Gaza volta a ser colónia? Há cada vez mais israelitas extremistas a defenderem ocupação do território

Outrora zona de colónias israelitas, com 8 mil habitantes desta origem, construídas em local que nunca fez parte do território delimitado pela ONU, na divisão feita em 1948, há nas franjas mais extremistas de Israel quem defenda que a Faixa de Gaza deva voltar a ser ocupada.

Pedro Gonçalves

A realidade em Gaza que se vive hoje é muito diferente da verificada há duas décadas, e não é só por causa do violento conflito que agora se vive na região. Outrora zona de colónias israelitas, com 8 mil habitantes desta origem, construídas em local que nunca fez parte do território delimitado pela ONU, na divisão feita em 1948, há nas franjas mais extremistas de Israel quem defenda que a Faixa de Gaza deva voltar a ser ocupada.

Logo após sucessivas guerras com os vizinhos árabes, com efeito Israel veio a ocupar todo o território a partir de 1967, com algumas partes cedidas à Autoridade Nacional Palestiniana, na década de 1990.



Com o controlo militar à zona, que se manteve inalterado até 2005, proliferaram as colónias israelitas na zona, como acontece na Cisjordânia.

“Tínhamos as melhores plantações de todo Israel, com uma produção fabulosa. E as praias de Gaza, na minha opinião, são as mais bonitas. Quando controlávamos a segurança, vivíamos em paz”, diz Oded Mizrahi, que trabalha no museu Gush Katif (nome hebraico da zona sul de Gaza), em Jerusalém, em declarações ao El Confidencial.

“Antes de 1987 não havia terrorismo. Mas depois veio a primeira intifada. Os palestinos consideraram que não éramos os donos da terra. Disseram que eram eles os donos. E foi aí que os problemas começaram. A nossa presença em Gaza remonta ao tempo de Isaac, filho de Abraão”, sustenta o homem que, como muitos extremistas de direita, defende que “temos de regressar a Gaza porque é uma questão de segurança. Mas também porque Gaza faz parte de Eretz Israel [terra prometida por Deus aos Judeus]”.

A partir de 2005, Ariel Sharon, então primeiro-ministro, implementou um plano de retirada de Gaza, movendo as tropas que lá se encontravam e oferecendo 200 mil dólares a cada família que abandonasse voluntariamente o território: muitos dos que recusaram acabaram expulsos à força pelo exército israelita, momento considerado “traumático” pelos judeus mais conservadores.

Com a chegada de Netanyahu ao poder o plano acabou cancelado e, antes de voltar a guerra, ainda foram ampliadas as colónias que permaneciam nos territórios ocupados.

Segundo a ONU, a ocupação israelita manteve-se de facto, com um controlo apertado de fronteiras, espaço aéreo e acessos pelo mar, para além da dependência de Gaza de água, eletricidade e telecomunicações, garantidas por Israel.

Vieram depois as eleições parlamentares, com o Hamas a sair vitorioso cotra o Fatah, seguindo-se uma guerra civil e, eventualmente, o grupo terrorista assumiu o controlo da Faixa de Gaza: Israel aumentou o Bloqueio e o Egito fechou a passagem de Rafah, e o Hamas construiu túneis que lhe permitissem a mobilidade sem deteção. Voltou então a violência à zona, numa nova fase.

Agora, com os ataques iniciados a 7 de outubro, entre os mais conservadores de Israel voltou a crescer o sentimento de posse de Gaza.

“Não creio que Israel queira realmente pôr fim ao Hamas, o que eles querem é reocupar Gaza. Além disso, se quiserem acabar com a organização, só terão de ir atrás dos seus líderes no Qatar. Não precisam de matar civis”, sustenta Jafar Farah, diretor do Mossawa Center, organização que defende os direitos dos árabes em Israel.

Aparentemente ainda serão poucos os israelitas a favos da ocupação de gaza, a olhar pelas manifestações nesse sentido em que a participação foi baixa, mas sobem de tom as vozes que, no poder, afirmam que está é mesmo uma opção a ter em conta.

Veja-se as recentes declarações de Bezalel Smotrich, ministro da Economia da Israel, que defendeu que uma “migração voluntária” dos palestinianos da Faixa de Gaza resolverá a crise humanitária no enclave.

Já Orit Strook, ministra dos Assentamentos e Missões Nacionais de Israel, e do mesmo partido de Smotrich, também apoia a “reocupação” de Gaza.

“Acho que, no final das contas, o pecado da retirada será revertido. Não sei é quanto tempo vai demorar. Infelizmente, o regresso à Faixa de Gaza causará muitas vítimas, tal como a saída da Faixa de Gaza causou muitas vítimas. Mas, em última análise, faz parte da Terra de Israel e chegará o dia em que retornará”, sustentou a governante israelita.

Recorde-se que, no final de outubro, foi divulgado um documento secreto do Ministério da Inteligência de Israel que, seis dias após o ataque do Hamas, sugeria a realocação dos habitantes de Gaza para a Península do Sinai, no Egito.

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