Com as férias de verão a chegarem, há muitas pessoas ansiosas que já suspiram pela possibilidade de relaxar com um bom romance ou ter tempo para ler artigos mais longos: no entanto, a tecnologia está de tal forma enraizada que tem tornado cada vez mais difícil a concentração para textos longos, sendo que muitos de nós desistem passados alguns minutos – em vez disso, pula-se de tarefa em tarefa (ou de janela em janela…) e luta-se para encontrar paz de espírito para nos concentrarmos em qualquer coisa por mais do que alguns minutos.
De acordo com Teresa Rossignoli Palomeque, líder do projeto ‘STap2Go’ e docente da Universidade Nebrija (Madrid), seja a trabalhar seja a relaxar, estamos imersos num tempo de ecrã quase constante, tanto na TV, computadores, smartphones ou tablets. Os telemóveis são particularmente difíceis de evitar: levam-se para todo o lado e são utilizados para aceder a serviços básicos. Em Espanha, por exemplo, as pessoas passam em média 5,45 horas por dia online, com números semelhantes em toda a Europa – a média do Reino Unido é de 5,75 horas, enquanto Portugal lidera o ranking europeu com cerca de 7,5 horas por dia.
Esta exposição, refere a especialista, num artigo publicado no site ‘The Conversation’, tem impacto nos nossos cérebros: estamos a acostumar-nos ao que é conhecido como atenção “de baixo para cima”, onde as emoções ou o interesse são desencadeados por estímulos externos que não podemos controlar – em vez de direcionar voluntariamente a nossa atenção (conhecido como atenção “de cima para baixo”), os media digitais captam-na, quer queiramos quer não.
O problema com tanta atenção “de baixo para cima” é que dificulta a nossa atenção a tarefas menos atraentes imediatamente, ou que requerem um processamento mais lento, como ler, analisar informações ou estudar.
Uma característica de como consumimos conteúdos multimedia é que isso nos obriga a realizar múltiplas tarefas: alternamos entre diferentes tipos de conteúdo e informação sem processá-los lentamente. Esta forma de ler tem um impacto negativo no desempenho escolar e cria dependência – ativa as mesmas áreas do nosso cérebro que um vício. Ou seja, os conteúdos digitais ‘apanham-nos’ em detrimento de outras tarefas.
Além do mais, também está a afetar a qualidade do sono, que está intimamente ligada à nossa capacidade de atenção. Parte do problema é que estamos acostumados a estar constantemente ligados aos nossos dispositivos, mesmo quando vamos dormir. Já foi demonstrado que a luz dos ecrãs confunde o nosso cérebro, fazendo-o pensar que é dia, impedindo-nos de gerar melatonina – a hormona que nos ajuda a adormecer. Sabe-se que o sono é essencial para estabilizar a memória e ter um desempenho atento no dia seguinte.
Portanto, não é coincidência que os problemas de défice de atenção estejam a aumentar. Para manter o foco, precisamos de não estar constantemente ligados à internet. Existem vários processos que podemos fazer para melhorar a nossa concentração e processar informações mais lentamente.
Quais?
– reduza o tempo de ecrã e desconecte-se quando precisar de se concentrar noutras tarefas. Minimize o tempo das crianças e limite-as ao conteúdo educacional quando elas tiverem acesso a esses dispositivos.
– passe algum tempo ao ar livre e na natureza. Isto tem benefícios cientificamente comprovados para a nossa capacidade de atenção e até mesmo para a nossa capacidade intelectual geral.
– faça exercício. A atividade física é benéfica tanto para a saúde física como para a mental. É especialmente bom para a nossa capacidade de atenção, memória, regulação emocional e humor.
– certifique-se de ter uma boa higiene do sono, reduzindo a estimulação antes de dormir.
– siga uma dieta balanceada, prestando atenção aos antioxidantes e minerais, essenciais para o bom funcionamento do cérebro.
– crie rotinas que o desencorajem de ser atraído pelas distrações digitais. Isso pode incluir meditação, ouvir música ou ler.
– adapte o seu ambiente. Se trabalha em casa, por exemplo, mantenha um espaço para trabalhar separado e mantenha tudo relacionado ao trabalho fora da vista. De forma mais geral, utilize temporizadores para realizar tarefas mais longas e faça pausas curtas – poderá então, gradualmente mas conscientemente, aumentar o tempo que passa concentrado numa tarefa. A ordem das tarefas também é importante: fazer primeiro as atividades que exigem mais atenção ou esforço e depois terminar com as mais fáceis – a nossa atenção tende a diminuir à medida que nos cansamos.








