Christopher Hart, professor de linguística na Universidade de Lancaster, no Reino Unido, observou um padrão na comunicação de Donald Trump que se destaca entre os políticos: o ex-presidente norte-americano recorre frequentemente ao gesto de apontar o dedo. E, segundo Hart, esse hábito tem um efeito surpreendentemente poderoso sobre os seus apoiantes.
Diferente de muitos políticos, Trump, cuja carreira televisiva em reality shows moldou o seu estilo performativo, utiliza uma combinação de retórica e gestos para se conectar com os seus seguidores em comícios e eventos públicos. O ato de apontar não se limita aos discursos: ele aponta para aliados políticos depois de serem apresentados em eventos de campanha ou para membros da sua administração, como fez em 2018 ao destacar Hope Hicks, então porta-voz da Casa Branca.
No entanto, o gesto não é reservado apenas a aliados. Trump também aponta diretamente para adversários, como fez no último debate presidencial contra Hillary Clinton em 2016. Nesses momentos, o apontar transforma-se numa espécie de acusação visual, um “pode acreditar nesta pessoa?”, reforçando a narrativa de antagonismo.
Intrigado pela constância desse gesto, Hart decidiu estudá-lo mais a fundo. Embora existam diversos estudos sobre a influência das palavras dos políticos, a comunicação não verbal ainda recebe menos atenção. Para preencher essa lacuna, o linguista analisou um vídeo de uma hora de um comício de campanha realizado em Buffalo, Nova Iorque, em abril de 2016. O evento, que contou com mais de 11 mil pessoas, revelou um dado impressionante: Trump recorre ao gesto de apontar mais de uma vez por minuto.
Embora outros políticos também façam uso desse gesto, a frequência com que Trump o utiliza destaca-se. Segundo Hart, a atmosfera energética dos comícios de campanha parece incentivar essa repetição.
Quando Trump aponta para a plateia, estabelece um vínculo direto com os seus apoiantes, criando um sentido de inclusão. Já quando direciona o gesto para os críticos, como jornalistas ou manifestantes, ele transforma-os em “inimigos”, reforçando a separação entre “nós” e “eles”. O efeito é notável: o público reage entusiasticamente, absorvendo a dinâmica do confronto que o gesto transmite.
Além disso, mesmo quando não está a falar, Trump mantém o hábito de apontar, seja como gesto de apreço ao público ou em momentos de encenação, como ao apontar para o topo de um imaginário muro fronteiriço.
O uso expressivo dos gestos por Trump reflete a sua experiência no mundo do entretenimento. Antes de se tornar uma figura de destaque na política, ele já era conhecido pelo seu estilo teatral, seja como estrela do programa “The Apprentice” ou pelas suas participações na WWE, onde a gesticulação exagerada faz parte do espetáculo. Segundo Hart, a forma como Trump aponta e interage com o público é característica de espetáculos ao vivo, ajudando a reforçar a sua imagem de “homem do povo”.
Além de apontar para terceiros, Trump também recorre frequentemente ao gesto para destacar a si mesmo, seja para demonstrar sinceridade ou para reforçar a ligação emocional com o público. Quando aponta para o chão ao mencionar um local específico, como “este país” ou “Buffalo”, está a associar a sua mensagem política diretamente ao público presente.
O impacto populista do gesto
Mas por que este gesto é tão relevante? De acordo com Hart, a forma como Trump utiliza o apontar de dedo é um dos fatores que explicam a sua forte ligação com os seguidores. A sua comunicação gestual foge do padrão tradicional da política, tornando os seus discursos mais dinâmicos e envolventes.
Estudos anteriores sugerem que políticos costumam seguir um “código gestual restrito”, utilizando um conjunto reduzido de gestos para transmitir assertividade e confiança. Um exemplo clássico é o “thist” — um gesto onde o polegar repousa sobre o punho cerrado — amplamente utilizado por figuras como Barack Obama. No entanto, essa rigidez pode parecer artificial e afastar os políticos do público comum.
Populistas como Trump, por outro lado, adotam um estilo mais espontâneo e carismático, espelhando a forma como as pessoas comuns comunicam. O efeito é semelhante ao observado em líderes como Boris Johnson, que também recorre frequentemente a gestos expansivos e informais.
No final, a gesticulação de Trump vai além de mero espetáculo: é uma ferramenta eficaz para cativar o público e reforçar a sua identidade política. Ao apontar para aliados e adversários, ele transforma os comícios em performances teatrais, onde a sua narrativa de inclusão e exclusão se manifesta de forma visual e impactante. Esse detalhe, aparentemente simples, é uma peça-chave no seu apelo populista.





