O mundo não é suficiente – ou melhor, não será se continuarmos a usar tanto dele. Enquanto a população global duplicou na segunda metade do século XX, a produção de grãos alimentícios triplicou e o consumo de energia quadruplicou. Um novo relatório do Bank of America (BofA), ainda não disponível ao público mas revelado pela revista ‘Fortune’, identificou as 10 maiores áreas nas quais a escassez de recursos deve afetar os mercados globais nas próximas décadas. Alguns deles, como água ou ar puro, não são surpreendentes. Mas outros, como serviços de saúde, atenção e tempo livre, pintam um quadro sombrio do futuro.
Os recursos que serão mais escassos no futuro, segundo o relatório, são água, biodiversidade e ar, terras férteis e metais raros, agricultura, eliminação de resíduos, poder de processamento, juventude, saúde e bem-estar, educação e tempo.
Água, agricultura e ar
Se os esforços de conservação não aumentarem significativamente, a maioria das reservas globais de água doce pode esgotar-se até 2040, de acordo com o BofA. O fósforo, que é usado para fertilização na agricultura moderna, também pode ter uma oferta cada vez menor em 2030, afetando o abastecimento global de alimentos.
Espera-se também que o ar respirável e a qualidade ambiental se tornem um recurso mais escasso. O relatório estima que a poluição do ar já mata mais pessoas em todo o mundo do que a SIDA, malária, diabetes ou tuberculose, enquanto a eliminação de lixo mal administrada mata mais de 1 milhão de pessoas por ano.
Metais, resíduos e poder de processamento
À medida que a procura aumenta em números recorde de metais raros usados em tecnologia como painéis solares, smartphones, entre outros, essas reservas também estão a esgotar-se, de acordo com a pesquisa, principalmente porque a infraestrutura de reciclagem de dispositivos eletrónicos ainda não está à altura. “Geramos cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrónico todos os anos”, apontou o relatório. “Isso é o equivalente a deitar fora mil laptops a cada segundo.”
Alguns desses metais, como lítio e níquel, podem ver a procura exceder a oferta já em 2024, mas a procura por metais em geral pode aumentar seis vezes até 2040, de acordo com a Agência Internacional de Energia, um órgão de vigilância intergovernamental de energia. Esses componentes são críticos para uma transição para a energia renovável.
O relatório do BofA prevê que precisaremos alimentar mais de um bilião de dispositivos eletrónicos até 2035, o que poderia criar outra escassez de chips semicondutores em todo o mundo.
Juventude e saúde
Embora as questões relacionadas à escassez de água e minerais estejam bem documentadas há algum tempo, o novo relatório destaca outra área importante de escassez de recursos que recebeu substancialmente menos atenção: o capital humano.
“Já atingimos o pico da juventude, com avós a superar os netos em todo o mundo”, diz o relatório, destacando as taxas de natalidade recorde nos EUA e na China – as populações mais velhas vão sobrecarregar os sistemas de saúde e vão tornar os serviços de saúde adequados mais escassos.
O relatório descobriu que, em 2022, havia mais avós do que crianças na América do Norte e mais pessoas com 65 anos ou mais do que pessoas com 15 anos ou menos. Foi ainda previsto um pico populacional de 10 mil milhões de pessoas em 2064, seguido por um declínio gradual.
Os serviços de saúde também serão afetados pela escassez de profissionais de saúde. O relatório estima que haverá menos 18 milhões de profissionais de saúde em 2030 do que há agora, com os países empobrecidos a serem os mais afetados.
Tempo e ‘skills’
Alguns dos pontos mais impressionantes da pesquisa não são sobre mercadorias físicas, mas sobre como o tempo, a atenção e a eficiência das pessoas também podem se tornar mais escassos.
À medida que as nossas vidas virtuais se tornam mais imersivas por meio de tecnologias emergentes, como o metaverso, o BofA prevê que o nosso tempo e eficiência disponíveis podem estar a atingir níveis recordes.
“Passamos um terço do nosso tempo acordados a olhar para o écran e deslizar em aplicações – ou seja, mais de 11 anos na vida, incluindo três anos gastos nas redes sociais”, apontou o relatório.
Além de menos tempo, a perda de eficiência será agravada por habilidades valiosas mais escassas, pois as instituições educacionais não serão capazes de acompanhar as exigências em evolução das tecnologias em rápida mudança.
Soluções transformadoras
Mas mesmo que os humanos estejam a consumir o mundo em velocidade recorde, há coisas que podemos fazer para nos proteger contra a escassez de recursos.
A pesquisa identificou a transição para uma economia mais circular, onde o desperdício é minimizado e os processos económicos restaurativos ou regenerativos são tornados prioritários, como uma etapa essencial, pois agora 99% dos itens que os humanos recolhem, mineram, processam e transportam acabam no lixo em menos de seis meses.
Tecnologias inovadoras para reduzir o desperdício e garantir que o mundo viva dentro dos meios que o planeta pode fornecer são o que o relatório chama de “tecnologia de escassez” – essas soluções, como agricultura regenerativa e tecnologia de geração de energia mais eficiente e limpa, podem ajudar a equilibrar oferta e procura de forma mais sustentável.








