Possível força de coligação para a Ucrânia gera divisões entre líderes europeus. Que exércitos se poderiam juntar ao Reino Unido em combate?

A Joint Expeditionary Force (JEF), uma coligação de dez países do norte da Europa liderada pelos britânicos, surge como uma possível solução, mas enfrenta desafios logísticos, políticos e militares.

Pedro Gonçalves

A possibilidade de uma força multinacional ser enviada para a Ucrânia como parte de um eventual acordo de paz está a dividir os líderes europeus. Embora o Reino Unido tenha sido o primeiro a manifestar disponibilidade para colocar tropas no terreno, outros países, incluindo a Alemanha, Itália e Espanha, mostram-se céticos quanto à eficácia e viabilidade de tal missão. A Joint Expeditionary Force (JEF), uma coligação de dez países do norte da Europa liderada pelos britânicos, surge como uma possível solução, mas enfrenta desafios logísticos, políticos e militares.

Desde que Vladimir Putin ordenou a invasão em grande escala da Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, nenhuma medida ocidental conseguiu dissuadi-lo. Quase três anos depois, tanto Moscovo como Kiev enfrentam um impasse militar, sem perspetivas de uma vitória clara.

Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, a dinâmica diplomática pode mudar. O ex-presidente norte-americano, que já iniciou negociações com Putin, pode obrigar o Kremlin a considerar seriamente um acordo de paz. O cenário mais provável, segundo analistas, seria um cessar-fogo que resultasse numa zona desmilitarizada de cerca de 1.300 quilómetros, congelando a linha da frente e deixando cerca de 20% do território ucraniano sob controlo russo.

Perante esta perspetiva, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, insiste na necessidade de uma força multinacional para supervisionar e garantir a estabilidade da região, prevenindo uma nova ofensiva russa. No entanto, a NATO e os Estados Unidos não deverão desempenhar um papel central nesta força de dissuasão, transferindo essa responsabilidade para os europeus.

O Reino Unido lidera esforços, mas encontra resistência
O primeiro-ministro britânico, Sir Keir Starmer, foi o primeiro a declarar disponibilidade para enviar tropas para a Ucrânia como parte de um eventual acordo. Em França, também se começou a discutir a possibilidade de uma força de “reassurance” (reasseguramento), que ficaria estacionada atrás das linhas da frente para dissuadir novos ataques russos.

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Contudo, uma reunião de emergência dos principais líderes europeus, realizada na segunda-feira em Paris, expôs profundas divisões sobre o envio de tropas. O chanceler alemão, Olaf Scholz, criticou a ideia, classificando-a como “prematura” e “altamente inadequada”. “Estou até um pouco irritado com estes debates”, afirmou Scholz, antes de abandonar a reunião mais cedo para participar num debate eleitoral na Alemanha.

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, mostrou reservas, argumentando que colocar tropas no terreno seria “o método mais complexo e menos eficaz para garantir a paz”. Já o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, rejeitou por completo a ideia: “Ninguém está, neste momento, a considerar enviar tropas para a Ucrânia. A paz ainda está muito distante, e por uma única razão: Vladimir Putin”.

A Polónia, um dos aliados mais firmes de Kiev, também demonstrou hesitação. O primeiro-ministro Donald Tusk afirmou que a principal prioridade de Varsóvia é a defesa da fronteira oriental da NATO.

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A Joint Expeditionary Force como possível solução
Diante das divisões internas da UE, uma alternativa surge com a Joint Expeditionary Force (JEF), uma coligação militar de dez países nórdicos e do norte da Europa, composta pelo Reino Unido, Noruega, Finlândia, Suécia, Estónia, Letónia, Lituânia, Dinamarca, Islândia e Países Baixos.

Vários líderes da JEF já demonstraram, ainda que de forma cautelosa, interesse em contribuir para uma missão internacional na Ucrânia. Se aliada a França, esta força poderia mobilizar entre 40.000 e 50.000 soldados para uma missão de dissuasão.

Michael Kofman, especialista do Carnegie Endowment e um dos analistas militares mais respeitados, afirmou que a presença de uma força multinacional não teria de cobrir toda a linha da frente. “A força não precisa de estar em todo o lado. Basta que tenha batalhões posicionados em quatro direções operacionais e mobilidade suficiente para se deslocar rapidamente para onde for necessário”, explicou Kofman.

As regiões de Kharkiv, Donetsk e Zaporíjia são vistas como os locais mais prováveis para novas ofensivas russas, caso o conflito seja reativado. Assim, qualquer força destacada para a Ucrânia teria de estar altamente armada, contando com tanques de batalha Challenger 2 e Leopard 2, artilharia pesada e helicópteros de ataque. Além disso, precisaria de uma elevada mobilidade para cobrir uma vasta zona desmilitarizada.

Hamish de Bretton-Gordon, ex-comandante de tanques britânico, sublinha que qualquer força europeia terá de demonstrar força. “Temos de ser capazes de suprimir o inimigo. Quando a Rússia olhar para Oeste, tem de ver uma força que a faça pensar duas vezes antes de agir”, declarou.

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O próprio site oficial da JEF descreve a coligação como composta por “forças de alta prontidão, configuradas para responder rapidamente a crises”.

O Reino Unido poderá enviar até 20.000 soldados, incluindo unidades de comandos e reservistas, enquanto outros países contribuiriam proporcionalmente, consoante o tamanho dos seus exércitos.

Desafios logísticos e oposição russa
Uma operação desta magnitude exigiria meses de preparação, e o destacamento de forças teria de ser cuidadosamente coordenado para evitar comprometer outros compromissos militares dos países envolvidos. O Reino Unido, por exemplo, mantém contingentes em países como a Estónia e Chipre, além de forças estacionadas na NATO.

Outro fator crucial seria a necessidade de apoio dos EUA, mesmo que não participassem diretamente na missão. Cobertura aérea, acesso a satélites de reconhecimento e drones de vigilância seriam fundamentais para monitorizar a zona desmilitarizada.

No entanto, Moscovo já sinalizou a sua oposição a qualquer presença militar europeia na Ucrânia. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, rejeitou a ideia de tropas ocidentais no país, independentemente da bandeira sob a qual operassem. “A presença de forças armadas, sob qualquer pretexto, é completamente inaceitável”, afirmou Lavrov, durante negociações com os EUA mediadas pela Arábia Saudita.

Se a missão avançar, os militares destacados para a Ucrânia teriam de enfrentar condições desafiantes. Nos primeiros meses, as tropas viveriam em tendas, como é habitual em operações expedicionárias. À medida que a missão se prolongasse, seria necessário melhorar as infraestruturas, incluindo a construção de quartéis, ginásios e refeitórios.

A rotatividade das tropas seria essencial para manter a prontidão operacional. Oficiais superiores poderiam ser substituídos anualmente, enquanto as unidades de combate seriam rendidas a cada seis meses.

Contudo, qualquer força destacada para a Ucrânia teria de lidar com uma dura realidade: a missão dificilmente seria permanente. Manter uma presença militar europeia ao longo do tempo implicaria um esforço financeiro e logístico considerável, colocando pressão sobre os orçamentos de defesa nacionais.

Por agora, os líderes ocidentais terão de explicar a Zelensky que, mesmo que uma missão de paz seja aprovada, esta poderá ter uma duração limitada.

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