‘Faz o que eu digo, não o que eu faço’: ‘Guerra’ de Trump com a Associated Press sobre Golfo do México mostra padrões duplos do presidente dos EUA

A Casa Branca impediu recentemente os jornalistas da Associated Press (AP) de acompanharem uma série de eventos oficiais, incluindo a assinatura de uma ordem executiva por Donald Trump no Despacho Oval e uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. A decisão surge na sequência da recusa da agência noticiosa em adotar a designação “Golfo da América”, imposta pelo presidente, em substituição de “Golfo do México”.

Pedro Gonçalves

A Casa Branca impediu recentemente os jornalistas da Associated Press (AP) de acompanharem uma série de eventos oficiais, incluindo a assinatura de uma ordem executiva por Donald Trump no Despacho Oval e uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. A decisão surge na sequência da recusa da agência noticiosa em adotar a designação “Golfo da América”, imposta pelo presidente, em substituição de “Golfo do México”.

“Associated Press não quer acatar a lei”, afirmou Trump na terça-feira, durante uma conferência de imprensa em Mar-a-Lago, na Florida. “Já não se chama Golfo do México e os seus jornalistas vão ficar de fora até aceitarem que agora se chama Golfo da América.”



A decisão gerou um intenso debate sobre a relação entre a imprensa e a administração Trump, levantando preocupações sobre a liberdade de imprensa e o papel dos media na cobertura do governo.

Censura ou consequência editorial?
A tensão entre a AP e a Casa Branca intensificou-se depois de Taylor Budowich, subdiretor de gabinete de Trump, ter declarado nas redes sociais que a agência “tem todo o direito a informar de maneira irresponsável e desonesta”, mas que isso “deve ter consequências”. Entre essas consequências, apontou a perda de acesso a espaços presidenciais como o Despacho Oval ou o avião presidencial Air Force One.

A Associated Press não demorou a reagir. Uma porta-voz da agência criticou a medida, afirmando que “o Governo quer ditar à imprensa, e por extensão ao público, que palavras devem ser usadas, sob pena de represálias”. A AP justificou ainda a sua recusa em adotar a nova designação, argumentando que a ordem executiva de Trump não tem reconhecimento internacional e que a maior parte do Golfo do México se encontra fora da jurisdição dos Estados Unidos.

“Apesar de termos sede em Nova Iorque, somos uma agência de notícias internacional e devemos agir como tal”, reforçou a porta-voz.

Ainda assim, a AP demonstrou alguma flexibilidade noutras áreas. A agência aceitou a exigência de Trump de alterar a designação do pico mais alto da América do Norte. A montanha, anteriormente chamada Denali, voltará a ser referida como Monte McKinley, em homenagem ao 25.º presidente dos Estados Unidos. A diferença, segundo a AP, é que o Denali se encontra em território exclusivamente norte-americano, sem impacto sobre outros países.

Duas medidas, dois pesos?
A polémica com a AP surge pouco depois de o vice-presidente dos EUA, JD Vance, ter criticado duramente a União Europeia por alegados ataques à liberdade de expressão. Durante a Conferência de Segurança de Munique, Vance apontou o dedo ao que classificou como um “retrocesso em valores fundamentais” em países como Suécia, Reino Unido e Alemanha.

“Estou disposto a admitir que, a vezes, as vozes mais fortes a favor da censura não vêm da Europa, mas do meu próprio país, onde a administração anterior [de Joe Biden] ameaçou e intimidou as redes sociais para censurar tudo aquilo que classificava como desinformação”, afirmou o vice-presidente.

Prometendo uma abordagem diferente, Vance garantiu que a administração Trump “fará exatamente o contrário”. “Espero que, desde Washington, possamos trabalhar juntos nesse sentido”, declarou.

As declarações de Vance contrastam, no entanto, com a decisão da Casa Branca de excluir a AP dos seus eventos, o que levou críticos a apontarem um duplo critério na defesa da liberdade de expressão.

Solidariedade entre os media
A exclusão da AP dos eventos presidenciais gerou uma onda de apoio dentro do setor jornalístico. O The New York Times, um dos jornais mais influentes dos EUA, condenou “os reiterados atos de retaliação deste governo contra decisões editoriais com as quais não concorda”.

Até na Fox News, tradicionalmente alinhada com Trump, houve figuras a criticarem a medida. O veterano analista Brit Hume e Eugene Volokh, colaborador da revista Reason, manifestaram-se contra a decisão.

A Fundação para os Direitos e a Expressão Individual, financiada por grupos conservadores que tinham elogiado o discurso de Vance em Munique, também se pronunciou. Num comunicado, a organização criticou a retaliação contra jornalistas “por não adotarem a terminologia exigida pelo Estado”. “O papel da nossa imprensa livre é exigir contas aos governantes, não agir como porta-voz deles. Qualquer esforço do governo para enfraquecer isso deve ser condenado”, declarou.

Alguns jornalistas sugeriram um boicote às conferências de imprensa da Casa Branca em protesto. “Até que Trump recue, os media deviam deixar de cobrir as suas conferências de imprensa e viagens”, defendeu Jim Acosta, ex-apresentador da CNN. Ron Fournier, antigo correspondente-chefe da AP em Washington, reforçou: “Nenhum jornalista que se preze deveria assistir a uma conferência da Casa Branca enquanto esta impedir a presença da AP apenas por não aceitar linguagem imposta pelo Estado”.

Boicote divide opiniões
Apesar do apelo a um boicote, há quem considere a ideia impraticável. Paul Farhi, jornalista da Columbia Journalism Review, alertou que um boicote massivo “não só é improvável, como também seria imprudente”.

“A imprensa não é uma entidade única e unificada. Os jornalistas que cobrem a Casa Branca representam organizações com diferentes perspetivas e agendas”, escreveu. Para Farhi, mesmo que meios como o The Washington Post, o The New York Times ou o The Wall Street Journal abandonassem a cobertura da Casa Branca, isso não impediria que outros meios, influenciadores e criadores de conteúdo digital ocupassem o espaço deixado vago.

A ideia de um boicote organizado à Casa Branca seria, aliás, inédita. A Associação de Correspondentes da Casa Branca já se queixou várias vezes sobre restrições ao acesso presidencial, mas nunca houve uma ação coordenada desse tipo. A única ocasião em que algo semelhante esteve perto de acontecer foi no primeiro mandato de Barack Obama, quando a Casa Branca ponderou vetar a Fox News de uma entrevista. Na altura, os restantes canais ameaçaram boicotar o evento, levando a administração Obama a recuar.

O confronto entre a Associated Press e a administração Trump adiciona mais um capítulo ao histórico de tensões entre o presidente e os media. Durante o seu primeiro mandato, Trump teve vários embates com jornalistas e chegou a classificar a imprensa como “o inimigo do povo”. Agora, a decisão de condicionar o acesso da AP à Casa Branca reacende as preocupações sobre liberdade de imprensa nos EUA, ao mesmo tempo que levanta questões sobre a coerência do discurso do governo norte-americano em defesa da liberdade de expressão a nível global.

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