“Não sei em que momento estes malucos me podem entrar em casa”: Crise na Venezuela gera ‘onda migratória’ com milhões a saírem do país

De acordo com o Observatório da Diáspora Venezuelana, esta é a maior diáspora global, superando sírios, afegãos e ucranianos.

Pedro Gonçalves

A Venezuela está a viver um momento crítico, com uma crescente onda migratória impulsionada pela atual crise política e social. Este cenário de desespero e busca por alternativas tem levado milhares de cidadãos a procurar refúgio fora do país, enquanto o regime de Nicolás Maduro se mantém firme e repressor.

Luis Gutiérrez, um cozinheiro de 24 anos oriundo de Caracas, é um exemplo desta fuga em massa. Em um depoimento carregado de emoção, Gutiérrez expressou: “Bro (irmão), realmente não queria ir-me embora, pensei que desta vez seria diferente, que este Governo aceitaria a derrota. Queria ver como as coisas fluíam, mas agora, com a prisão de qualquer pessoa, especialmente daqueles que protestam, tive que ir. Não sei em que momento esses malucos podem vir à minha casa”. O jovem conta ao El Mundo que chegou recentemente à Europa como parte de uma onda migratória crescente, considerada por dirigentes opositores, especialistas em migração e países da região como um grande êxodo provocado pela alegada megafraude eleitoral de Maduro.



Atualmente, quase nove milhões de venezuelanos estão espalhados por cerca de uma centena de países, com a maior parte, cerca de seis milhões, a viver em nações da América do Sul. De acordo com o Observatório da Diáspora Venezuelana, esta é a maior diáspora global, superando sírios, afegãos e ucranianos.

O entusiasmo da diáspora com a campanha eleitoral na Venezuela, motivada pela esperança de mudança, converteu a candidatura de Edmundo González Urrutia e María Corina Machado em uma força política de grande impacto. No entanto, a recente vitória do chavismo nas eleições de 28 de julho trouxe um novo golpe à oposição, tanto dentro quanto fora do país. María Corina Machado advertiu: “Se Maduro optar por se manter no poder à força, poderemos estar assistindo a uma onda migratória como nunca vimos antes: três, quatro, cinco milhões de venezuelanos (a fugirem) em pouco tempo”.

Gutiérrez, motivado pela esperança de mudança, esperou até após as eleições para deixar o país. A sua decisão de partir foi precipitada pelo clima de repressão que se seguiu ao alegado fraude eleitoral. Após vender os seus bens de valor e com a ajuda de sua irmã, que já vive na Espanha, Gutiérrez conseguiu sair do país e sentiu um alívio apenas quando o avião cruzou o Mar das Caraíbas.

O interesse em emigrar entre os venezuelanos é alarmante. Segundo uma investigação da Meganálisis realizada em maio, 41,1% dos venezuelanos manifestaram desejo de emigrar devido às atuais circunstâncias no país e ao falso otimismo do regime. Nas redes sociais, observa-se a venda de diversos bens, incluindo casas e carros, como preparativos para deixar o país. Muitos venezuelanos estão também a considerar a rota através da selva do Darién, que separa a Colômbia do Panamá, devido às dificuldades enfrentadas na fronteira entre o México e os Estados Unidos.

O olhar dos venezuelanos está também voltado para a Espanha, com um aumento significativo nas consultas sobre processos migratórios. Juan S., um pequeno empresário de Caracas, anunciou: “Maduro já declarou a ditadura, vou para a Espanha na próxima semana. Quero viver e trabalhar lá. Deixarei algumas pessoas encarregadas e irei direto, enviando o dinheiro. Tenho dois filhos lá, já estão lá há um tempo. Espero poder montar um pequeno negócio. Só quero estar tranquilo e que meus filhos estudem”.

O ambiente de incerteza e a elevada demanda por documentos têm contribuído para o aumento dos preços dos passaportes, que atualmente podem custar até 500 dólares, e dos bilhetes de avião, complicando ainda mais a saída do país. A ruptura das relações com países que denunciaram o suposto fraude eleitoral de Maduro resultou na suspensão de voos para esses destinos e na redução da oferta.

Ronald Vergara, diretor do abrigo Hermanos Caminantes, localizado a meia hora da fronteira entre Venezuela e Colômbia, prevê uma nova onda migratória a partir de setembro ou outubro: “Eu calculo que, a partir de setembro, talvez outubro, começaremos a ver uma nova onda de venezuelanos fugindo pela fronteira com a Colômbia e em busca dos Estados Unidos. Muitos tentaram outros países e preferem arriscar a aventura no norte”.

Também, a investigadora María Gabriela Trompetero, da Universidade de Bielefeld, observou que, apesar da solidariedade inicial da Colômbia com a regularização de dois milhões de venezuelanos, as políticas migratórias na região estão a endurecer. “Lamentavelmente, observamos uma mudança das políticas mais solidárias para políticas de encerramento de fronteiras e exigências de vistos”, afirmou Trompetero.

A estimativa do governo chileno é de que entre 200.000 e 300.000 venezuelanos possam chegar nos próximos meses, representando cerca de 10% do total. Manuel Monsalve, subsecretário do Interior do Chile, expressou preocupações com o impacto dessa migração. Panamás e Estados Unidos já estão a trabalhar no controle da saída de emigrantes através do Darién, que já registrou mais de 200.000 emigrantes este ano, sendo 66% venezuelanos.

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