para evitar que beneficie o Hamas. Uma avaliação recente calculou a quantidade de calorias necessárias para garantir a subsistência da população, sugerindo que o fornecimento de alimentos será rigorosamente controlado.
Na segunda-feira, a ONU anunciou a retirada de um terço do seu pessoal internacional em Gaza, após um tanque israelita ter alegadamente disparado contra um complexo da ONU na semana passada, matando um trabalhador humanitário europeu e ferindo cinco outros. O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, confirmou o incidente, embora as IDF tenham negado qualquer envolvimento.
Intensificação da ofensiva e pressão política
Os planos de ocupação contrastam com a estratégia anterior, que consistia em operações de combate intensivas seguidas de retiradas táticas, para desmantelar as infraestruturas do Hamas sem manter presença prolongada no terreno. A nova abordagem reflete a crescente pressão política sobre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que prometeu erradicar o Hamas após o ataque do grupo militante a Israel em 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 250 foram feitas reféns.
Desde então, a campanha militar israelita devastou grande parte de Gaza, causando uma crise humanitária e resultando na morte de mais de 50.000 palestinianos, segundo autoridades locais. As IDF afirmam ter destruído grande parte da estrutura militar do Hamas, incluindo uma vasta rede de túneis subterrâneos, e eliminado líderes-chave como Yahya Sinwar e Mohammed Deif.
Apesar destas ações, o Hamas conseguiu recuperar o controlo em várias partes do enclave após um cessar-fogo acordado em janeiro para a troca de reféns. A incapacidade de remover totalmente o grupo tem gerado críticas dentro do governo israelita, impulsionando a necessidade de uma intervenção mais duradoura.
Ministros da extrema-direita israelita, como Bezalel Smotrich, têm defendido uma ofensiva mais abrangente. “Os soldados israelitas devem preparar-se para uma longa batalha para terminar o trabalho”, declarou Smotrich à rádio pública de Israel. “Gaza não será mais a mesma Gaza que conhecemos nas últimas décadas”, acrescentou.
Especialistas em defesa questionam a viabilidade do plano, alertando para o desgaste das tropas israelitas e a necessidade de mobilizar pelo menos quatro divisões de combate. A capacidade de Israel manter o controlo territorial e evitar uma resistência prolongada por parte dos militantes e da população local também é um ponto de interrogação.
A primeira movimentação da nova ofensiva já ocorreu na semana passada, quando Israel quebrou o cessar-fogo com uma intensa campanha de bombardeamentos aéreos e retomou operações terrestres. Na terça-feira passada, apenas um dia de ataques aéreos resultou na morte de 400 pessoas, a maioria mulheres e crianças, segundo fontes palestinianas.
O próximo passo dependerá da decisão do gabinete de segurança israelita e da reação internacional a um eventual regresso das tropas israelitas a Gaza para uma ocupação prolongada.














