2022: Silêncio, que temos de nos ouvir!

Por Ana Côrte-Real, Diretora MBA Executivo, Católica Porto Business School

Depois do Natal, testei Positivo à Covid 19. A maioria das pessoas com quem mais privo padeceram de poucos sintomas, mas eu não tive essa sorte. Tivesse cá o meu Pai e diria que seria o “azar dos Castros”.

Perante o cansaço, o corpo reclama “não fazer nada”, reclama silêncio, reclama paragem.  E foi perante esta imposição do corpo que se sobrepôs à mente (e, valha a verdade, também perante um livro maravilhoso que recebi como  presente de Natal), que decidi escrever este artigo e dar-lhe o título “2022: silêncio, que temos de nos ouvir!”.

Na verdade, como refere Kagge, no seu livro “Silêncio na era do Ruído”, esta questão acima mencionada não é de todo uma reflexão recente. Já o filósofo Blaise Pascal, no Sec. XVII, referia que “Todos os problemas da humanidade decorrem da incapacidade de o homem ficar tranquilamente sentado sozinho no seu quarto”.

Ora, com base nestes ingredientes, na minha paragem obrigatória dei comigo a pensar em várias questões que se relacionam com o que acima referi: a nossa (in)capacidade de saber esperar, a nossa (in)capacidade de estarmos aborrecidos, a busca incessante pela abundância de atividades, a permanente conectividade, a permanente (in)disponibilidade, a falta de estarmos sem fazer nada e a falta de silêncio nas nossas vidas, pessoais e profissionais.

Saber estar em silêncio é uma arte difícil. Por exemplo, na minha formação de coaching, um dos grandes desafios foi saber estar em silêncio na condução de uma sessão de coaching… aquele silêncio colocava-me uma pressão tal que rapidamente eu desatava a falar, assim prejudicando o caminho de autodesenvolvimento e aprendizagem do coachee. Atropelando a escuta ativa.

Quando estamos em família, numa refeição à mesa, e de repente fica silêncio (nós somos muitos) há logo alguém que repara e diz “Ui, ninguém fala?!”. Como se o silêncio não tivesse vozes interiores.

E quantas vezes um líder faz silêncio com as suas equipas? Permite às suas equipas espaço e reflexão individual? Quantas vezes um líder deambula pela sua instituição em silêncio, a observar as “suas” pessoas, a ouvir o que a voz não lhes permite dizer, mas que os gestos, os comportamentos não o podem “gritar” mais alto?

Quantas vezes deixamos os nossos filhos sentirem-se aborrecidos? Sim. Aborrecidos. Sem nada para fazer?!

Quantas vezes somos capazes de estarmos deliberadamente sentados num sofá sem fazer nada? Não porque estejamos doentes e não conseguimos… mas porque decidimos não fazer nada e ouvir o nosso silêncio?

Esta ânsia da “to do list” dá-nos a sensação de movimento, de produtividade, de realização; mas, na verdade, esta abundância de atividades, como diz Kagge, pode não ser mais do que uma pobreza experiencial na medida em que não nos permite ganhar perspetiva sobre nada do que fazemos, não nos dando espaço para ganhar visão estratégica, não nos dando espaço para que o ano seja novo e nós façamos as coisas de forma diferente.

A incapacidade de estarmos em silêncio, de estarmos sentados sem fazer nada, de estarmos quietos, parados e de nos permitirmos a tudo isto é algo em que vale a pena pensar.

Não quero com isto, evidentemente, fazer a apologia do silêncio, silêncio; ou de estarmos parados, parados. Não. O que faço é a apologia do silêncio e das paragens que nos permitam avançar e sermos pessoas e profissionais mais completos e mais autênticos.

Que 2022 seja um ano de silêncios maravilhosos, de aborrecimentos enriquecedores, de muitas paragens, para que o caminho valha pelo processo e não pelo destino.

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