Máfia pode tornar a Amazónia brasileira num campo de batalha, alerta ex-chefe de polícia do Brasil

Alexandre Saraiva, que trabalhou na Amazónia de 2011 a 2021, garantiu que teme que a presença crescente de máfias do narcotráfico na região possa gerar uma situação semelhante ao conflito de drogas no Rio de Janeiro

Francisco Laranjeira

O rápido crescimento de grupos do crime organizado na Amazónia brasileira corre o risco de transformar a região num vasto interior assolado por conflitos por “insurgentes criminosos” fortemente armados, alertou esta quinta-feira um ex-chefe da polícia federal do Brasil, relatou o jornal britânico ‘The Guardian’.

Alexandre Saraiva, que trabalhou na Amazónia de 2011 a 2021, garantiu que teme que a presença crescente de máfias do narcotráfico na região possa gerar uma situação semelhante ao conflito de drogas no Rio de Janeiro, onde a batalha da polícia contra os gangues e paramilitares provocou dezenas de milhares de mortes.



“Vivi como o Estado perdeu o controlo da segurança pública no Rio de Janeiro”, lembrou Saraiva. “E na Amazónia hoje – se nada for feito em termos de segurança pública – estamos diante de um Rio de Janeiro continental, com os agravantes das fronteiras com grandes produtores de drogas e um cenário de selva extraordinariamente difícil.”

Saraiva alertou sobre as terríveis consequências para a floresta tropical e para os seus habitantes se os gangues criminosos se transformem em exércitos poderosos como as facções rebeldes na vizinha Colômbia. “Teremos insurgentes criminosos… cuja ideologia é o dinheiro”, disse. “Teremos áreas de conflagração, de grande conflito entre grupos que lutam por áreas de extração ilegal de ouro e madeira. Mas também teremos vítimas indígenas. E enfrentaremos imensas dificuldades logísticas para combater isso”, alertou o delegado, autor do recente livro ‘Selva: madeireiros, garimpeiros e corrupção numa Amazónia sem lei’.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a região apresenta um retrato sombrio no que diz respeito ao impacto mortal do crime organizado na região: com mais de 8 mil mortes, a taxa de crimes violentos letais intencionais nos nove estados da Amazónia brasileira foi mais de 50% maior do que no resto do país em 2022 – uma taxa de homicídios semelhante à do México.

No estado do Amazonas, contabilizaram-se 1.432 pessoas mortas no ano passado, com uma taxa de homicídios 74% acima da média nacional. O ano de 2021 foi ainda mais violento, com 1.571 vítimas e uma taxa de mortalidade violenta de 36,8 por 100.000 habitantes – cinco vezes a dos EUA.

O número de pessoas mortas por polícias militares e civis cresceu 71% na Amazónia entre 2016 e 2021, ante 35% no restante do Brasil.

As duas facções criminosas mais poderosas do Brasil – o PCC (Primeiro Comando da Capital) de São Paulo e o CV (Comando Vermelho) do Rio de Janeiro – já operam em todos os nove estados da Amazónia, assim como pelo menos 15 outros grupos criminosos regionais.

A FBSP revelou ainda que a Amazónia tinha 10 dos 30 municípios mais violentos do Brasil.

“O crime organizado está a diversificar-se para outras atividades ilegais que a sociedade brasileira tende a ver como delitos menores”, explicou Saraiva, que comandou a maior apreensão de madeira ilegal do Brasil em 2020. “A máfia vai onde há dinheiro. Não importa se é crime ambiental, tráfico de pessoas, cocaína. E o que eles veem na Amazónia é ouro e madeira, que estão a ser vendidos por um preço muito alto. É óbvio que não demorariam muito para eles se envolverem.”

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