2026: o ano da incerteza global que ameaça empresas e comércio internacional, alerta Coface

Segundo o índice da Coface, o risco político global atingiu 41,1%, o valor mais elevado de sempre, confirmando uma tendência estrutural e não meramente conjuntural

Francisco Laranjeira
Fevereiro 13, 2026
12:15

A Coface divulgou a sua análise anual de risco político e social, identificando 2026 como um ano de elevada volatilidade global, com impactos diretos no comércio internacional, nas decisões de investimento e na estabilidade empresarial.

Eleições decisivas em várias geografias, aumento da contestação social e reconfigurações geopolíticas estão a redefinir o ambiente económico mundial. Segundo o índice da Coface, o risco político global atingiu 41,1%, o valor mais elevado de sempre, confirmando uma tendência estrutural e não meramente conjuntural.

Risco político torna-se variável estratégica

De acordo com a Coface, dois fatores explicam a deterioração do contexto global: o aprofundamento de conflitos armados — como a guerra na Ucrânia e as tensões no Médio Oriente — e o aumento da agitação interna violenta em diversos países.

Este cenário obriga as empresas expostas ao comércio internacional a integrar o risco político como parâmetro de longo prazo nas suas estratégias de crescimento, cobertura e investimento.

Risco n.º 1 — Eleições e instabilidade política

O ciclo eleitoral de 2026 é descrito como um dos mais tensos da última década. Nos Estados Unidos, as eleições intercalares de novembro poderão alterar o equilíbrio de poderes, com renovação total da Câmara dos Representantes, 35 lugares no Senado e 36 governos estaduais.

Na América Latina, o Brasil enfrenta presidenciais decisivas, com a popularidade de Lula em queda, enquanto a Colômbia e o Peru atravessam contextos políticos igualmente instáveis.

Na Europa, várias eleições poderão redefinir o equilíbrio interno da União Europeia. A Hungria pode assistir a uma mudança após 15 anos de liderança de Viktor Orbán. Em França, as municipais de março servirão de barómetro para as presidenciais de 2027. Na Suécia, as legislativas testarão a consolidação do voto de protesto.

Em África, a tendência de fragilidade democrática mantém-se, com eleições previstas na Argélia, Etiópia, Marrocos, República do Congo, Uganda e Benim. Na Ásia, o Bangladesh será um ponto crítico, com legislativas e referendo constitucional.

Segundo Ruben Nizard, Diretor de Investigação Setorial e Análise de Risco Político da Coface, o risco eleitoral não reside apenas nos resultados, mas na polarização e incerteza que podem afetar acordos comerciais e políticas industriais.

Risco n.º 2 — Contestação social estrutural

A mobilização social tornou-se mais frequente e organizada, tanto em economias emergentes como avançadas. Jovens e populações afetadas por crises sucessivas lideram protestos em vários países.

Na Ásia, protestos no Nepal, Indonésia e Filipinas evidenciam crescente descontentamento. Em África, Marrocos e Madagáscar registaram forte agitação, incluindo um golpe militar neste último.

O Irão é apontado como um dos países mais frágeis politicamente, ocupando a segunda posição no índice da Coface, com 86%. A contestação interna mantém-se persistente, alimentada por crises económicas e sociais.

Também nos países avançados se multiplicam sinais de tensão. Em França, o acordo UE-Mercosul gerou protestos agrícolas. Na Bulgária, mobilizações da Geração Z levaram à demissão do governo. Nos Estados Unidos, a política tarifária pesa sobre empresas e consumidores, alimentando descontentamento interno.

Risco n.º 3 — Geopolítica e disputas de poder

A incerteza geopolítica permanece elevada. A guerra Rússia-Ucrânia entra no quarto ano sem solução à vista. No Médio Oriente, o cessar-fogo entre Israel e o Hamas não elimina a fragilidade estrutural da região.

Nos Estados Unidos, decisões tarifárias controversas aumentaram a incerteza comercial, enquanto o Supremo Tribunal deverá pronunciar-se sobre o alcance dos poderes tarifários do executivo.

Este ambiente exige das empresas uma abordagem mais resiliente, incluindo:

– Reforço da monitorização política;
– Diversificação geográfica das operações;
– Maior flexibilidade das cadeias de abastecimento;
– Integração sistemática do risco-país nas decisões estratégicas.

Para Anna Farrugia, economista da Coface, 2026 começa num mundo em que a geopolítica deixou de ser um ruído de fundo para se tornar um fator estruturante das estratégias empresariais.

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