O “achismo” nas discussões

A opinião de Pedro Fontes Falcão, gestor e Director do Executive MBA do ISCTE

Executive Digest

Por Pedro Fontes Falcão, gestor e Director do Executive MBA do ISCTE

Muitas vezes estamos a discutir assuntos e as opiniões são diversas. Ora, em situações de cariz profissional, e quando as pessoas se preparam para as discussões, assumimos que tenderá a haver uma análise e troca de argumentos mais baseada em factos e dados, ou seja, as opiniões serem sustentadas em análises mais cuidadas e com referência a aspetos mais objetivos.



Mas nem sempre é assim, especialmente quando surge um tema que ninguém antecipou ou se preparou para tal. Nessas situações, com alguma frequência, muitas pessoas apresentam e defendem as suas opiniões, não baseadas numa análise cuidada e fundamentada, o que não as impede de as defender de forma muito veemente. São opiniões baseadas no “achismo” (“Eu acho que…” mas sem fundamentação cuidada).

Na tomada de decisões, geralmente não temos a informação toda de que necessitamos, e muitas vezes temos de ser rápidos a decidir. É a realidade do dia-a-dia.

Ora na tomada de decisões, por vezes as pessoas seguem heurísticas, que são processos cognitivos empregados em decisões não racionais, sendo definidas como estratégias que ignoram parte da informação com o objetivo de tornar a escolha mais fácil e rápida.

Sem entrar em aspetos muito técnicos, as pessoas têm processos de cognição, sendo que há um sistema que é rápido, automático, sem esforço, associativo e frequentemente carregado de emoção e, portanto, difícil de controlar ou modificar. Na prática, é essencialmente um sistema de “piloto automático” no qual fazemos as coisas mais facilmente e por meio da repetição.

Este sistema simplifica a vida, permite uma resposta mais rápida e sem grande esforço, sendo que leva, com relativa frequência, a respostas certas. Mas muitas vezes, isso não acontece, embora as pessoas estejam convencidas do contrário.

Um caso tem a ver com a heurística da disponibilidade. Quanto mais fácil é lembrarmo-nos de algo, mais assumimos a sua importância. Se temos na mente um caso de uma empresa de um amigo que teve um problema X (que na realidade é pouco frequente e sem grandes consequências, mas que tem muita visibilidade), passamos a considerar que a sua frequência ou consequências são maiores do que na realidade.

Noutro caso, em relação ao excesso de confiança, há estudos que referem que a grande maioria dos condutores acredita que são melhores do que a média; noutro exemplo, a grande maioria dos casados acredita que a sua probabilidade de divórcio é mais baixa do que a média. Ora, só 49.99% dos respondentes é que se deveriam considerar melhores do que a média. Porque é que isto sucede? Pode resultar de autoengano, ou seja, as pessoas querem achar-se melhores do que são, não querendo assumir que não são boas condutoras;  e/ou por compararem a sua situação com exemplos extremos, como aquelas pessoas que andam sempre com o carro cheio de riscos e amolgadelas na chapa, ou aqueles que entram sem querer em contramão numa rua.

O excesso de confiança, entre outros, leva as pessoas a não procurar muita informação objetiva nem a ouvir e obter feedback dos outros, mantendo a sua opinião (que pode não estar sustentada em dados).

Isto são alguns exemplos de processos de tomada de decisão que não se baseiam numa análise cuidada de dados e informação. Devemos estar atentos a estas heurísticas.

Termino dizendo que não se deve excluir a intuição, como complemento no processo de tomada de decisão, o que é diferente do “achismo”.

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