A doutrina militar dos Estados Unidos, inspirada nas teorias de Carl von Clausewitz, descreve a “névoa da guerra” como aquele momento em que o combate se torna imprevisível devido à fricção, à oportunidade e à incerteza. No atual cenário geopolítico, esta metáfora aplica-se ao novo mandato de Donald Trump, que parece utilizar esta estratégia para ocultar as suas verdadeiras intenções, tanto no plano interno como no externo.
O ex-presidente norte-americano, agora novamente no poder, tem vindo a reorganizar a sua abordagem às relações internacionais, causando perplexidade entre aliados e adversários. Mark Toth e o coronel reformado Jonathan Sweet, analistas de segurança nacional, sugerem que Trump está a transformar esta “névoa da guerra” numa ferramenta essencial para reafirmar a primazia dos Estados Unidos no cenário global.
“Os aliados devem assumir que, de agora em diante, esta é a nova normalidade na Casa Branca. O recado de Trump é claro: Washington quer parceiros estratégicos, não dependentes. Se a Europa continuar a tropeçar nesta névoa, arrisca-se a ficar para trás”, afirmam Toth e Sweet, em declarações citadas pelo The Hill.
Uma nova abordagem às relações internacionais
Nos primeiros dois meses deste novo mandato, Trump já abalou profundamente a diplomacia global. O presidente norte-americano ameaçou anexar o Canadá como o 51.º estado dos EUA, pressionou a Dinamarca para vender a Gronelândia e insinuou uma possível intervenção militar para retomar o controlo do Canal do Panamá. Além disso, prometeu desalojar os palestinianos de Gaza para urbanizar o território e tem demonstrado desinteresse pelo conflito na Ucrânia, exigindo que a Europa assuma a responsabilidade financeira pela guerra.
O padrão é claro: Trump está a desmontar as bases da ordem internacional estabelecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Esta mudança alicerça-se na ideia de que os Estados Unidos não podem continuar a financiar indefinidamente o equilíbrio global. O conceito de “escassez” está agora no centro da política externa norte-americana, como salienta um relatório da Conferência de Segurança de Munique, assinado pelo investigador Leonard Schütte.
“Quando perguntaram ao presidente Biden se os EUA poderiam apoiar simultaneamente a Ucrânia e Israel, ele respondeu: ‘Somos os Estados Unidos da América, por amor de Deus, a nação mais poderosa da história.’ Entretanto, Trump tem insistido na narrativa do declínio americano. Para os republicanos, os EUA já não são um superpoder com recursos infinitos para sustentar a ordem internacional”, sublinha o relatório.
Com este novo paradigma, Trump está a abandonar décadas de diplomacia baseada na cooperação e a substituí-la por um modelo transacional, onde tudo – desde territórios a alianças – pode ser negociado.
O regresso das áreas de influência
Este realinhamento geopolítico assenta na divisão do mundo em zonas de influência, onde cada potência regional terá de garantir a sua própria segurança e interesses. O secretário de Estado, Marco Rubio, ilustra bem esta perspetiva.
“Não é normal existir apenas uma superpotência global. Isso foi uma anomalia resultante do fim da Guerra Fria. Agora enfrentamos um mundo multipolar, com vários grandes poderes, como a China e a Rússia, além de estados problemáticos como o Irão e a Coreia do Norte”, afirmou Rubio em entrevista a Megyn Kelly.
As recentes negociações diretas entre Trump e Vladimir Putin refletem esta nova realidade. Os EUA pretendem retirar-se gradualmente da Europa, deixando a gestão do conflito na Ucrânia nas mãos de Bruxelas e Moscovo. “Estamos separados por um belo e grande oceano”, declarou Trump, num aviso aos aliados europeus para que aceitem os termos de Putin.
No Médio Oriente, a lógica é semelhante. Países como a Arábia Saudita e a Jordânia terão de definir o seu próprio caminho para a questão palestiniana. Se não o fizerem, a solução poderá ser ditada por Israel. Trump já sugeriu transformar Gaza numa estância balnear mediterrânica, o que ilustra a abordagem pragmática e desprovida de preocupações humanitárias da sua administração.
Prioridades estratégicas: novos ativos e alianças
O discurso oficial aponta para um foco no Indo-Pacífico e na contenção da China, mas a realidade indica que a Casa Branca está mais interessada em garantir o controlo de ativos estratégicos do que em confrontar diretamente Pequim.
A ameaça de Trump de aplicar tarifas de 100% aos microprocessadores taiwaneses levanta preocupações sobre um possível impacto na segurança de Taiwan. Como alertam Toth e Sweet, essa política poderia ser interpretada por Pequim como um sinal de que os EUA estão dispostos a deixar a ilha à sua sorte.
Além disso, os EUA estão a reforçar o seu interesse em regiões ricas em recursos naturais, como o Ártico e a Antártida. O Canal do Panamá, essencial para o comércio global, é um ponto crítico para a projeção naval norte-americana, enquanto a Gronelândia poderá desempenhar um papel central nas futuras rotas comerciais abertas pelo degelo do Ártico.
A pressão para estabilizar o Médio Oriente também se insere nesta lógica. Manter o controlo dos estreitos de Ormuz, Bab el-Mandeb e Suez é fundamental para assegurar a estabilidade dos preços do petróleo, permitindo aos EUA gerir os impactos económicos da sua política protecionista.
A última cartada de Trump: o uso da força?
Resta saber se Trump estará disposto a recorrer à força militar para concretizar os seus objetivos estratégicos. Até agora, a sua administração tem evitado envolver-se diretamente em conflitos armados, preferindo um modelo de pressão económica e política.
No entanto, há precedentes. Durante o seu primeiro mandato, Trump ordenou o ataque à base aérea síria de Al-Shayrat, em resposta ao uso de armas químicas pelo governo de Bashar al-Assad. Também autorizou a operação que resultou na morte do general iraniano Qasem Soleimani. Segundo Toth e Sweet, Trump poderá recorrer novamente à força caso considere necessário.
O Pentágono, no entanto, poderá enfrentar dificuldades para sustentar uma política militar agressiva. Com a promessa de reduzir o défice federal, Trump está a considerar cortes no orçamento da Defesa, o que poderia limitar a capacidade de projeção de força dos EUA.
A incerteza domina este novo cenário global. Com a retirada parcial dos EUA da cena internacional, vários conflitos latentes poderão intensificar-se. O mundo caminha para um período de instabilidade, onde o vácuo deixado por Washington será rapidamente preenchido por outros atores.
A Europa, até agora um parceiro privilegiado dos EUA, encontra-se numa posição delicada. Excluída das negociações que redefinem a geopolítica global, o continente pode enfrentar desafios inéditos nas próximas décadas. Como sugere a metáfora da névoa da guerra, a única certeza é a incerteza.








