2024 será o maior ano da democracia de todos os tempos: num marco notável na história da humanidade, mais de 4 mil milhões de pessoas vão às urnas em mais de 40 países.
Para citar alguns exemplos: eleições nacionais nos Estados Unidos, Índia, Indonésia, Rússia, Reino Unido, Paquistão, Bangladesh, Taiwan, México e África do Sul, entre outros. A União Europeia também vai às urnas.
De acordo com o investigador Nicholas Reece, num artigo no portal ‘The Conversation’, é tentador ver este registo como um triunfo da democracia como princípio organizador dominante para governar as pessoas no mundo moderno. No entanto, é necessário um exame mais atento para mostrar que a democracia está em risco em muitas frentes.
Saiba algumas das eleições mais representativas que vão moldar o mundo em 2024.
Estados Unidos
São as eleições de maior risco de 2024: em novembro vão ser eleitos o presidente, a Câmara dos Representantes e o Senado. Durante décadas, os Estados Unidos mantiveram-se como a democracia mais poderosa do mundo e uma garantia para os Governos democráticos em todo o mundo.
Donald Trump é o provável candidato republicano. No seu mandato anterior como presidente, ele fez mais do que qualquer outra administração anterior para minar a democracia, segundo uma análise das Variedades da Democracia (V-Dem). Na verdade, Trump já prometeu punir os seus oponentes políticos, anular a independência do Departamento de Justiça e estender o poder presidencial a áreas não políticas da administração governamental.
A intenção já levou o atual presidente americano, Joe Biden, a alertar que “a democracia está nas urnas” na votação presidencial de novembro. No entanto, os eleitores dos EUA não parecem muito sensibilizados com isso, uma vez que Trump lidera muitas sondagens.
Índia e Indonésia
A ascensão da democracia na Índia e na Indonésia, a segunda e a quarta nações mais populosas do mundo, tem sido um fator de mudança para o avanço global das liberdades humanas. A enorme escala das eleições nestas nações em desenvolvimento, com uma população combinada de 1,7 mil milhões de pessoas, é também um milagre na administração moderna.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, parece ter o terceiro mandato garantido numa eleição que deverá ocorrer entre abril e maio.
Na Indonésia, o ministro da Defesa Prabowo Subianto é claramente o favorito para se tornar o próximo presidente da maior nação muçulmana em todo o mundo em fevereiro.
Em ambos os casos, existe o risco de estes líderes “homens fortes” conquistarem o poder em eleições livres e justas, mas depois aplicaram políticas ileberais que colocam as instituições democráticas sob pressão.
Reino Unido e Europa
O Reino Unido deverá ter eleições gerais no segundo semestre deste ano: de acordo com as sondagens, deverá resultar na primeira mudança de Governo em 14 anos, com a vitória do Partido Trabalhista liderado por Keir Starmer.
Outras eleições na Europa serão um barómetro da posição da extrema-direita populista.
O sucesso do extremista anti-Islão Geert Wilders nas eleições nos Países Baixos em novembro significa que muitos analistas preveem agora que a extrema-direita irá desfrutar de um aumento no apoio nas eleições para o Parlamento Europeu em junho – vão também realizar-se eleições nacionais na Áustria, Bélgica, Croácia e Finlândia.
Em Portugal, a 4 de fevereiro, os Açores vão a votos para a eleição da assembleia legislativa: seguem-se, a 10 de março, as eleições antecipadas legislativas e a 9 de junho as eleições europeias.
África
Este ano, estão a decorrer eleições nacionais numa dúzia de países de África, incluindo o Ruanda, o Gana, a Tunísia, o Sudão do Sul e a Argélia. Mas a maior atenção será dada às eleições intercalares na África do Sul, que serão as mais importantes desde o fim do apartheid em 1994.
As sondagens atuais sugerem que, após três décadas no poder, o Congresso Nacional Africano (ANC) não será capaz de angariar os 50% de votos necessários para governar por direito próprio, pondo fim a 30 anos de Governo de partido único.
Menção especial deve ser feita às eleições de 2024 que não serão livres e não serão justas.
Eleições ‘marteladas’ ou falsas
A Rússia, o Ruanda e a Bielorrússia são governados por ditadores que prendem opositores políticos e realizam eleições falsas que proporcionam maiorias de 90% ou mais. Mas há mais países: Bangladesh, no Irão e na Tunísia, onde os líderes permitem que a oposição concorra, mas sem hipótese de vencer.
Como vai responder a democracia?
As eleições decorrem num contexto de propagação do iliberalismo em todo o mundo, do enfraquecimento das instituições independentes em algumas das grandes democracias e de uma desilusão crescente nas democracias avançadas, especialmente entre os mais jovens, sobre os benefícios de um sistema democrático.
Mas há também motivos para um otimismo cauteloso quanto ao facto de o longo arco da história continuar a orientar-se com determinação para um mundo mais democrático.
A democracia continua a ser o modelo pelo qual a maioria das nações em desenvolvimento se esforça. De acordo com a Freedom House, existiam 69 democracias eleitorais em 1990, que aumentaram para 122 em 2014, um sinal revelador que mesmo ditadores e déspotas sintam a necessidade de dar a si próprios a aparência de um mandato democrático.







