Bull Market VS Bear Market: o que esperar dos mercados em 2023?

Numa época marcada pela volatilidade nos mercados, há duas figuras de investimento que podem ser mais familiares para os investidores e comuns na literatura financeira: Bull Market e Bear Market.

André Manuel Mendes

Numa época marcada pela volatilidade nos mercados, há duas figuras de investimento que podem ser mais familiares para os investidores e comuns na literatura financeira: Bull Market e Bear Market.

Embora ambas sejam usadas para descrever o desempenho dos mercados, são totalmente diferentes quando se trata do impacto que podem ter no portefólio e nas decisões de investimento tomadas pelos investidores.
Os períodos de Bull Market são caracterizados pelas subidas crescentes nos activos, há um sentimento optimista e os investidores aumentam brutalmente o seu risco. Em períodos de Bear Market, o pessimismo surge em primeiro lugar, os activos de risco tendem a desvalorizar fortemente, a volatilidade do mercado dispara e há uma tendência para os investidores se posicionarem em activos de refúgio como o dólar.
As figuras do touro e do urso foram inicialmente usadas no mercado de capitais dos Estados Unidos e posteriormente replicadas em todo o mundo. O Bull Market é, sobretudo, uma onda de optimismo agindo sobre os investimentos, mas a sua trajectória altista não dura eternamente, sendo que, após um ciclo razoavelmente longo de alta, ocorre o seu oposto através de um Bear Market, explica Carlos Rodrigues, presidente da Maxyield, sublinhando que não há duração mínima ou máxima para um ciclo de Bull ou Bear Market.
A sua ocorrência está sujeita a movimentos de longa duração ou períodos longos, pelo que altas ou baixas pontuais não significam uma viragem de ciclo.
Neste artigo vamos explicar os conceitos de Bull e Bear Markets, quando ocorrem, quais as consequências para os investidores e quais os activos e mercados mais seguros para se investir em cada uma destas fases.



O que é um Bear Market?
Um mercado em baixa, ou Bear Market, refere-se a um período de tempo em que os preços das acções estão geralmente a cair, caracterizado por pessimismo generalizado e sentimento negativo do investidor. Normalmente, um Bear Market é definido como uma queda de 20% ou mais em relação ao pico anterior do mercado. Os Bear Market podem ocorrer em qualquer mercado, mas são mais comummente associados ao mercado de acções.
Durante um mercado em baixa, os investidores podem tornar-se mais cautelosos e avessos ao risco, levando à diminuição do investimento e da actividade económica. Isso pode levar a uma diminuição na confiança dos consumidores e das empresas, o que pode diminuir ainda mais os gastos e investimentos. Como resultado, os ganhos das empresas e os preços das acções podem cair, levando a mais vendas e reduções de preços.

Existem várias razões pelas quais um Bear Market pode ocorrer, como:

  • Recessões económicas: as recessões económicas podem levar à diminuição dos gastos dos consumidores e das empresas, o que pode impactar negativamente os ganhos da empresa e os preços das acções.
  • Aumentos nas taxas de juros: um aumento nas taxas de juros pode tornar os empréstimos mais caros, levando à diminuição do investimento bem como da actividade económica.
  • Eventos políticos ou geopolíticos: os eventos imprevistos, como a guerra ou os ataques terroristas, podem causar incerteza no mercado e levar à diminuição do investimento.
  • Sobrevalorização: um mercado sobrevalorizado, com preços de acções muito altos em relação aos lucros subjacentes da empresa, pode tornar-se vulnerável a uma desaceleração.

Os mercados em baixa podem ser difíceis para os investidores, pois podem levar a perdas significativas nos seus portefólios. No entanto, os mercados em baixa também apresentam oportunidades para investidores a longo prazo comprarem activos a preços mais baixos. É importante ter em mente que os mercados em baixa são uma parte normal do ciclo do mercado e que este acabará por recuperar.
Também é importante observar que nem todos os activos são afectados num Bear Market. Alguns activos como títulos, dinheiro e ouro podem ser mais estáveis e podem até aumentar o seu valor durante esses períodos.

E um Bull Market?
Um mercado em alta, ou Bull Market, refere-se a um período de tempo em que os preços das acções sobem, caracterizado por optimismo generalizado e sentimento positivo do investidor. Um mercado em alta é normalmente definido como um aumento sustentado de 20% ou mais em relação à baixa anterior do mercado. Este também pode ocorrer em qualquer mercado, mas é mais comummente associado ao mercado de acções.
Durante um Bull Market, os investidores tendem a ser mais optimistas e dispostos a assumir riscos, o que resulta num natural aumento do investimento e da actividade económica. Este cenário pode levar a um aumento na confiança dos consumidores e das empresas, o que pode aumentar ainda mais os gastos e investimentos. Assim, com uma nuvem de optimismo a sobrevoar os mercados, os ganhos das empresas e os preços das acções podem aumentar, levando a novas compras e a aumentos de preços.

Um Bull Market pode ocorrer nas seguintes situações:

  • Crescimento económico: um crescimento da economia resulta no aumento de disponibilidade financeira para gastos por parte dos consumidores e das empresas, o que resulta num impacto positivo nos ganhos das mesmas e nos preços das acções.
  • Diminuição da taxa de juros: num cenário inverso ao actual, onde se assiste a uma queda nas taxas de juros, os empréstimos são mais baratos, o que leva a um aumento do investimento e da actividade económica.
  • Estabilidade política ou geopolítica: em oposição ao Bear Market, a ausência de eventos imprevistos, como é o caso da recente guerra na Ucrânia ou ataques terroristas, leva a um clima de estabilidade nos mercados, o que conduz naturalmente a um aumento do investimento.
  • Subavaliação: um mercado subvalorizado, onde se verifica que os preços das acções estão muito baixos em relação aos resultados subjacentes da empresa, pode tornar-se atraente para os investidores e levar a uma tendência de alta.

Os mercados em alta podem ser benéficos para os investidores, pois podem levar a ganhos significativos nos seus portefólios. No entanto, os mercados em alta também apresentam riscos, pois podem ser seguidos por mercados em baixa. É importante ter em mente que os mercados em alta são uma parte normal do ciclo do mercado e que, tal como no Bear Market, temos que estar preparados para uma alteração a qualquer momento
no tempo.
Também é importante ter um portefólio bem diversificado e evitar a superconcentração em quaisquer activos ou sectores específicos, pois isso pode aumentar o risco de perdas significativas quando o mercado virar.

Como reduzir o risco num cenário de Bear Market
Num cenário de baixa, os investidores «podem fazer hedging, ou seja, cobertura de risco. Se não querem desfazer-se dos seus activos podem utilizar os derivados para “apostar” na queda deles; assim, à medida que o mercado vai caindo, vão perdendo com os seus activos, mas ganhando com os derivados. Assim conseguem mitigar em grande parte as suas perdas». Esta é uma das sugestões apresentadas por Vítor Madeira, analista da XTB.
Para Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, os investidores «podem, por exemplo, entrar curtos no mercado, fazer o chamado short-selling», uma prática financeira que consiste na venda de um activo ou derivativo, na esperança de que o preço caia para então comprá-lo de volta e lucrar com a diferença.
«Em contexto de Bear Market é aconselhável evitar as vendas em condições precárias, prejudicando o valor dos investimentos e aplicações realizadas», considera Carlos Rodrigues, presidente da Maxyield.
De acordo com o executivo, quando olhamos para os vários Bear Markets da história, verificamos que, nesta fase do ciclo do mercado bolsista, os investidores privilegiam aplicações nas chamadas utilities que correspondem a acções de empresas que oferecem bens ou serviços essenciais.
Num cenário de Bear Market, os investidores devem procurar acções mais defensivas, com menor volatilidade e menos penalizadas em situações de recessão ou maior variabilidade nas condições de funcionamento dos mercados, como é o caso de algumas commodities.
«Cada investidor deve avaliar as condições de risco e diversificação das carteiras, face ao entusiasmo dos bons momentos de investir, como são estes períodos», sublinha.

E em que activos é mais seguro investir num período de baixa?
Para saber quais os activos mais seguros para investir num período de Bear Market, é necessário conhecer as circunstâncias que ditam esta baixa de mercado. Se este resultar de uma recessão, por exemplo, o ouro poderá ser um bom activo de refúgio, bem como as obrigações de rating alto, explica o analista da ActivTrades.
Independentemente das circunstâncias, o analista da XTB considera que os activos mais seguros são aqueles que tenham valor fundamental, como o caso do dólar, ouro, ETF dos principais índices, obrigações da dívida pública e obrigações de empresas seguras.
«Os recentes indicadores macroeconómicos e perspectivas menos gravosas, relativamente às existentes no passado recente, ajudaram a colocar os mercados bolsistas num rápido ciclo de Bull Market ou no seu limiar», destaca o presidente da Maxyield, acrescentando que o “aquecimento” dos mercados foi muito rápido e isso exige prudência, evitando alta exposição a situações extremas de risco ou de grande volatilidade.
«A gestão equilibrada das carteiras, combinando activos com diferentes níveis de risco, é a forma mais segura de investir no contexto actual dos mercados bolsistas», alerta o responsável.

Como ultrapassar um período de pessimismo?
«O período de pessimismo vai-se desvanecendo à medida que as expectativas melhoram em relação ao estado da economia, isto é, quando os indicadores macroeconómicos melhorarem e o banco central facilitar a liquidez, estão criadas as condições necessárias para o mercado subir. Posteriormente, a população começará a sentir estes efeitos», considera o analista da XTB, Vítor Madeira.
No campo macroeconómico, a desaceleração da taxa de inflação, que já atingiu o seu pico, os aumentos da taxa de juros com menor intensidade e frequência no primeiro semestre de 2023 e as perspectivas menos gravosas para o arrefecimento económico mundial, relativamente às perspectivas existentes anteriormente, são os factores mais preponderantes.

Carlos Rodrigues aponta a evolução da guerra na Ucrânia como um dos factores de maior incerteza e um risco geopolítico incontornável para o desempenho do mercado de capitais.
Sublinha ainda que os preços de parte significativa dos produtos alimentares não transformados e energéticos, integrados nas commodities, já se encontram a níveis anteriores ao início da guerra, designadamente o petróleo, o gás, cereais, metais preciosos, metais industriais, oleaginosas e café. É também previsível que o aumento de preços no cabaz alimentar deva ser ultrapassado a curto prazo.
O presidente da Maxyield acredita que, apesar de dúvidas sobre o efeito do mercado de trabalho e actuais níveis de poupança, pode-se antever uma evolução positiva dos mercados bolsistas internacionais no segundo semestre de 2023, tendo como referencial a recuperação das perdas de 2022.
No que respeita às cotadas na bolsa de Lisboa, considera que «a média dos price targets para os próximos 12 meses [constantes no quadro seguinte] perspectiva um crescimento generalizado das cotações das empresas do PSI e uma evolução do índice em torno de 2023», explica o presidente da Maxyield.
Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, explica que «a perda de apetite pelo risco nos mercados financeiros resulta de uma recessão na economia real, ou então da adopção de políticas monetárias mais restritivas pelos bancos centrais. Para que se retome o apetite pelo risco, normalmente é necessário que o cenário que o provocou mude».

O que esperar de 2023?
Num cenário de saída de Bear Market, o analista da XTB, Vítor Madeira, explica que «o mercado tende a subir gradualmente, mas muito mais devagar do que em períodos de queda. A saída de um Bear Market acontece quando os indicadores técnicos são ultrapassados (como as médias móveis) e os preços mínimos já não são quebrados».
No contexto nacional, o PSI terá muita dificuldade em manter um desempenho acima da média das bolsas internacionais, como ocorreu em 2022, revela Carlos Rodrigues. No entanto, considera expectável, num cenário prudente, a consolidação na faixa [5750-6300] que nos reporta para níveis atingidos há 7 anos e valores em torno dos máximos de 2022. O presidente da Maxyield explica esta sucessão de acontecimentos, dizendo que o limite inferior deste intervalo ocorreu em 21 de Maio de 2018 e correspondente ao pico anterior ao Bear Market de 2018, sendo que o limite superior corresponde ao pico que precedeu o Bear Market de 2016.

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