O Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANPSP), Ricardo Mexa, considera que se nada for feito para contrariar a evolução crescente da curva pandémica, Portugal pode ultrapassar as 100 mortes diárias por Covid-19 na próxima semana e até os 10 mil novos casos verificados ontem.
Em declarações à Executive Digest o responsável começou por mencionar o conceito de «terceira vaga», que tanto se tem falado, sublinhando que essa não é uma questão técnica, são apenas números. «Estamos a assistir a um aumento do número de casos e isso gera-nos muita apreensão», afirma.
«Tivemos um período de maior incidência no final de Novembro início de Dezembro, depois tivemos uma descida que não foi muito vincada e estabilizou na ordem dos três mil casos por dia e agora estamos a assistir a este aumento. Se isso configura ou não uma terceira vaga é uma questão de nomenclatura», considera.
Ricardo Mexia indica que «aquilo que os indicadores apontam é que podemos ter dias muito complicados com um número volumoso de casos e isso naturalmente coloca enorme pressão sobre os nossos serviços de saúde, complicando a resposta a esta elevadíssima procura».
«Temo que vamos ter aqui uns dias com muitos casos, teremos um período difícil nas próximas semanas», defende o especialista sublinhando que destes 10 mil novos casos registados ontem, parte vai «gerar uma maior procura nos serviços de saúde, outros terão agravamento do seu estado e outros terão desfechos negativos com óbitos».
Nova variante poderá ter alguma influência
Assim, o presidente da ANMSP, considera que estas 70, 80 mortes diárias «se vão agravar daqui a uns dias, os casos estão a evoluir e esse impacto é preocupante», afirma sublinhando que a taxa de letalidade atual oscila entre 1% e 2%, com mais de 10 mil casos por dia as contas são fáceis de fazer».
«Sabemos que demora algum tempo até assistirmos a essa evolução, mas provavelmente daqui a uma semana pode haver impactos muito negativos», refere apontando para números diários de mortalidade que poderão ultrapassar consideravelmente a barreira dos 100.
Sobre as infeções, as perspetivas também não são mais otimistas. «Temos mais casos na população, o famoso Rt (risco de transmissão) está a aumentar, é possível que se não mudarmos de comportamentos, se não reduzirmos os contactos os números aumentem ainda mais» para além dos 10 mil casos de ontem.
No que diz respeito à relação entre o aumento de infeções e as épocas festivas, o responsável não tem dúvidas de que ela existe. «Toda a gente retira essa conclusão. Já sabíamos que havendo um período festivo iria haver um aumento dos casos, temos a experiência do Dia de Ação de Graças nos EUA em que isso se verificou sem alívio das medidas, com alívio então naturalmente que a situação se complica».
«Não tínhamos dúvidas nenhumas de que iria aumentar o número de casos, a questão aqui é qual a magnitude desse aumento, essa é a dúvida que ainda persiste», afirma Ricardo Mexia, apontando também mais dois fatores que podem ter impulsionado esta subida.
«Sabemos por experiência da gripe, que tipicamente o pico de incidência acontece perto do final do ano, inícios do próximo, também a nova variante da Covid-19 poderá ter alguma influência», refere. Ainda assim, para além destes fatores «é inquestionável que o período festivo teve um contributo importante».
A maior falha foi a falta de preparação
Para Ricardo Mexia «a grande falha» na resposta à pandemia foi a falta de preparação. «Há muito tempo que andamos a dizer que devíamos ser menos reativos e mais proativos», ou seja, «antes de se aliviar medidas devia ter sido antecipada a dimensão da resposta, através do reforço de serviços, tudo isso tinha de ter acontecido antes».
«Isto é um problema que toda a gente já tinha antecipado, todos sabíamos que após as festas era provável que a situação se complicasse, por isso estar agora a ponderar se se vai intervir sobre um problema, parece-me inadequado, devíamos ter planeado antes», considera.
Assim, para travar a evolução da curva, o responsável defende o reforço das unidades de saúde pública, da resposta a procura de cuidados de saúde, por Covid e não só, «também a questão da comunicação deve ser melhorada». «Temos a vacina, mas é preciso que seja dito às pessoas que não é por isso que resolvemos o problema, até lá ainda vão passar muitas semanas», defende.
«As medidas não vão mudar num horizonte muito breve, temos todos de manter as cautelas, o distanciamento físico, a etiqueta respiratória, higienização das mãos», afirma o responsável sublinhando que deve também «haver medidas ajustadas à dimensão do risco», mas sem querer antecipar medida concretas, como um possível confinamento ou recolher obrigatório.














