Kim Jong-Un vai à Rússia ter com Putin: o que Pyongyang e Moscovo querem um do outro?

Reunião com Putin será a primeira de Kim Jong-Un com um líder estrangeiro desde o fecho das fronteiras da Coreia do Norte, em janeiro de 2020

Francisco Laranjeira

O líder norte-coreano Kim Jong-Un chegou à Rússia esta terça-feira para uma reunião com o presidente Vladimir Putin, que muito provavelmente vai concentrar atenções o desejo da Rússia de comprar munições para reabastecer as reservas esgotadas pela guerra na Ucrânia. O encontro vai ainda sublinhar o aprofundamento da cooperação entre os dois países, que estão envolvidos em confrontos separados com os Estados Unidos. Em troca do fornecimento de munições, a Coreia do Norte pretende remessas de alimentos e energia, assim como a transferência de tecnologias militares sofisticadas.

A reunião com Putin será a primeira de Kim Jong-Un com um líder estrangeiro desde o fecho das fronteiras da Coreia do Norte, em janeiro de 2020. Mas não será a primeira entre ambos: em abril de 2019, reuniram-se, dois meses depois do colapso da diplomacia nuclear de alto risco de Kim com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.



Não está claro até onde poderá ir a cooperação militar entre Rússia e Coreia do Norte mas qualquer sinal de aquecimento das relações preocupará rivais como os Estudo Unidos e a Coreia do Sul. A Rússia procura reprimir a contraofensiva ucraniana e prolongar a guerra, enquanto a Coreia do Norte está a prolongar um ritmo recorde de testes de mísseis.

Mas o que significa esta viagem para Putin e para Kim?

O que quer a Rússia da Coreia do Norte?

Desde 2022, as autoridades americanas suspeitam que a Coreia do Norte está a fornecer à Rússia granadas de artilharia, foguetes e outras munições, muitas das quais são provavelmente cópias de munições da era soviética. “A Rússia necessita urgentemente de munições. Se não fosse o caso, qual é o sentido de o ministro da Defesa de um país poderoso em guerra vir a um país pequeno como a Coreia do Norte”, apontou Kim Taewoo, ex-chefe do Instituto Coreano para a Unificação Nacional de Seul, salientando que Sergei Shoigu foi o primeiro ministro da Defesa russo a visitar a Coreia do Norte desde a desintegração da União Soviética em 1991.

Comprar munições à Coreia do Norte seria uma violação das resoluções da ONU, apoiadas pela Rússia, que proíbem todo o comércio de armas com o país. Mas agora que enfrenta sanções internacionais e controlos de exportação devido à sua guerra na Ucrânia, a Rússia tem procurado armas noutros países sancionados, como a Coreia do Norte e o Irão.

A Coreia do Norte tem vastos stocks de munições, mas Du Hyeogn Cha, analista do Instituto Asan de Estudos Políticos de Seul, duvidou que possa enviar rapidamente quantidades significativas para a Rússia, uma vez a estreita ligação terrestre entre os países só pode suportar uma quantidade limitada de tráfego ferroviário.

O que quer Kim de volta?

As prioridades de Kim Jong-Un seriam remessas de ajuda, prestígio e tecnologia militar, de acordo com especialistas. “Seria um acordo ‘win win’, já que Putin está encurralado devido ao seu inventário de armas esgotado, enquanto Kim enfrenta pressão da cooperação trilateral Coreia do Sul-EUA-Japão”, referiu Nam Sung-wook, ex-diretor do Instituto de Estratégia de Segurança Nacional, um grupo de reflexão dirigido pela agência de espionagem da Coreia do Sul. “As suas necessidades são perfeitamente atendidas agora.”

O encerramento das fronteiras durante a pandemia da Covid-19 deixou a Coreia do Norte com graves dificuldades económicas e é provável que Kim procure um abastecimento de alimentos e energia para colmatar as carências. É também provável que o ditador norte-coreano dê ênfase à expansão das relações com Moscovo como um sinal de que o seu país está a superar os anos de isolamento. Os líderes norte-coreanos há muito que valorizam as reuniões presenciais com líderes mundiais como sinais da importância além-fronteiras e para fins de propaganda interna.

É provável que Kim também esteja à procura de tecnologia russa para apoiar os seus planos de construir sistemas de armas de alta tecnologia, como mísseis de longo alcance, armas balísticas hipersónicas, submarinos com propulsão nuclear e satélites espiões, referiu Hong Min, analista do Instituto Coreano para a Unificação Nacional de Seull.

No entanto, não está claro se a Rússia estaria disposta a fornecer à Coreia do Norte tecnologias avançadas relacionadas com armas nucleares e ICBMs, garantiu Cha, salientando que o Kremlin sempre guardou rigorosamente as suas tecnologias de armas mais importantes, mesmo de parceiros importantes como a China.

Até onde pode ir um acordo entre os dois países?

De acordo com Shoigu, a Rússia e a Coreia do Norte ponderam realizar um exercício militar bilateral – ou mesmo trilateral, envolvendo a China. De qualquer forma, seriam os primeiros exercícios militares da Coreia do Norte com um país estrangeiro desde o final da Guerra da Coreia (1950-53). No entanto, Pyongyang deverá recusar a oferta, o que poderia torná-la ainda mais dependente da China e da Rússia.

Park Won Gon, professor da Universidade Ewha Womans de Seul, frisou que é muito cedo para prever o que a diplomacia de Kim poderá produzir além de uma demonstração de desafio aos Estados Unidos. “De qualquer forma, a Coreia do Norte e a Rússia precisam de mostrar que estão a trabalhar em conjunto, que estão a intensificar esta cooperação”, referiu. “Existem claramente áreas práticas de cooperação e também alguns aspetos simbólicos que querem mostrar aos Estados Unidos.”

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