“Façanha que mudará a vida de milhares de bebés”: cientistas criam primeira placenta artificial que permite ao feto sobreviver 12 dias em boas condições

Nove em cada dez gestações terminam normalmente. No entanto, o parto prematuro continua a ser o maior desafio clínico na medicina perinatal. Só na Europa, a prematuridade extrema atinge anualmente 25 mil famílias

Francisco Laranjeira

Cientistas espanhóis deram nova esperança para a sobrevivência de bebés extremamente prematuros – nascidos com menos de 26 semanas de gestação: investigadores ​desenvolveram uma placenta artificial que reproduz as condições vitais do útero da mãe e atinge um “bom estado” de sobrevida de 12 dias em fetos de ovelha com menos de seis meses.

Para Eduard Gratacós, diretora do BCNatal – centro de referência em medicina fetal formado por especialistas do Hospital Sant Joan de Déu e do Hospital Clínic de Barcelona – e líder do projeto, descreveu o marco médico como “uma façanha que mudará a vida de milhares de bebés e das suas famílias”.



Nove em cada dez gestações terminam normalmente. No entanto, o parto prematuro continua a ser o maior desafio clínico na medicina perinatal. Só na Europa, a prematuridade extrema atinge anualmente 25 mil famílias e, nos casos mais graves, pode levar a sequelas neurológicas importantes em bebés nascidos com 23 semanas, número que diminui à medida que aumenta a idade gestacional.

Com menos de um quilo, um recém-nascido prematuro deve sobreviver num ambiente ‘antinatural’: enfrenta mudanças de temperatura, respiração mecânica e alimentação por sonda, para o qual o seu sistema nervoso, pulmões, coração, intestinos e rins não estão preparados. Por isso, esses frágeis fetos prolongavam as suas delicadas vidas em incubadoras, num ambiente muito longe da proteção natural da placenta materna.

Nos primeiros resultados do projeto, oferece a estes futuros bebés a possibilidade de agarrar-se à vida com garantias de uma forma mais ambiente natural, muito mais semelhante ao do ventre materno. “Tirar um feto da mãe e continuar a viver como feto. Temos de enganar a natureza o máximo possível”, referiu a responsável pelo projeto, em declarações ao jornal espanhol ‘ABC’.

Para criar um ambiente em que um recém-nascido muito prematuro possa viver o mais próximo possível do útero, foi necessário criar um ambiente protegido composto por um recipiente translúcido feito de material biocompatível e ligado a um sistema de circulação de líquido amniótico que permite manter o feto num ambiente líquido isolado de estímulos externos, mas acessível para exames de ultrassom e monitorização contínua do feto.

O feto é depois conectado, através do cordão umbilical, a um oxigenador especialmente desenvolvido e adaptado que vai fornecer a quantidade necessária de oxigénio e nutrientes, hormonas e outras substâncias que o feto recebe da mãe.

“Este é um dos projetos de pesquisa mais inovadores e únicos que podem ser realizados na medicina fetal. Apenas ter uma plataforma experimental como a que está a ser construída vai permitir pesquisas paralelas de grande importância para entender o desenvolvimento fetal normal e anormal.

O projeto caminha para a segunda fase, em que se espera atingir, durante o ano de 2024, a extensão do tempo de sobrevivência dos atuais 12 dias para mais de 3 semanas. Para tal, a equipa do projeto vai centrar os seus esforços numa melhoria tecnológica, em colaboração com a indústria, que permita otimizar os dispositivos médicos utilizados, como cânulas ou membranas oxigenantes.

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