Ucrânia quer ‘estrangular’ a Crimeia: ataques ucranianos pretendem tornar “insustentável” a ocupação russa

Forças armadas de Kiev atacaram, nos últimos três dias, a frota russa no Mar Negro, tendo danificado um grande navio e um submarino na base naval em Sebastopol – foi ainda registado um ataque a uma bateria de defesa aérea S-400 da Força Aérea russa, que ficou totalmente destruída na Crimeia Ocidental

Francisco Laranjeira

A Ucrânia pretende ‘estrangular’ as linhas de abastecimento na Crimeia de forma a tornar insustentável a ocupação russa, ficando Kiev um passo mais à frente na tentativa de libertar a península do Mar Negro, indicou ex-general dos Estados Unidos, Ben Hodges, citado pela revista ‘Newsweek’.

As forças armadas de Kiev atacaram, nos últimos três dias, a frota russa no Mar Negro, tendo danificado um grande navio e um submarino na base naval em Sebastopol – foi ainda registado um ataque a uma bateria de defesa aérea S-400 da Força Aérea russa, que ficou totalmente destruída na Crimeia Ocidental.

Os ataques na Crimeia, que é o centro logístico central da Rússia para as suas forças no sul da Ucrânia, tornaram-se rotina nos últimos meses, ao longo da contraofensiva de Kiev para recuperar o território ocupado pelas forças russas – os ataques de Kiev têm visado alvos militares de forma a enfraquecer as defesas de Moscovo e impedir a Rússia de transportar equipamento, armas e tropas da Rússia continental para a península.

Embora a Ucrânia não tenha assumido imediatamente a responsabilidade do ataque, Natalia Humeniuk, porta-voz do comando militar do sul, sugeriu o envolvimento de Kiev. “A concentração de instalações militares, a presença de um campo de aviação próximo – tudo isto sugere que o trabalho está a ser realizado absolutamente como planeado. Os objetivos são legítimos, inteiramente militares”, garantiu, na televisão ucraniana. Recorde-se que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, prometeu desfazer a anexação da Crimeia por Putin.

Na passada segunda-feira, as forças militares ucranianas afirmaram ter recuperado o controlo sobre quatro plataformas de perfuração de petróleo e gás estrategicamente vitais no Mar Negro, perto da Crimeia.

A atividade no Mar Negro são apenas uma parte de uma operação sofisticada e de longo prazo levada a cabo pela Ucrânia para preparar o caminho para a recaptura da península, segundo revelaram os especialistas. “Incursões na Crimeia e em plataformas de petróleo/gás para eliminar o radar, depois um complexo ataque de drones/mísseis contra Sebastopol. Esta é uma abordagem muito sofisticada para tornar a Crimeia insustentável para os russos”, explicou Ben Hodges.

Em maio último, o tenente-general reformado e antigo vice-comandante do Comando Europeu dos Estados Unidos, Stephen Twitty, salientou que uma tentativa de retomar a península iria envolver a Ucrânia a tomar medidas para impedir a Rússia de reabastecer da Crimeia, seja de logística ou de tropas. Também o ex-coronel do Corpo de Fuzileiros Navais americanos, Mark Cancian, sustentou que a Ucrânia tentará isolar a Crimeia, destruir a ponte estrategicamente vital do Estreito de Kerch, que liga a Rússia à Crimeia, e “simplesmente espremê-la ao longo do tempo, tornando-a insustentável”.

O segundo ataque da Ucrânia à ponte do Estreito de Kerch, a 17 de julho último, que danificou a sua rede ferroviária, aproximou esses objetivos da realidade, indicou Humeniuk, salientando que a península está a tornar-se cada vez mais uma ilha no sentido logístico.

O fornecimento russo tornou-se complicado e lento, acrescentou, reforçando que embora existam outras rotas para o transporte de armas e equipamento, estas estão sobrecarregadas por civis. A ponte do Estreito de Kerch é uma rota de abastecimento fundamental para as forças russas e é a sua única ligação terrestre com a Crimeia. Consiste em duas vias principais – uma estrada de quatro faixas rodoviárias e uma ponte ferroviária com duas vias – e é crucial para sustentar as ofensivas militares de Moscovo no sul da Ucrânia.

A ligação ferroviária entre a Crimeia e a Rússia permitiu ao exército russo transportar rapidamente equipamento pesado, o que estará agora dificultado devido aos danos causados ​.

O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), com sede em Washington DC, avaliou que os ataques da Ucrânia às principais pontes que ligam a Crimeia ao sul da Ucrânia e à Rússia continental estão a afetar a capacidade de Moscovo de movimentar recursos e, como tal, a dificultar os esforços do Kremlin para se defender da contraofensiva em curso por parte de Kiev.

“Penso que a caracterização ucraniana está correta; a logística russa está a tornar-se mais complicada e a abrandar. A ponte, com as suas ligações rodoviárias e ferroviárias, proporcionou uma forma fácil de levar abastecimentos e equipamentos da Rússia até à Crimeia e às partes ocidentais da na frente”, finalizou.

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