Voos ‘acessíveis’ de Londres para Nova Iorque em menos de quatro horas: ‘novo’ Concorde quer voar mais baixo, mais barato e mais longe

Objetivo é que, até ao final da década, uma aeronave comercial com capacidade para até 80 passageiros voe a Mach 1,7 sobre o oceano, a cerca de 18.000 metros de altitude

Francisco Laranjeira
Janeiro 19, 2026
18:50

Meio século após o Concorde ter inaugurado as viagens comerciais acima da velocidade do som, um empresário americano diz estar pronto para devolver o voo supersónico ao transporte de passageiros. Blake Scholl, fundador e diretor-executivo da Boom Supersonic, afirma que o objetivo é dar continuidade ao trabalho iniciado pelo icónico jato anglo-francês, mas “de uma forma muito mais acessível e popular do que o Concorde alguma vez foi”, segundo declarou ao ‘The Independent’.

O Concorde realizou o seu primeiro voo comercial a 21 de janeiro de 1976, quando um aparelho da British Airways partiu de Londres Heathrow rumo ao Bahrain. No mesmo dia, um avião da Air France descolou de Paris Charles de Gaulle com destino ao Rio de Janeiro, com escala em Dakar, sete anos depois do primeiro voo de teste supersónico. A operação enfrentou resistências iniciais, incluindo nos EUA, e terminou em 2003, encerrando uma era de 27 anos de aviação civil supersónica.

Uma ambição interrompida na história da aviação

Para Blake Scholl, o fim do Concorde representou um retrocesso raro na indústria aeroespacial. Em declarações ao ‘The Independent’, sublinhou que, entre o primeiro voo dos irmãos Wright em 1903 e o Concorde em 1969, a aviação avançou de forma contínua, antes de recuar com o abandono do voo supersónico de passageiros. “Em 1969 voávamos acima da velocidade do som e meses depois chegámos à Lua. Em 2025, isso deixou de acontecer”, afirmou.

Há cerca de um ano, a Boom Supersonic alcançou um marco simbólico ao fazer o seu protótipo XB-1 ultrapassar a barreira do som pela primeira vez. O objetivo é que, até ao final da década, uma aeronave comercial com capacidade para até 80 passageiros voe a Mach 1,7 sobre o oceano, a cerca de 18.000 metros de altitude.

Menos velocidade, menos ruído

A velocidade máxima prevista é inferior à do Concorde, que atingia Mach 2. Segundo Scholl, a opção por Mach 1,7 resulta de uma otimização focada no ruído, em particular durante a descolagem e a aterragem. Quanto maior a velocidade, explicou, mais pequenos e ruidosos têm de ser os motores. Ao reduzir ligeiramente a velocidade, o projeto pretende garantir que o Overture não seja mais barulhento do que um avião subsónico convencional junto às comunidades aeroportuárias.

Um dos principais obstáculos ao Concorde era o estrondo sónico, que limitava severamente o voo supersónico sobre terra. O responsável da Boom Supersonic sustenta que esse problema pode ser mitigado com tecnologia atual, combinando dados meteorológicos em tempo real e algoritmos avançados para ajustar altitude e velocidade, de forma a desviar a onda de choque para cima da atmosfera e torná-la impercetível no solo.

Essa solução implica uma penalização de tempo, reconhece, mas mesmo voando a Mach 1,05 ou Mach 1,3 em condições menos favoráveis, a aeronave continuaria a ser cerca de 50% mais rápida do que modelos como o Boeing 737 ou o Airbus A320.

Autonomia e rotas viáveis

A autonomia prevista para o Overture ronda os 8.000 quilómetros, consideravelmente superior à dos primeiros jatos supersónicos comerciais. De acordo com Scholl, isso abre mais de 600 rotas viáveis, incluindo ligações transatlânticas, transpacíficas e entre costas nos Estados Unidos. A rota Nova Iorque–Londres surge como a mais óbvia, com um tempo de voo estimado em cerca de três horas e meia.

Preço e conforto como trunfos

Um dos argumentos centrais do projeto é o preço. Enquanto as passagens do Concorde custavam o equivalente a cerca de 23.000 euros atuais, tornando-o um luxo restrito a elites, a Boom Supersonic aponta para tarifas semelhantes às atuais viagens de classe executiva transatlântica, em torno dos 4.500 euros ida e volta. Segundo o empresário, as companhias aéreas poderão ser rentáveis a esse nível graças à tecnologia moderna.

A empresa promete também resolver algumas das críticas históricas ao Concorde, como a cabina estreita. O Overture deverá ser construído em compósitos de fibra de carbono, equipado com motores Symphony mais silenciosos e eficientes, e oferecer uma cabina mais ampla, com portas mais altas, assentos mais largos e um interior redesenhado. A ausência de camas totalmente reclináveis é assumida sem reservas: a aposta, diz Scholl, é trocar camas de avião por mais tempo em casa.

Até ao momento, a Boom Supersonic reuniu 130 encomendas, pré-encomendas e opções por parte de companhias como a American Airlines, a United Airlines e a Japan Airlines.

Críticas ambientais e ceticismo

O projeto não escapa às críticas ambientais. Organizações e ativistas alertam para o elevado consumo energético do transporte aéreo, agravado no caso do voo supersónico. Anna Hughes, da Flight Free UK, afirmou ao ‘The Independent’ que a resposta às alterações climáticas passa por voar menos, não mais depressa.

Outros questionam a viabilidade do modelo num mundo cada vez mais digital, em que reuniões virtuais reduzem a necessidade de deslocações. Ainda assim, Blake Scholl mantém-se confiante, defendendo que voar deveria voltar a ser uma experiência inspiradora e humana, e não algo temido pela maioria dos passageiros.

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