Momento de viragem: Como a invasão da Ucrânia pode mudar o mundo em 10 pontos

Conflito já tem um lugar na história e as suas consequências serão sentidas nos próximos anos.

Executive Digest

O dia 24 de fevereiro de 2022 já assegurou um lugar infame na história mundial. O dia em que começou a invasão da Ucrânia por parte da Rússia será sempre recordado pelo impacto que teve na geopolítica global. Embora ainda subsistam muitas incertezas relativamente à duração do conflito e a um eventual pós-conflito, é certo que a guerra na Ucrânia resultou numa colisão entre a Rússia e o Ocidente com consequências para os próximos anos.

É para isso mesmo que aponta um relatório divulgado pela The Economist Intelligence Unit, que numera 10 formas como a guerra vai afetar as relações geopolíticas.

A guerra da Rússia na Ucrânia vai provocar uma nova divisão na Europa

O Kremlin continua a defender que a invasão da Ucrânia é na realidade uma “operação militar especial” para defender as regiões separatistas no leste do país e “desnazificar” a Ucrânia. Mas este relatório assinala que o verdadeiro objetivo da Rússia é “destruir a soberania” da Ucrânia e repetir o que fez com a Crimeia, anexando parte do país, “criando uma zona tampão entre a Rússia e o Ocidente que inclui a Bielorrússia e o Cazaquistão”.

“O repúdio da Rússia à ‘ordem baseada em regras’ liderada pelo Ocidente sinaliza um afastamento da Europa e a criação de uma nova divisão do continente, três décadas após a queda do Muro de Berlim”, destaca o estudo.

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Violação da soberania da Ucrânia marca o fim da ordem posterior à Guerra Fria

A análise da The Economist indica que a “primeira metade da era pós-Guerra Fria foi caracterizada pela unipolaridade americana”. O relatório sublinha que os últimos 15 anos foram caracterizados “pelo renascimento da Rússia, a ascensão da China, a crescente rivalidade no Ocidente e a erosão da hegemonia dos Estados Unidos”.

“A invasão russa da Ucrânia é um desafio flagrante ao papel da América como polícia global e sugere que o mundo se tornará muito mais instável e perigoso”, conclui o estudo.

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O conflito na Ucrânia vai aprofundar a aliança entre Pequim e Moscovo

Isolada no sistema geopolítico global, a “Rússia vai rumar a este para cimentar a sua aliança com a China”. “O que começou como um casamento de conveniência transformou-se na última década numa parceria estratégica”, refere o relatório, que aponta depois as vantagens desta relação próxima com a Rússia para a China.

“Para a China, uma aliança com a Rússia oferece segurança ao longo da sua fronteira norte, recursos naturais e uma abordagem autoritária compartilhada”, pode ler-se na análise da The Economist, que lembra o encontro de Xi Jinping com Vladimir Putin durante os Jogos Olímpicos de Inverno, após o qual os dois líderes declararam que a sua aliança “não conheceria limites”.

A invasão russa acelerar a bifurcação do mundo em campos hostis e competitivos

O estudo chama a atenção para o facto de que a China e o Ocidente estão a competir há anos para “estabelecer o domínio nas indústrias e tecnologias do futuro e preparar o caminho para a futura desagregação”. Essa tendência foi reforçada pela pandemia.

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Agora, na sequência da invasão da Ucrânia por parte da Rússia a divisão do mundo em dois pólos rivais deve ser acelerada. “Alguns países vão tomar partido, mas muitos outros vão tentar manter um pé em ambos os campos. Com o passar do tempo, esse ato de equilíbrio vai tornar-se cada vez mais difícil”, sugere o documento.

A renovada atenção dos EUA para a segurança europeia vai limitar a sua inclinação para a Ásia

Ao alocar os seus recursos diplomáticos para responder à crise no leste da Europa, os Estados Unidos vão ser penalizados nos esforços para encarem o desafio imposto pela ascensão da China.

“Os Estados Unidos terão que se concentrar em conter uma potência em declínio (Rússia), quando gostariam de dedicar suas energias para conter a ameaça de uma potência em ascensão (China). Isso é uma má notícia para países como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, que contavam com mais proteção dos Estados Unidos, e agora vão estar ainda mais dispostos a formar uma coligação contra a China na região da Ásia-Pacífico”, observa o relatório.

Guerra na Ucrânia acelera corrida ao armamento

O fim da URSS gerou um declínio nos gastos na defesa, mas a corrida ao armamento aumentou nos últimos anos, e agora espera-se que entre num sprint. “A guerra na Ucrânia vai levar a mais armas e a um ciclo desestabilizador de olho por olho na escalada do armamento”, ressalva o relatório.

Essa escalada previsivelmente terá como principais protagonistas os Estados Unidos e a China. Por agora, não atingiu as dimensões verificadas na Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Os gastos militares de Washington são 2,5 vezes superiores aos da China, mas vão subir.

Alemanha pode desempenhar papel mais importante na segurança europeia

A Alemanha mudou a sua política recentemente devido ao conflito na Ucrânia. Para além de estar a fornecer mais armas à Ucrânia, o governo alemão vai reforçar o seu investimento na defesa.

“A guerra na Ucrânia pode ajudar a aliviar a Alemanha da bagagem da Segunda Guerra Mundial e permitir que desempenhe um papel mais importante na definição da defesa europeia, das prioridades externas e de segurança. Isto vai começar a mudar o equilíbrio de poder na Europa”, prevê o relatório.

Europa vai ter de decidir que posição vai ocupar na nova ordem mundial

“A guerra na Ucrânia é um alerta que confirma que é a Europa, e não os Estados Unidos ou a Rússia, que precisa de poder influenciar o que acontece no seu próprio continente”, aponta a The Economist Intelligence Unit.

Os Estados Unidos devem continuar a ser o país dominante na NATO, mas é expectável que esse equilíbrio de poder mude nos próximos anos e que as potências europeias, lideradas pela Alemanha e pela França, assumam maior preponderância.

O desafio à democracia global será maior

O conflito na Ucrânia vai aprofundar a divisão entre campos autoritários e democráticos. “A cristalização de uma aliança Rússia-China antiocidental e autoritária vai tornar a batalha pela democracia ainda mais importante nas próximas décadas”, frisa o relatório.

A invasão russa da Ucrânia marcou a viragem da Rússia para o autoritarismo absoluto.

Guerra na Ucrânia vai encorajar e alimentar outros conflitos

A guerra na Ucrânia pode gerar mais conflitos. Potências regionais com desejos de vingança ou expansionistas, como o Azerbaijão (Nagorno-Karabakh), China (Taiwan) e Turquia (Mediterrâneo Oriental), vão seguir com atenção o desenrolar do conflito na Ucrânia.

“A reação do mundo à tentativa da Rússia de dividir a Ucrânia e a medida em que as potências ocidentais intervêm serão estudadas de perto por aqueles com objetivos semelhantes”, esclarece a análise feita pela The Economist.

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