Durante anos, os automóveis elétricos estiveram fora do alcance da maioria dos compradores, não por falta de oferta ou de campanhas de marketing, mas devido a um fator determinante: o preço. Essa realidade começa agora a alterar-se, com o surgimento de novos modelos posicionados nos escalões mais baixos do mercado, segundo uma análise do ‘El Confidencial’.
A verdadeira democratização do carro elétrico, porém, continua a estar concentrada num segmento muito específico: veículos com um preço inferior a 25 mil euros. Acima desse patamar, mesmo com apoios públicos, os elétricos permanecem maioritariamente reservados à classe média alta. Até há dois ou três anos, a oferta nesta gama era residual e implicava compromissos significativos face aos modelos a combustão.
Um mercado marcado por compromissos
Em 2021 e 2022, adquirir um automóvel elétrico por menos de 25 mil euros significava aceitar um produto claramente inferior ao equivalente com motor de combustão. O caso mais ilustrativo foi o Dacia Spring, que se destacou como o elétrico mais barato do mercado europeu, com preços entre 16 mil e 18 mil euros, mas também como um modelo extremamente básico, pensado quase exclusivamente para utilização urbana.
Apesar de acessível, apresentava limitações evidentes ao nível da autonomia, do desempenho e da versatilidade, tornando difícil a sua afirmação como alternativa real a um citadino convencional. Acima deste patamar surgiam modelos como o Renault Twingo Elétrico, já próximo dos 23 mil ou 24 mil euros, ou o Fiat 500e, que ultrapassava claramente a barreira dos 25 mil euros e ficava fora desta equação.
Na prática, a mensagem era clara: existiam carros elétricos baratos, mas apenas como solução de compromisso, e não como substitutos diretos dos modelos mais vendidos na Europa, refere o ‘El Confidencial’.
O que está a mudar no segmento de entrada
A transformação recente do mercado não resulta de uma descida generalizada dos preços dos carros elétricos. O que mudou, de forma estrutural, foi o tipo de veículo que começa a surgir próximo da fasquia dos 25 mil euros. Durante vários anos, esse valor estava associado a elétricos urbanos muito limitados. Hoje, começam a aparecer modelos que elevam claramente o nível de utilização diária.
Um dos exemplos apontados é o MG 4 Electric, que, dependendo da versão, se posiciona próximo deste preço e já compete em dimensões e conceito com compactos tradicionais como o Golf ou o Leon, e não apenas com pequenos citadinos. Trata-se de uma mudança relevante na perceção e na funcionalidade dos elétricos de entrada.
Regulamentos, custos e sobrevivência industrial
Esta evolução não resulta de altruísmo por parte dos fabricantes. Está diretamente ligada ao aumento dos custos associados aos motores de combustão, às exigências regulatórias europeias e à maturidade crescente das plataformas elétricas. As baterias, em particular as de tecnologia LFP, permitem hoje um maior controlo de custos sem riscos excessivos, tornando viável a produção de modelos mais acessíveis.
É neste contexto que o Grupo Volkswagen decidiu avançar com uma nova geração de veículos elétricos de baixo custo a partir de 2026. O plano inclui quatro modelos urbanos e compactos — Cupra Raval, Volkswagen ID. Polo, Skoda Epiq e Volkswagen ID. Cross — a produzir em Espanha, bem como um futuro Volkswagen ID.1 a fabricar em Portugal, de acordo com o ‘El Confidencial’.
Todos estes veículos foram concebidos desde a origem para custarem menos de 25 mil euros e para substituírem, em versão elétrica, modelos de grande sucesso comercial como o Polo, o Ibiza ou o Fabia. Não se tratam de edições simbólicas, mas da base da estratégia elétrica do grupo para a Europa, com produção local e aposta em volumes elevados.
Uma ofensiva alargada e com impacto a partir de 2026
A aposta no segmento de entrada é reforçada por outros construtores. A Renault prepara novos citadinos elétricos, como o Twingo E-Tech, com preços a partir de 18.330 euros, enquanto a Dacia trabalha num futuro modelo de baixo custo. Paralelamente, várias marcas chinesas estão a adaptar as suas propostas ao mercado europeu, com o mesmo objetivo: tornar o carro elétrico acessível uma opção estável e não excecional.
Por menos de 25 mil euros, já é possível encontrar algo que praticamente não existia há dois ou três anos: veículos elétricos capazes de responder às necessidades básicas de mobilidade quotidiana sem concessões extremas. Tudo indica que 2026 marcará o momento em que esta tendência deixará de ser marginal, com mais modelos concebidos para este segmento, maior produção europeia e concorrência direta com os automóveis a combustão.














