Um aristocrata romeno, um magnata israelita e um plano corrupto para roubar 145 milhões de euros em terras reais: conheça a história do príncipe Paul da Roménia

Em abril último, no Mediterrâneo, quatro polícias à paisana foram ao luxuoso resort ‘Westin Dragonara’ para prender um dos seus hóspedes: o príncipe Paul da Roménia tinha acabado de chegar ao hotel de cinco estrelas – com quartos que podem custar até 5 mil euros por noite – quando foi detido

Francisco Laranjeira

Em abril último, no Mediterrâneo, quatro polícias à paisana foram ao luxuoso resort ‘Westin Dragonara’ para prender um dos seus hóspedes: o príncipe Paul da Roménia tinha acabado de chegar ao hotel de cinco estrelas – com quartos que podem custar até 5 mil euros por noite – quando foi detido.

Em causa estava um Mandado de Prisão Europeu e apesar dos protestos de inocência, os oficiais recusaram-se a ceder. “Não me ouviram, apenas me carregaram para dentro do carro para ser preso”, indicou, em declarações ao jornal ‘POLITICO’, a partir de Malta, onde foi forçado a permanecer durante meses devdo a uma guerra legal entre países da União Europeia.



A prisão do aristocrata romeno deu início ao mais recente capítulo de uma extraordinária saga jurídica, que abrange décadas e vários países europeus. No centro está Paul, o neto de 76 anos de um dos últimos reis da Roménia, que tem sido caçado por todo o Velho Continente pelo seu papel num esquema para recuperar ilegalmente as terras reais que pertenciam à sua família. Entre os demais envolvidos está um magnata israelita do ramo dos diamantes, o ex-chefe de gabinete de um primeiro-ministro romeno que já foi preso por corrupção e uma série de burocratas que aceitavam subornos.

A extensa Floresta Snagov, na Roménia, é famosa por conter um mosteiro medieval onde é suposto estar o local do descanso final de Vlad, o Empalador, o senhor da guerra do século XV e herói nacional romeno que foi a inspiração para o Drácula. Parte da floresta pertenceu ao rei Carol II da Roménia, que reinou entre 1930 e 1940. Foi confiscada, assim como todas as terras reais, durante a II Guerra Mundial pelo Governo fascista e depois pelos comunistas, que aboliram a monarquia em 1947.

Durante mais de 40 anos, a extinta família real da Roménia esteve no exílio, espalhada pela Europa – incluindo Paul, nascido em Paris em 1948, filho de Mircea Hohenzollern, o filho mais velho do rei Carol II. Paul foi criado em França e educado em internatos de elite no Reino Unido — esteve no mesmo ano que o rei Carlos III, de quem é parente distante, em Gordonstoun, sendo que não foi há Roménia até ter 40 anos.

O regresso ao país natal só se tornou possível em 1989, quando os romenos se livraram de meio século do Governo comunista, numa revolução que culminou na execução do ditador Nicolae Ceausescu e a sua mulher no dia de Natal. Com a queda do comunismo, Paul regressou imediatamente ao país que os seus antepassados ​​governaram.

No entanto, o regresso do príncipe exilado, um negociante de belas artes que não falava romeno, não foi popular entre todos. Embora a monarquia nunca tenha sido restaurada, o Governo deu ao popular ramo principal da família real — liderado primeiro pelo tio de Paul, o rei Miguel I, e hoje pela filha do rei, Margareta — um papel cerimonial, permitindo-lhes usar o Palácio Elisabeta em Bucareste como a sua residência oficial. Em 2012, um tribunal romeno confirmou a linhagem real de Paul, mas a sua reivindicação real nunca foi totalmente aceite no seu país ancestral, inclusive pela sua família.

Mas isso não o impediu de tentar conquistar um papel na vida pública romena: concorreu à presidência da Roménia em 2000, mas obteve apenas 50 mil votos, ou cerca de 0,5%. Com a mulher americana Lia, transformou a sua mansão de cinco andares em Bucareste numa espécie de corte real sombria, onde hospeda dignitários, embaixadores e celebridades menores.

No entanto, quando um rico empresário com ligações ao antigo primeiro-ministro da Roménia abordou Paul com uma oferta para ajudá-lo a recuperar antigas terras reais, foi uma oportunidade de ouro para afirmar o seu título de uma vez por todas.

Em 2006, Remus Truica, ex-chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro Adrian Nastase, convidou Paul e a sua mulher para a sua propriedade à beira do lago perto da Floresta Snagov e ofereceu um acordo: a sua empresa, ‘Reciplia SRL’, poderia ajudar a recuperar as terras ancestrais disputadas de Paul em nome do príncipe e pagar-lhe um adiantamento de 4 milhões de euros, se Paul devolvesse entre 50 e 80% das propriedades para a ‘Reciplia SRL’. As terras valiam um total combinado de 145 milhões de euros, de acordo com as autoridades romenas.

Contudo, Paul veio a perceber que Truica fazia parte de um grupo com um magnata israelita, Benyamin Steinmetz, e o seu braço direito, Tal Silberstein, que viria a ser um conselheiro político do chanceler austríaco Christian Kern. Na realidade, foi Steinmetz, um magnata da mineração com uma fortuna originalmente feita de diamantes africanos, o verdadeiro financiador do plano de recuperar as antigas terras reais e não Truica, como Paul foi levado a acreditar – a Reciplia era quase 90% de propriedade de Steinmetz, com Truica um acionista minoritário, de acordo com documentos judiciais.

Paul não recebeu a sua parte prometida da venda dos ativos e apresentou uma queixa na polícia em 2015. “Não achei que tivesse feito nada de errado”, disse. “Senti que fui eu quem não recuperou as minhas propriedades.” Na altura, as autoridades romenas já tinham sob vigilância as relações do príncipe com Truica, Steinmetz e um grupo de conspiradores, incluindo advogados dos três homens e uma série de autoridades locais corruptas, envolvidos na restituição ilegal das antigas terras reais.

Em dezembro de 2020, a polícia bateu à porta da casa de Paul. O mais alto tribunal da Roménia tinha acabado de condenar à revelia o príncipe e os seus conspiradores por corrupção, anulando uma absolvição anterior e aplicando-lhes sentenças de prisão que variam de três a sete anos atrás das grades. Paul não estava em casa, tinha viajado para Portugal, e não se sabia quando voltaria, informou a mulher Lia. Pouco tempo depois, surgiu uma foto do príncipe do site da Interpol e passou a ser oficialmente um homem procurado.

O papel de Paul no esquema foi limitado, mas não menos central, de acordo com as autoridades romenas. “Embora não fosse membro do grupo criminoso organizado” que fazia o trabalho sujo de subornar autoridades, “fazia parte do grupo de interesses que girava em torno dele e que visava entrar ilegalmente na posse de ativos pertencentes ao Estado romeno”, concluiu o tribunal. “Motivado pelo desejo de enriquecer, invocando a ligação com o antigo rei Carol II, e sabendo que os bens reclamados não poderiam ser obtidos legalmente, o réu [Paul da Roménia] concordou” em fazer parte do esquema, que custou ao Estado 145 milhões de euros.

No final das contas, a lista de pessoas condenadas é tão longa quanto bizarra: inclui Paul, o príncipe sombra da Roménia; um chefe de gabinete corrupto do ex-primeiro-ministro, Truica; o bilionário israelita dos diamantes, Steinmetz; e uma série de autoridades locais que aceitaram subornos em troca da transferência de dezenas de hectares de terra de propriedade do estado para Paul. No total, 19 foram condenados e sentenciados à prisão.

Paul foi condenado a três anos e meio de prisão, Truica foi condenado a sete anos e colocado atrás das grades, e Steinmetz foi condenado a cinco anos – viria a ser preso na Grécia e depois no Chipre, onde se defendeu com sucesso de pedidos de extradição romenos sob a alegação de que as condições nas prisões da Roménia eram desumanas.

A polícia finalmente alcançou Paul — não em Portugal, mas na sua França natal, parando-o numa rua de Paris em junho de 2022. As autoridades romenas emitiram um Mandado de Prisão Europeu, o que significava que poderia ser detido em qualquer lugar da UE e extraditado para a Roménia.

Um tribunal francês decidiu a favor de Paul e recusou extraditá-lo para a Roménia, concluindo que o príncipe não poderia ter tido um julgamento justo. A equipa jurídica do príncipe também contestou com sucesso o aviso de procurado da Interpol, que foi excluído. Por enquanto, pelo menos, foi um homem livre.

Depois de a polícia o ter detido no resort, foi levado rapidamente para uma audiência judicial onde lhe foi negada fiança, com o magistrado a garantir que os crimes pelos quais ele foi condenado na Roménia eram sérios demais para ficar livre. Passou os dois meses seguintes atrás das grades. Quando foi libertado sob fiança em julho, o cabelo preto de Paul tinha ficado branco. Um mês depois, a 12 de agosto, recebeu a decisão que estava à espera: o tribunal de apelação de Malta recusou a extradição para a Roména por questões de direitos humanos.

Com uma condenação na Roménia e um Mandado de Prisão Europeu ainda a pairar sobre a sua cabeça, Paul ainda pode enfrentar prisão em 25 países-membros da UE. Após a decisão maltesa, o ministro da justiça da Roménia prometeu furiosamente continuar a perseguir o príncipe.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.