A Hungria, nas palavras de Viktor Orbán, está a preparar-se para a guerra. “Precisamos de ir mais fundo, ocupar posições, reunir aliados e consertar a União Europeia”, declarou o primeiro-ministro húngaro, de 60 anos, numa entrevista no final do ano passado. “Não basta ficar com raiva. Precisamos de assumir o controlo de Bruxelas.”
O primeiro-ministro húngaro destacou-se como uma das vozes mais críticas da União Europeia, utilizando-a frequentemente como bode expiatório para angariar apoios populistas e classificando a relação da Hungria com Bruxelas como uma batalha para consolidar a ideologia de direita baseada no nacionalismo e nos valores familiares tradicionais.
Desde abril de 2022, houve uma mudança no tom e na sua abordagem de Orbán à UE. No líder húngaro, a UE enfrenta um novo tipo de euroceticismo, de alguém que não quer sair do bloco mas moldá-lo, isto quando se prepara para assumir a presidência rotativa do bloco europeu em julho. “Se quisermos manter a liberdade e a soberania da Hungria, temos de ocupar Bruxelas e trazer mudanças à União Europeia”, declarou Orbán num comício em Budapeste no passado dia 15.
Zsuzsanna Szelenyi, uma ex-aliada que se tornou crítica de Orbán, em declarações ao jornal ‘POLITICO’, salientou que os esforços do primeiro-ministro para moldar o debate político na Europa refletem a autoconfiança de um líder que já não enfrenta oposição significativa em Budapeste. “Orbán não precisa de se preocupar em perder poder em casa porque acumulou um poder enorme”, salientou. “O seu objetivo é agora mais amplo do que a Hungria. Isso tem sido bastante óbvio há algum tempo. Ele quer não só proteger o seu regime na Hungria, mas também influenciar a cultura política na Europa. Bruxelas é a pedra angular disto.”
Budapeste encara os próximos meses como uma janela crucial para a mudança política. Nas eleições europeias de junho, os cidadãos de todo o bloco escolherão os 720 membros do Parlamento Europeu e desencadearão uma reformulação mais ampla dos principais cargos de liderança da UE em todo o bloco.
As sondagens apontam para uma viragem à direita, com os partidos populistas e nacionalistas a ganhar terreno e as forças centristas e de esquerda a perderem assentos – uma mudança que coincidiria com a Hungria a assumir o comando do Conselho da União Europeia.
“Há muito tempo que não via uma oportunidade tão boa para forças nacionais, conservadoras, soberanistas e de base cristã se tornarem dominantes na União Europeia”, destacou Orbán. “Não é uma revolução da noite para o dia”, indicou. “Mas a mudança pode começar a partir de junho. Essa é a minha esperança e estou a trabalhar nisso. Tentarei desempenhar um papel para unificar a direita e varrer as caras socialistas, esquerdistas, progressistas e liberais perigosos.”
O que quer Orbán?
Na maioria das vezes, o líder húngaro e aqueles que o rodeiam enquadram as suas ambições de forma negativa: protestando contra a burocracia, os migrantes, a “agenda LGBTQ” e a assistência a Kiev na sua guerra contra a Rússia. O que não fazem é sugerir que a Hungria deixe a UE.
“Podemos adotar uma abordagem simplista e sugerir que a Hungria está contra o esforço europeu, mas olhemos para a realidade”, destacou Zoltán Kovács, porta-voz internacional do Governo húngaro. “A Hungria acompanha a corrente europeia nas agendas basicamente 85 a 90% do tempo.” O apoio na Hungria sobre a adesão à UE é forte: uma sondagem recente concluiu que 72% dos húngaros consideraram a adesão como uma coisa boa.
“Orbán pode criticar a União Europeia”, disse András Bíró-Nagy, diretor do ‘Policy Solutions’, um think tank com sede em Budapeste. “Ele pode dizer que está a ir na direção errada, mas não pode brincar com a adesão da Hungria à UE. Essa é uma linha vermelha até mesmo para os seus próprios eleitores do Fidesz.”
Assim, em vez de quererem sair da UE, Orbán e os seus aliados insistem que esta deve ser remodelada, com mais poder atribuído aos Governos nacionais (soberania, na sua linguagem) e menos às instituições em Bruxelas. “A soberania é a ideia principal”, disse Balázs Orbán. “Precisamos de alguém que represente a ideia de cooperação entre estados-membros nacionais individuais – e não de uma superestrutura federal. Na verdade, isso foi fundamental para a ideia da UE no início.”
O que esperar da presidência rotativa húngara do Conselho Europeu?
Muitos em Bruxelas esperam uma jornada difícil e poucos acreditam que Orbán não vai aproveitar a oportunidade de inclinar a política para o seu lado. De acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, a imigração será um foco da presidência do país. “É necessária uma mudança política acentuada em Bruxelas para que a União Europeia não atraia, mas impeça os migrantes ilegais”, indicou.
Outra prioridade será o alargamento, mas nos termos da Hungria: ou seja, uma maior concentração nas aspirações dos países dos Balcãs Ocidentais e não na Ucrânia, cuja entrada no bloco tem a oposição de Budapeste.
No seu discurso anual no Parlamento húngaro, em fevereiro último, Orbán observou que a presidência da Hungria na UE coincidirá com as eleições presidenciais dos EUA. “Tornar a Europa Grande Novamente!”, garantiu. “Ali MAGA, aqui MEGA.” “Uma mudança real pode ser provocada por uma nova direita europeia, da qual nós, húngaros, fazemos parte”, acrescentou. “Abaixo Bruxelas. Viva a Europa!”








