Identidade roubada a um bebé morto, dinheiro escondido no congelador…Como um casal de espiões russos inventou uma vida de raiz

María Rosa Mayer Muñoz e Ludwig Gisch, residentes no número 35 da rua Primoieva, em Crnuc, Liubliana, pareciam viver uma vida perfeita, mas o que se escondia por trás da sua fachada era uma operação de espionagem sofisticada.

Pedro Gonçalves

A recente revelação sobre um casal de espiões russos, que vivia disfarçado na Eslovénia, expôs uma intrincada operação de espionagem que se desenrolava sob uma fachada cuidadosamente construída. María Rosa Mayer Muñoz e Ludwig Gisch, residentes no número 35 da rua Primoieva, em Crnuc, Liubliana, pareciam viver uma vida perfeita, mas o que se escondia por trás da sua fachada era uma operação de espionagem sofisticada.

Os vizinhos da tranquila área suburbana de Crnuc, localizada ao norte de Liubliana, acreditavam que a família Mayer-Gisch levava uma vida exemplar. María, que dirigia uma galeria de arte, e Ludwig, que parecia estar à frente de uma startup tecnológica de sucesso, eram vistos como membros respeitáveis da comunidade. No entanto, segundo informações do The Wall Street Journal, por trás desta fachada havia uma rede de espionagem russa em pleno funcionamento.



O casal mantinha centenas de milhares de euros em notas novas escondidos no compartimento de um frigorífico, revelando a verdadeira natureza de suas atividades. Esses fundos eram utilizados para financiar operações secretas e remessas para outros agentes do SVR (Serviço de Inteligência Exterior Russo) que estavam ativos em outros locais.

Identidades Falsas e Treino Intensivo

María Rosa Mayer Muñoz, que alegava ser uma argentina com uma história de vida marcada por altos e baixos, na verdade chamava-se Anna Valerievna Dultseva. Nascida em Nizhny Novgorod, na Rússia, Anna era uma oficial de elite do SVR, e o seu histórico foi construído através de uma complexa rede de mentiras. A espia entrou na Argentina com documentação falsa, alegando ser de origem uruguaia e com uma história de nascimento grega para mascarar a sua verdadeira identidade. Na realidade terá roubado a identidade a uma bebé que morreu numa pequena localidade grega.

O seu companheiro, Ludwig Gisch, era na verdade Artem Viktorovich Dultsev, nascido em Bashkortostán, Rússia. Artem, assim como Anna, tinha uma identidade falsa que afirmava ser de origem austríaca e nascido na Namíbia, mas com mãe argentina. O casal utilizou estes disfarces para construir uma vida de fachada na Argentina antes de se mudarem para a Eslovénia.

Conforme detalhado por fontes da agência Nova, a dupla passou anos a ser treinada intensivamente no SVR. Após o treino, foram enviados para a Europa com a missão de se infiltrar e realizar atividades de espionagem, tendo que cortar laços com a Rússia e viver como cidadãos comuns. Em 2017, entraram na Eslovénia com vistos de turista, estabelecendo-se em Liubliana e, em 2019, e conseguiram obter vistos de residência.

O Impacto da Guerra na Operação

A invasão russa à Ucrânia, em fevereiro de 2022, foi um marco crucial na operação dos Dultsev. O casal viajou de volta para a Argentina no mesmo dia da invasão, uma ação que levantou suspeitas entre os serviços de inteligência. Após breve estadia, retornaram rapidamente à Eslovénia, o que levantou alertas entre as autoridades eslovenas.

As investigações, aceleradas por informações fornecidas por uma agência estrangeira, levaram à descoberta da verdadeira identidade dos espiões. Segundo Dimitri Peskov, porta-voz do Kremlin, “os ‘ilegais’ fazem muitos sacrifícios pelo seu trabalho, como foi o caso de Anna e Artem”, destacando o compromisso e a dedicação destes agentes.

Descoberta e Prisão

Em dezembro de 2022, a polícia secreta eslovena, com o apoio de informações internacionais, invadiu a residência dos Dultsev em Liubliana. A operação revelou equipamentos de comunicação altamente criptografados, cuja complexidade foi tal que nem mesmo técnicos eslovenos e americanos conseguiram aceder aos mesmos, conforme reportado pela agência Nova. O casal foi preso e, após um julgamento acelerado, foram condenados a um ano e sete meses de prisão por espionagem e uso de identidades falsas. Como já haviam cumprido grande parte da pena, foram deportados e proibidos de retornar à Eslovénia por cinco anos.

O Grande Intercâmbio de Prisioneiros

Recentemente, Dultsev e Dultseva foram transferidos para Moscovo como parte do maior intercâmbio de prisioneiros entre o Ocidente e a Rússia desde 1985. De acordo com o The Wall Street Journal, o processo de negociação para o intercâmbio começou logo após sua prisão, em total segredo.

A chegada dos espiões a Moscovo foi marcada por um evento dramático. Anna Dultseva desembarcou do avião emocionada ao encontrar Vladimir Putin, presidente da Rússia e ex-oficial do KGB, que a aguardava com um ramo de flores. O presidente, consciente da situação delicada, falou com os filhos do casal em espanhol, pois as crianças não falavam russo.

A revelação da verdadeira identidade dos pais foi um choque para os filhos, que até então acreditavam ser argentinos.

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