Explicador: O que são os ‘Suisse Secrets’, a investigação que coloca em “cheque” o Credit Suisse?

“Suisse Secrets é uma investigação internacional sobre um dos bancos mais ricos e importantes do mundo”. É assim que a organização sem fins lucrativos “Organized Crime and Corruption Reporting Project” (OCCRP), criada por um consórcio de dezenas de jornais de vários países, define esta investigação.

André Manuel Mendes
Fevereiro 21, 2022
16:22

O que são os ‘Suisse Secrets’?

“Suisse Secrets é uma investigação internacional sobre um dos bancos mais ricos e importantes do mundo”. É assim que a organização sem fins lucrativos “Organized Crime and Corruption Reporting Project” (OCCRP), criada por um consórcio de dezenas de jornais de vários países, define esta investigação.

O consórcio passou meses a analisar informações de contas bancárias do Credit Suisse, o segundo maior credor da Suíça, e a informação que consta no relatório incluiu mais de 18.000 contas que detinham mais de 100 mil milhões de dólares, aproximadamente 96 mil milhões de euros, nos seus picos.

Os documentos foram entregues por um denunciante ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung, que também tinha sido o recetor de dados que originaram o Panamá Papers, e foi partilhada com o OCCRP.

 

Quem está envolvido?

Nos ficheiros tornados públicos encontram-se os dados de clientes do banco envolvidos em diversos crimes graves como tortura, tráfico de droga, lavagem de dinheiro ou corrupção.

Entre os nomes divulgados encontram-se mais de 100 clientes com nacionalidade portuguesa, como é o caso do luso-angolano Álvaro Sobrinho e Hélder Bataglia, fundador da Escom, o braço não financeiro do Grupo Espírito Santo em Angola (BESA).

Ambos os empresários estão a ser investigados em Portugal no âmbito da Operação Monte Branco, um esquema de lavagem de dinheiro no BESA enquanto Álvaro Sobrinho era presidente executivo do banco e Hélder Bataglia fazia parte da administração.

Álvaro Sobrinho tinha 12 contas no Credit Suisse, sendo que uma delas já teve 78 milhões de dólares, e Hélder Bataglia também já teve 10 contas. Ambos partilharam ainda três contas, abertas no mesmo dia.

De acordo com o ‘Expresso’, membro do OCCRP, a lista de clientes portugueses no Credit Suisse inclui uma dezena de imigrantes na Venezuela, duas dezenas de chineses e ainda dezenas de cidadãos africanos com dupla nacionalidade, não apenas residentes em ex-colónias portuguesas, mas também em países como Tanzânia e Camarões.

 

Qual a responsabilidade do Credit Suisse?

Nos documentos tornados públicos, o Credit Suisse demostra falhas graves nas diligências tomadas. O banco abriu e manteve contas bancárias para um leque de clientes de alto risco em todo o mundo e de forma repetida.

Em comunicado, o Credit Suisse disse que “rejeita veementemente” as acusações feitas sobre suas práticas de negócios.

“As matérias apresentadas são predominantemente históricas, em alguns casos remontam à década de 1940, e as contas dessas matérias são baseadas em informações parciais, imprecisas ou seletivas, descontextualizadas, resultando em interpretações tendenciosas da conduta empresarial do banco”, disse o banco em comunicado, acrescentando que 90% das contas foram fechadas ou estavam em processo de fecho antes do início das investigações.

No entanto, a OCCRP menciona que o Credit Suisse manteve relacionamentos com alguns desses clientes durante anos.

 

Em que outros casos se viu envolvido o Credit Suisse?

No início de fevereiro o Credit Suisse enfrentou acusações por permitir que um suposto gangue de traficantes de cocaína lavasse milhões de euros. De acordo com o tribunal suíço, o banco, nomeadamente um ex-gestor, não tomaram as precauções necessárias para impedir que os supostos traficantes de drogas escondessem e lavassem dinheiro entre 2004 e 2008.

“O Credit Suisse rejeita sem reservas como sem mérito todas as alegações que são levantadas contra ele e está convencido de que o seu ex-funcionário é inocente”, disse o banco em comunicado à data.

No passado, em 2014, o banco declarou-se culpado por ajudar americanos a apresentar declarações fiscais falsas e concordou em pagar 2,2 mil milhões de euros em multas e restituições. No ano passado, concordou em pagar perto de 420 milhões pelo seu papel num esquema de suborno em Moçambique.

 

Demissão de Horta-Osório

António Horta-Osório demitiu-se depois de nove meses no cargo, após quebrar medidas de prevenção contra a covid-19 na Suíça e Reino Unido.

“Lamento que algumas das minhas ações pessoais tenham levado a dificuldades para o banco e comprometido a minha capacidade de representar o banco interna e externamente”, disse Horta-Osório num comunicado citado pela agência ‘Bloomberg’.

O português tinha regressado à Suíça do Reino Unido a 28 de novembro e partido para a península ibérica antes de um período de quarentena obrigatório de 10 dias ter terminado, acrescentou a Bloomberg.

Antes, Horta-Osório já teria quebrado as regras em julho de 2021, quando assistiu às finais de ténis de Wimbledon em Londres, contrariando as regras de prevenção no Reino Unido.

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