Aveiro recebeu a 5ª edição do Automotive Summit, evento cujo foco esteve na discussão do novo paradigma da indústria automóvel. A cimeira reuniu especialistas das áreas da Indústria 4.0, Mobilidade, Cadeias de Abastecimento e Recursos Humanos que abordaram diferentes temáticas relacionadas com a disrupção das cadeias de abastecimento.
Em entrevista à Multinews, o responsável pelo evento, Pedro Silva, diretor-geral da OPCO, empresa portuguesa de consultoria e formação especializada na indústria automóvel, explicou que os problemas no sector são “todo um círculo que, atualmente, podemos dizer que é vicioso, quando antes era virtuoso, na medida do possível”.
1. Decorrida a 5ª edição da Automotive Summit, qual poderá ser apontado como o principal desafio num futuro próximo da indústria automóvel? E nesse sentido, quais têm sido atualmente os principais obstáculos?
PS – Os desafios, tanto atuais como futuros da indústria automóvel, foram precisamente os temas discutidos durante o Automotive Summit. Começámos com a pandemia e culminou na atual guerra, somando a todos os desafios resultantes do próprio sector que foram decorrendo.
Desde as alterações nos pedidos das OEMs e problemas na antevisão dos pedidos, devido à falta de chips e outras matérias primas, as alterações nos “mix” de produção entre as várias gamas e opções de viaturas, todas as mudanças nas cadeias de fornecimento, o disparar dos custos de energia e, claro, a potencial falta ou racionamento de gás.
O Automotive Summit teve como foco a discussão de todos estes desafios e também a apresentação de possíveis soluções e estratégias que possamos implementar a curto, médico e longo prazo.
2. Os sectores da logística, transporte e montagem têm sofrido fortemente. Há expectativa de melhorias num futuro próximo? Ou, pelo contrário, esperam-se ainda mais dificuldades?
PS – Em primeiro lugar, é importante que se faça a distinção, por um lado, dos conceitos de montagem, logística e transportes e, por outro, falhas e alterações, que afetam diretamente os primeiros. A cadeia de fornecimento, com todas as contingências – alterações de rotas e origens, aumento de preços e faltas de várias matérias-primas – condicionam completamente a montagem e, consequentemente, a disponibilidade de veículos no mercado.
É todo um círculo que, atualmente, podemos dizer que é vicioso, quando antes era virtuoso, na medida do possível. Se olharmos para o futuro, também no seguimento da primeira questão, e adicionarmos a inflação já presente, tudo se torna ainda mais desafiante. Respondendo às duas questões, foram estes os temas abordados no Automotive Summit, com as várias perspetivas da indústria, supply chain, serviços e associações a darem a melhor resposta face às incertezas com que nos deparamos.
3. A subida dos preços da energia tem sido uma preocupação a nível nacional e europeu. Em que medida pode impactar a indústria e que soluções pode haver?
PS – Começando pelo final, soluções, e parafraseando uma expressão várias vezes repetida “apenas tendo uma bola de cristal”. Olhando a situação de frente, o preço pode ser apenas o primeiro desafio, sendo a disponibilidade o real problema. Foi confirmado que o país tem uma capacidade de armazenamento de gás natural correspondente a cerca de 5% da necessidade anual. Apenas parte dessa necessidade diz respeito à indústria. Nesta perspetiva, os planos de contingência e de continuidade do negócio tomam particular relevância, apesar da atual situação ainda otimista.
4. A nível fiscal, a nível de apoios, incentivos, em que medida pode ser considerada a ‘atenção’ do Governo ao sector? E que medidas poderiam ser avançadas para ajudar o sector a atravessar a crise atual?
PS – Os aspetos fiscais, de apoio e de incentivos foram já amplamente falados, não no Automotive Summit mas em várias iniciativas. Usando uma das expressões do último painel, resta também saber o que as empresas estão/vão fazer por si. Claro que o papel das associações e do estado é fundamental, mas há que olhar para dentro das organizações e tomar as medidas adequadas, sem ficar à espera de terceiros.











